ELA PARTIU

             O amor é esta coisa que nos torna aves em voos suicidas. Talvez algum desagradável poeta ouse um dia perscrutar as névoas fundas desse sentimento que nos fragmenta, e aumenta-nos em nossa pequenez, e consiga, com alguma palavra humana, dizer-nos o que é. E, sobretudo, explique que mistérios inerentes fecundam o fim dos amores.  Até lá, seguimos rasgando o peito, bebendo lutos, remoendo a perda de nós mesmos, buscando, em vão, esse pedaço de relva inóspita que chamamos de eu. Porque um amor perdido é um vão largo estendido em nós. É o luto mais radical: perder um amor é, durante certo tempo, estar deserto de nós mesmos. No luto amoroso, a falta que se apresenta não é a do outro, mas a de nós. Estamos ausentes não daquele que partiu, mas deste que ficou.

              Medito tudo isso enquanto ouço meu amigo dizer: “Ela partiu”. Na mesa do bar, entre goles de cervejas, salgadinhos, prosaísmos e fumaça de cigarro, ele confessa a separação, o fim inesperado do amor que ele julgava longo. Balbucia razões, com a voz indecisa, buscando palavras acertadas para consolar-se que a vida é assim mesmo, há pedaços de morte em cada instante, que a finitude é, a rigor, o sentido total dos viventes, e que deseja o melhor para ela. Acabou, mas, afinal, foram felizes naquela curta eternidade.

Ela partiu! É para ele a constatação mais triste do mundo. Ela partiu, ele me diz, e com ela vai-se também um certo modo de ver as coisas. Com ela, vai-se também uma outra comunhão com o mundo. Com ela, partiram-se os nomes dos filhos, os shows planejados, as viagens e os risos. Sem ela, agora, as noites de sábado no Art Visual Bar são medonhas, tristes, acinzentadas. Sem ela, agora, o Maculelê é uma moldura disforme, carente de vida e transfigurada de solidão. Sem ela, ele me diz, até o hambúrguer de feijão (que eles adoravam) é uma paleta de dessabores. Ela partiu, mas ficou a sua marca nos lençóis, o cálido cheiro de seu corpo que ainda povoa a casa.  A ausência presente dela o acorda, no seio da madrugada, quando inexplicavelmente ele pressente a sua sombra. Ela foi-se, ele enfatiza, mas deixou o conjunto de gestos, de odores, de formas, de sabores, um mosaico de vida que ambos construíram na aurora daquele amor.

Eu sei, os desiludidos do amor têm vocação para o hiperbólico. Mas atire a primeira pedra cartesiana quem nunca chorou sozinho, sob os escombros da saudade e da desilusão, nem vestiu-se de cinza depois de levar um toco, nem feriu-se de morte ao ver o ex-amor caminhando feliz, em libertas risadas com outro alguém.

O meu amigo é aspirante a filósofo. Porém, nesse momento, de nada serve ler o Banquete de Platão, ele não precisa ouvir Fedro. Também será inútil as cantigas de amor do Trovadorismo, os sonetos da paixão idealizada e puritana dos poetas do romantismo alemão ou de Álvares de Azevedo. O meu amigo está ferido, tragado na luxúria do abandono. Todos os seus gestos estão amontoados de uma ausência que tem um nome, um endereço e um cabelo ruivo. E não importa o racionalismo, a Dialética do Esclarecimento, o anarquismo, Marx ou as causas sociais. Que importa a luta vegana, os projetos de libertação do proletariado e dos animais? Nesta noite ele é o moço em cuja fronte mórbida anuncia-se publicamente: perdeu um amor!

Estamos no Rizomas´bar. Sobre a mesa de plástico há garrafas de cervejas, maços de cigarros e alguns livros. Um vento miúdo passa, indiferente. Pessoas riem na mesa ao lado. As prosas misturam-se aos rumores da rua. Com mãos frias, ele acaricia a barba, olha longínquo, desapegado das divagações dos amigos, vez ou outra bebe um gole, dá outro trago. As luzes, embora acesas, não diluem as penumbras. Toca Tim Maia: “Ela partiu. Partiu. E nunca mais voltou. Não voltou, não”.

Renato Pessoa

Renato Pessoa

RENATO PESSOA é escritor e crítico literário. Estudou filosofia na Faculdade Católica de Fortaleza e na Universidade Estadual do Ceará – UECE. Publicou, em 2011, O Corpo Arcaico. Em 2012, publicou Solidão Singular. Em 2014 organizou o livro Retratos De Abismo E Outros Voos – Antologia De Poetas Cearenses Contemporâneos. Em 2016 publicou A Paisagem Da Febre. Em 2017, publicou O Homem do Último dia do Mundo. Em 2018, participa do livro Cinco Inscrições da Mortalidade. É um dos criadores do Sarau O Corpo-Sem-Órgãos. É um dos idealizadores da Escola Popular de Filosofia.

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