ELA NÃO ESTÁ MAIS

Sim, infelizmente aconteceu. Ela não está mais aqui. As expectativas também se foram.

Com os olhos avermelhados e úmidos, fui sem jeito e desconsolado até a tenda pegar os bolos. Eram muitos e de vários tipos: macaxeira, milho, batata doce, cenoura, fofos e lisos. Dava e sobrava para todos.

A Covid-19 não brinca, desmanchou a III Convenção da família Oliveira.

Entrei no hotel; silêncio sepulcral!

Tristes, todos arrumavam as suas malas e se despediam para voltarem aos seus lares, alguns muito distantes. Olhares e gestos consternados, mas havia um ar de conformação.

Não consigo esquecer como entrei na enfermaria. Um misto de curiosidade e medo. Pessoas de máscaras e roupas brancas, demonstrando cansaço. Meu olhar deslizava pelos leitos com corpos de olhos fechados, atrelados a equipamentos. Continuei caminhando e avistei uma mão estendida dizendo-me: pare. Obedeci abruptamente e, circunspecto, fixei bem o olhar. Era ela, querendo viver, mas com o semblante já pálido e esmaecido … e com a voz fraca e enrouquecida, balbuciou: falaram que ainda tenho uns três minutos, disse disfarçando o medo do que estava bem próximo.

Sem sentir o corpo, saí caminhando como um sonâmbulo em delírio. Meus sentimentos me direcionaram para a sua longa caminhada: brincadeiras infantis, alegria do presente de Natal, passeios na avenida aos domingos, professora adolescente, primeiro lugar em concursos, ajuda monetária aos pais, profissional honesta e combativa, aposentadoria, trabalhos voluntários em tempo integral, posso dizer sem exagero.

Pródiga em ajudar desvalidos, sempre espichava o olho e o ouvido para detectar os mais necessitados e socorrê-los. Quando alguém tentava transgredir esse critério de justiça, ela, com força moral suficiente, não permitia … o que frequentemente lhe causava alguns dissabores.

Sempre resiliente em fazer o bem com devoção era a sua marca registrada.

Vivendo um sonho apavorante, meus neurônios trabalhavam na velocidade da luz. Exausto, de ombros caídos e cabisbaixo, sentei-me no meio fio do La Maison.

Sentia-me só e sem forças. Chorei copiosamente e enxuguei as lágrimas com as mangas da camisa suada. Pus-me de pé e levantei a cabeça; respirei fundo e mirei a Praia do Futuro. O céu estava azul e límpido. Ouvi o barulho das ondas do mar e inalei o cheiro fresco das algas marinhas.

Tinha que adquirir forças para cumprir a última missão do dia. Pegar os bolos na tenda e distribuí-los com os mais necessitados, copiando rigorosamente os seus critérios … última homenagem a quem fez tanto pelas vítimas do sistema perverso e excludente.

Busquei toda a sensibilidade do meu coração e caminhei tristemente relembrando a sua vida de força e coragem. Sofria com a inexistência de um ombro para recostar minha cabeça exausta. Isso acontecera com a morte do meu filho Daniel de 15 anos. Seu sepultamento foi no dia de Natal. O repicar dos sinos dilaceravam a minha alma.

O homem da tenda era magro, simpático e tinha o olhar penetrante e acolhedor. Vi nele um irmão. Tive vontade de abraçá-lo e beijá-lo.

– “Onde está ela”? Perguntou sorrindo.
– Virei a cabeça para disfarçar a emoção e falei: ela não está mais …

Percebi que ficou desapontado. De forma solidária, entregou-me as fatias de bolo em sacos plásticos e eu as distribui com os mais pobres em nome da Casa de Afonso e Maria.

Acordei suado e trêmulo. Meus olhos estavam inchados e vermelhos.

O diálogo entre mim e o homem da tenda não saía da minha cabeça:

– “Onde está ela”?
– Ela não está mais …

Ri do sonho louco que tive … sem pé nem cabeça.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.