EGOÍSMO A DOENÇA DA ELlTE BRASILEIRA

Que a elite brasileira é uma das mais egoísta do planeta já se sabia faz tempo. Nossas desigualdades sociais, aguda pobreza do saber, sucateamento das nossas instituições de ensino e pesquisa, pouquíssimas referências de cultura como bibliotecas, museus e teatros, além do pouco ou quase nenhum apreço pelos nossos acervos e memórias histórico-culturais, nos dizem muito do que estamos afirmando.

Para dar uma dimensão de quão ruim é o conceito de nossas elites frente ao mundo, das 32 nações estudadas pelo primeiro Índice de Qualidade das Elites (EQx), o Brasil ocupa a 27ª posição. Esse estudo leva em consideração dados internacionais, governamentais e de instituições como o Banco Mundial e o FMI, analisando dezenas de variáveis para construir quatro indicadores, a saber: poder econômico, valor econômico, poder político e valor político. A conclusão é que, “as elites brasileiras tiram mais valor da sociedade do que criam e agregam novas oportunidades”.

A pandemia ao tempo que fez aflorar um largo espectro de nobres sentimentos na ampla maioria da população, como a solidariedade, o cuidado com o outro, a compaixão, também revelou um lado egoísta e sombrio, de expressiva parcela da elite. Refiro-me a disseminação em massa de mentiras pelas redes sociais, revelando falta de compromisso e nenhuma preocupação com o bem coletivo, dentre tantas outras ações não recomendáveis.

A gravidade dessa doença pode ser diagnosticada pela posição que ocupamos em termos globais, quando o assunto é filantropia. Projeções do FMI, referenciadas na métrica de dólares a valores correntes, indicam que em 2020, com todos os rebatimentos da pandemia, sobre o PIB, ainda devemos ser décima segunda maior economia global; entretanto somos apenas o 122º, no ranking dos países que praticam doação e solidariedade.

Esse elevado grau de egoísmo das nossas elites é que explica porque milhares de idosos, e até crianças recém-nascidas, que moram sob pontes e viadutos nas grandes cidades, já não sensibilizam nem governos nem a sociedade; o que confirma a tradição malsã segundo a qual não cuidamos das nossas crianças e abandonamos os nossos velhos.

Quando o tema é o embrutecimento, a falta de solidariedade e humanismo da elite brasileira, somos levados à vergonhosa posição de lanterna, por exemplo, na América Latina. Proporcional ao tamanho das economias doamos menos do que países como Bolívia, Honduras, e Colômbia.

Trazemos essa reflexão aos nossos leitores a propósito do agravamento dessa patologia chamada egoísmo, agudizada durante a pandemia e que se manifesta pela primeira vez ainda em seu início, com a corrida aos supermercados pelos endinheirados comprando de tudo para estocar, e provocando o desabastecimento de alguns produtos, em detrimento da ampla maioria do povo pobre, que só podia comprar para o dia-a-dia.

Em um segundo momento, quando o governo institui o auxílio emergencial para acudir os chamados invisíveis deixados à míngua pela pandemia, essa anomalia se faz acompanhar de outra ainda mais grave que foi a desonestidade de milhares de servidores públicos, inclusive políticos detentores de mandato pelo País afora, que se inscreveram e passaram a receber o auxílio, tirando daqueles que realmente necessitavam a única fonte de renda para sua sobrevivência, especialmente das crianças, filhos desses extremamente pobres.

No presente, vivemos a exacerbação de todos esses abomináveis sentimentos cultivados por parte de uma elite adoecida, materializados nos vergonhosos episódios de fura-filas, nesse início da campanha de vacinação, revelando o lado mais cruel e desumano, de uma parcela significativa de nossa elite, que é o desprezo pela vida, especialmente dos idosos.

Nesses vergonhosos episódios de fura-fila, alguns oportunistas políticos, seus apadrinhados e empresários, na repugnante companhia daqueles maus médicos de Manaus, (felizmente foram 10), desrespeitaram e agrediram a nobilíssima e dedicada classe médica, assim como a todos os demais profissionais da área da saúde, e a Nação como um todo, ao se vacinarem antes do que os grupos prioritários, burlando os protocolos estabelecidos pelas autoridades sanitárias. Esse comportamento evidencia o alto grau de egoísmo de parte da nossa sociedade.

Se os lamentáveis episódios de fura-filas, revelam um Brasil, que ainda permite privilégios e impunidade, me permito lembrar das longas e humilhantes filas na frente das agências da Caixa Econômica, espalhadas pelos rincões do País, quando do pagamento do auxílio emergencial, durante os seis últimos meses de 2020, demostrando que, 132 anos depois da Lei Áurea, ainda estamos longe de alcançarmos a cidadania plena.

Diante de tão embrutecidos e lamentáveis episódios, imperioso se faz perguntar: qual a gênese desse comportamento tão desprezível? Revisitando o pensamento clássico buscando uma explicação, encontramos em Thomas Hobbes a afirmação segundo a qual, “[…] O homem é o lobo do homem”. O autor de “Leviatã” afirma que o ser humano é naturalmente egoísta e mau, e compete à sociedade contornar isso com uma coisa chamada contrato social.

Olhando para a realidade em curso constatamos que em substituição ao contato social de que Hobbes nos fala, e que poderia moldar esse sentimento naturalmente egoísta e mau, na prática o que se vivencia é o negacionismo desconstruindo as estruturas sociais, apoiado em ação atentatória à democracia e desprezo pela vida, alimentando a ira dos homens maus, adubando e regando o egoísmo manifestado agora durante a pandemia.

Ao contrário de outros filósofos políticos, o anseio revolucionário nutrido no pensamento de Hobbes, o fazia acreditar que o homem não possui uma natural disposição pela vida em sociedade. O autor de Leviatã defendia que a natureza humana é naturalmente guiada pelo egoísmo e pela autopreservação. Esse instinto  move o homem a praticar violência contra seu semelhante. Mesmo se opondo à ideia de democracia, Hobbes defendia ser necessário lutar por igualdade entre os homens. Qualquer semelhança com o que estamos vivenciando nesses tempos pandêmicos não é mera coincidência.

No contexto de tão obscuro cenário, onde não se compram vacinas, mas se libera a compra de até 60 armas por pessoa, bastando que se declare caçador ou colecionador (talvez para matar o vírus a tiro), somado ao egoísmo prevalente da elite brasileira, tais comportamentos nos dão a nítida percepção de que estamos passando por um agudo processo de involução quando o tema é a cidadania, e se nos remetermos ao tempo imediatamente apó13 de maio de 1.888, quando da assinatura da Lei Áurea, vale a pena resgatar o poema “14 de maio”, de Lazzo Matumbi, sobre os acontecimentos que seguiram com a formal libertação dos escravos, e seu significado nos dias atuais.

Escreveu Matumbi, “[…] No dia 14 de maio, eu sai por aí. Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir. Levando a senzala na alma, eu subi a favela pensando um dia descer, mas nunca mais desci. Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia. Um dia com fome, no outro sem ter o que comer. Sem nome, sem identidade, sem fotografia o mundo me olhava, mas ninguém queria me ver (…)”.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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