Laocoonte e seus filhos, c. 200 a.C., Museus Vaticanos

Educação Estética e a Arte Esquecida de Moldar a Alma Humana

Na última semana de 2023, me deparei com uma montanha de e-mails lotados de promessas de sucesso rápido e dicas para alcançar o topo em um piscar de olhos. Era como imergir em um oceano de ofertas tentadoras, onde se perdiam um ou dois e-mails que pareciam realmente importantes, escondidos entre anúncios prometendo resolver todos os problemas do mundo.

Entre a curiosidade de como tantas dessas ‘oportunidades’ lotaram minha caixa de entrada e o panorama desconcertante de promessas grandiosas, veio à mente as longas conversas que tive com os filósofos Valdo Barros e Anselm Jappe sobre a essência da educação estética humana. Foi nesse momento que percebi algo mais profundo em jogo: o verdadeiro significado da educação estava se perdendo em meio a essas ofertas rápidas e objetivos ambiciosos.

Hoje em dia, a educação parece limitar-se à acumulação de conhecimento e habilidades, deixando de lado a formação da nossa essência humana. Parece que estamos tratando a educação como uma ferramenta de manipulação sutil, ignorando o desenvolvimento da nossa personalidade.

Historicamente, a educação sempre buscou equilibrar os diferentes aspectos que compõem o ser humano. Os gregos, por exemplo, introduziram a ‘Paideia’, um modelo educacional que envolvia todas as artes e a prática de ginástica para formar cidadãos completos, não apenas acumuladores de informações. Essa ideia ressurgiu em diferentes momentos da história, especialmente durante o classicismo e romantismo na Alemanha do século 19, quando filósofos como Hegel, Feuerbach e Marx introduziram o conceito de ‘alienação’. Eles buscavam criar um ser humano integral, onde mente, corpo, razão e emoção não entrassem em conflito, mas estivessem em harmonia.

Sim, a estética nasceu com Kant ou até antes, mas aqui não falamos da estética filosófica. Estamos discutindo a ideia de um ‘homem estético’, alguém que busca uma forma de viver que vai além de riqueza e poder.

Friedrich Schiller, em suas ‘Cartas sobre a Educação Estética do Homem’ em 1795, expressou brilhantemente essa tendência. E no século 20, foi na Escola de Frankfurt que essas ideias foram revitalizadas. A estética foi vista como uma resistência ao capitalismo desumano, que trata o ser humano como apenas uma peça na engrenagem. Herbert Marcuse, em seu livro ‘A Dimensão Estética’ de 1977, referenciou as ‘Cartas’ de Schiller, destacando a busca pela felicidade como o cerne dos esforços em busca da libertação.

Na ideia de Schiller, a educação estética busca reintegrar o ser humano, frequentemente dividido pela divisão do trabalho e pelo ritmo da vida moderna, que tende a desenvolver apenas um aspecto útil para o trabalho em cada indivíduo.

Em resumo, a educação estética não se restringe à filosofia da estética. Ela procura um equilíbrio entre todos os elementos que nos tornam humanos, buscando uma harmonia profunda entre mente, corpo e emoções. Talvez seja hora de resgatar essa habilidade esquecida de não apenas moldar mentes, mas nutrir almas.

 

Imagem, domínio público: Laocoonte e seus filhos, c. 200 a.C., Museus Vaticanos

Heliana Querino

Heliana Querino Jornalista

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Heliana Querino Jornalista