E se Fortaleza fosse outra cidade?

Lá se vem o cabra sem medo. Voltou para região que tem um forte com um nome que ninguém pronunciava, não por ser inominável, mas por ser difícil – o tal Schoonenborch.  Todos da aldeia estavam ali parados olhando pro cabra sem medo. “Se voltou é que tá vivo”, cochichou uma senhora com ar de feliz. Trazia no cós da calça o facão manchado de encarnado e o olho fixado naquela construção medonha e cheia de sangue dentro de suas paredes.

Chegou na imensa porta de madeira e tirou da bolsa uma cabeça. Era Beck (Matias Beck), o homem branco que tomou a região dos outros homens brancos e construiu aquela coisa que chamava de forte. Naquele momento todos faziam sons com a boca e as crianças corriam empunhando gravetos como em posição de luta, o cabra sem medo era herói. Dentro da bolsa havia ainda um troço escuro, um cano. Aquele cano que tinha sido apontado para tantos ali na aldeia. Penduraram a cabeça e o cano numa árvore para que todos que chegassem ali soubessem que Beck estava morto.

O cabra sem medo foi criado pelos homens brancos antes daqueles, eles se diziam da Coroa Real Portuguesa, o que queria dizer absolutamente nada para as pessoas ali. Filho de índia pegada no laço, cresceu com ódio de ver tudo ser destruído, mas aprendeu a língua difícil e falou para as outras capitanías que não havia mais holandeses lá, Beck estava morto. As pessoas sentiam-se inspiradas e a guerra era esperada. Talvez todos morressem ou não. Talvez todos vivessem. Eles conheciam o lugar e eram resistentes. Iriam refazer a história e muitas mais cabeças estariam na árvore da estrada principal caso fosse necessário.

E se todos os portugueses que por aquelas terras pisaram não tivessem tido sucesso, e se todos os holandeses tivessem sidos mortos e se a revolução dos índios e seus filhos tivesse sido real? Não haveria Forte de Nossa Senhora de Assunção, o forte de Shoonenborch seria parte da história dos que vieram antes da Capitanía Real do Siará. A capitanía talvez tivesse sido ponto de resistência e teria se juntado à Capitania do Maranhão e à Capitanía de Pernambuco e uma grande guerra separatista aconteceria.

Talvez nada de coronelismo, talvez um território inexplorado por centenas de anos com a vida em comunidade mantida. Talvez eu esteja lendo muitas coisas sobre a Europa e exploração do Brasil, talvez eu esteja inspirada pelo filme Bacurau, mas não consegui não pensar que extraordinário seria se Fortaleza tivesse sido um ponto de resistência e o Forte ao lado do Rio Pajeú fosse apenas um marco dessa batalha. Se Fortaleza hoje fosse uma outra cidade. 

 

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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