E, SE ELE,…

… JÁ NOS PRIMEIROS CEM DIAS DE MANDATO, período que costumam eleger os competentes chefes do executivo como referência temporal, primária, para uma ampla avaliação crítica de governos recém instalados, de atuação no exercício da função essencial de administradores de um país, de um estado, de um agrupamento autônomo – seja à frente de estruturas públicas consolidadas, de sistemas políticos e judiciais bem alinhados com os propósitos de um povo, de economias fortes, sólidas, consistentes; seja no comando de países emergentes, entretanto ainda carentes de bons arranjos socioeconômicos internos e de responsável e vanguardista política de relações exteriores –, visando à revisão de planos submetidos ao crivo das massas votantes e por elas escolhidos por vias legalmente incontestáveis, com as naturais e consequentes correções de rumo ou intensificações de procedimentos, se ele – repito – tivesse compreendido que, legitimamente eleito pela maioria absoluta dos votos válidos em pleito eleitoral moderno, eficiente e insofismável, que vai, paulatinamente, desmerecendo as suspeitas eventuais e vãs, pois desprovidas de comprovação que lhes dê razoável sustentação, ao assumir, com o aval da inabalável e inatacável democracia, a rainha-mãe de todo o processo, universalizante e singular, (na prática, com o apoio geral e irrestrito das instituições públicas, republicanas e democráticas), o mais importante e significativo posto da República, tornava-se não apenas o chefe mítico de um rebanho de apoiadores à espera de uma revolução salvadora que certamente não advirá, o chefe supremo de uma claque míope, com visão obnubilada pelos efeitos sempre danosos do fanatismo – entre eles a intolerância, a intransigência e as atitudes supremacistas –, os quais sempre desbordam para a desordem, a anarquia, o caos, mas o grande líder de uma Nação soberana,  magnânima em recursos naturais, de ampla extensão territorial, de orla inigualavelmente convidativa ao turismo saudável, de fauna e flora cuja riqueza impõe zelo e cuidado extremos, um dos mais requisitados e promissores celeiros de alimentos do mundo, com vocação para o crescimento sustentável, de povo historicamente tido como pacato e ordeiro, com cerca de duzentos e dez milhões de habitantes, dos quais uma grande massa de indivíduos e famílias carece de condições mínimas de sobrevivência, reclama e demanda por políticas públicas de combate à fome, ao desabrigo, enfim, à marginalização social e à violência em todos os seus cruciais matizes.

 E, SE ELE,…

… tão logo o mundo percebeu que a ação do coronavírus já se tornara perigosa e ameaçadoramente pandêmica, exigindo da humanidade – especialmente de seus líderes – a reação que a Ciência assinalasse como a mais adequada no combate à disseminação da doença (a Covid-19) e em favor do atendimento reativo, médico, hospitalar, capaz de minimizar os efeitos letais do vírus, até porque o tratamento proativo e precoce dependia necessariamente da descoberta e produção de vacina em qualidade e quantidade suficientes a assegurar a imunização massiva, o que ora se tem tecnicamente revelado como único caminho a afastar de vez as ameaças funestas de ondas virais de múltiplas cepas que já dizimaram vidas aos milhares, tivesse compreendido que se tratava de um inimigo comum a todos, invisível e de alto grau de contaminação, de proliferação e de letalidade, que certamente poria em xeque o pouco prestigiado Sistema Único de Saúde, com todos os problemas e dificuldades diuturnamente enfrentados e com inevitáveis desbordamentos para toda a rede hospitalar, e que, por isso, exigia a atuação firme, segura e coordenada de todo um sistema de comando nacional, bem acima de quaisquer atitudes de cunho partidário, de matriz eleitoreira, e, como todo bom timoneiro em situação extremamente adversa, houvesse adotado a postura que sempre se espera de um verdadeiro líder, convocando todos os governadores e respectivos secretários de saúde e fazenda, para, juntamente com os ministros cujas áreas se envolvessem diretamente com o assunto, formarem, sob o seu competente gerenciamento e com o indispensável apoio,  no que coubesse às suas esferas de atuação, das casas congressuais e dos órgãos de Justiça, um amplo comitê de combate à pandemia – um Gabinete da Vida –, com recorrentes encontros virtuais, decisões conjuntas cientificamente construídas e ações objetivas e inadiáveis, efetivas e eficazes, em ambiente de guerra contra inimigo que usa estratégia inusual, invulgar, num verdadeiro “todos contra um”.

E, SE ELE,…

… com todo esse aparato de sustentação institucional, política e jurisprudencial, tivesse conduzido, com transparência, competência e autoridade, uma versão brasileira do Plano Marshall – pelo governo americano destinado à reconstrução dos países europeus destruídos pela 2ª Grande Guerra mundial –, por meio da qual, com assessoramento técnico de alto nível, incluindo o suporte das mídias eletrônicas e seus avanços algorítmicos, e assistência financeira oriunda, fundamentalmente, de redirecionamentos de recursos orçamentários federais, estaduais e até municipais, institucionalizasse, num primeiro estágio e com prazo indeterminado, o isolamento obrigatório de toda a população, excetuando apenas as pessoas comprovadamente envolvidas em serviços considerados essenciais, o exercício permanente e sem exceção de medidas de prevenção – o uso da máscara e do álcool em gel, além da não aglomeração, por exemplo –, a ampliação e o reaparelhamento dos leitos hospitalares e de UTIs, aqueles voltados exclusivamente para o tratamento de infectados com o coronavírus, tudo isso sob o estímulo de publicidade oficial com foco estratégico no convencimento do povo (O povo e o poder: juntos vamos vencer!), bem como sob contínua e rigorosa fiscalização e previsão legal de punições aos recalcitrantes e agentes de eventuais desvios de conduta e de recursos – a velha, incansável e onipresente corrupção –, com as pessoas, as famílias e as empresas fazendo jus à ajuda financeira que lhes garantisse a sobrevivência.

E, SE ELE,…

… sempre em proveitosa e saudável conjuminância com seus pares de gabinete, com atuação transparente, objetiva e arrimada na legitimidade dos atos, à luz do entendimento de que para brilhar não necessariamente tem de expor-se nas vitrinas da popularidade, nem jactar-se ou bravatear-se da invulnerabilidade dos clássicos heróis da Antiguidade ou de lampejos – ora sempre eivados de arrogância – da imortalidade das deidades greco-romanas, pusesse em prática cotidiana a agenda de um estadista, com serenidade, firmeza de propósitos e disponibilidade, em que se verificassem, por exemplo: a) a assinatura de convênios, após a rigorosa definição de critérios, atribuições e responsabilidades e à base de recursos estritamente federais, com o Butantã, a Fiocruz e outros institutos de pesquisas científicas de reconhecido desempenho na área, visando à descoberta e o desenvolvimento de vacina brasileira, no mais curto prazo, como a situação estava a exigir; b) o envolvimento de lideranças empresariais, de todos os segmentos, na busca de soluções, no curto e médio prazos, para os problemas que a pandemia então os afligia; c) o engajamento de todos os agentes do sistema educacional brasileiro, sob a tutela do Ministério da Educação e por meio das respectivas secretarias estaduais e municipais, no caso da rede pública, e das entidades de classe, no caso da rede privada, objetivando manter em execução a programação oficial, mesmo de forma precária, mas com emprego de instrumental de ensino à distância ou virtual/remoto; d) a autorização aos órgãos competentes para, tão logo o mundo cientificamente mais avançado iniciasse a comercialização de vacinas tecnicamente aprovadas ou em estágio avançado do respectivo processo de aprovação, o Brasil efetuasse compras nos extremos de sua capacidade de negócios de importação com os países ofertantes, de tal sorte que se instaurasse, tão logo isto se tornasse possível, a mais ampla campanha de vacinação em massa jamais vista nesta terra abençoada por Deus, inclusive contando com o mais efetivo – e mundialmente respeitado – sistema vacinal de que a humanidade dispõe; e) a conciliação da Saúde com a Economia, à medida que avançasse o programa de vacinação, mediante a priorização dos agentes produtivos, ou seja, das pessoas com comprovado vínculo empregatício, com a intermediação dos respectivos empregadores, relativamente a custos e procedimentos de aplicação, com vistas a abreviar, no limite do possível, o retorno das atividades econômicas e, por conseguinte, do justo salário dos trabalhadores; f) a imunização dos estudantes, de todos os níveis e séries, dos professores e de todos os profissionais vinculados à Educação, com o envolvimento de proprietários e dirigentes de estabelecimentos da rede privada de ensino, bem como dos secretários e diretores e coordenadores das escolas da rede pública; g) a vacinação, na sequência, dos sem-teto, dos moradores de rua, dos sem-terra, dos sem-emprego, das famílias que habitam a periferia, dos presidiários, dos portadores de comorbidades e, por fim, dos idosos, cuja permanência em isolamento consiste numa tarefa mais facilitada que a de manter em casa adolescentes e jovens e arrimos de família.

MAS, COMO ELE…

… optou por não montar o cavalo selado que passou à sua frente, o qual cavalgaria, garboso e triunfante, rumo ao panteão sonhado até pelo mais insignificante dos políticos, perdeu a grande chance de manter-se no poder por mais um mandato e de perpetuar-se como respeitável líder nas páginas da história do país. E o que disso tudo lhe restará, enfim? A meu estrito pensar e sentir, restará a confirmação de que, no caso concreto, tornou-se irremediavelmente notória a sua desditosa incompetência. No mínimo, isso; o que, no caso, muito significa.

E,…

… mesmo assim, estaríamos hoje lamentando a perda, para a Covid-19, de cerca de cem mil brasileiros, um universo bem menor, bem mais restrito, embora de mesma dor, de mesma sensação de impotência, que o de mais de quinhentos mil que já compõem tão trágica e dolorida estatística.

TODAS AS VIDAS IMPORTAM.

 

“Quem não orientou sua vida, de um modo geral, em determinado sentido, não pode tampouco dirigir suas ações. Não tendo tido nunca uma linha de conduta, não lhe será possível coordenar e ligar uns aos outros os atos de sua existência. De que serve fazer provisão de tintas se não se sabe que pintar?”. (Michel de Montaigne, em Da incoerência de nossas ações / Ensaios – São Paulo: Editora 34, 2016; pág. 358).

 

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.