E OS OLHOS DOS DOIS SE ABRIRAM, por Alexandre Aragão de Albuquerque

A democracia é uma forma de organização da sociedade que permite diferentes formas de definição, compreendendo a soberania popular como sendo uma dimensão fundante do regime democrático. Portanto, todo sistema democrático é um conjunto de regras e valores que vai permitir à sociedade controlar seus governantes, seja por um tipo de controle passivo, no qual a população apenas vota periodicamente e depois se ausenta da vida pública, ou por um controle participativo pelo qual a população não apenas vota de tempos em tempos, mas participa da gestão de áreas dos governos e das políticas públicas, exercendo um acompanhamento e controle das políticas e dos governantes.

Para Madison, o grande intérprete das instituições políticas estadunidenses, a primeira condição para que uma nação seja democrática é que tenha uma sociedade capaz de criar um governo e, ao mesmo tempo, seja capaz de controlar este governo. Historicamente essa dimensão democrática participativa deve-se em muito ao processo de emancipação dos trabalhadores no correr dos séculos XIX e XX o qual ampliou a concepção dos direitos que o liberalismo definia como civis e políticos, introduzindo a ideia de “direitos econômicos” e “direitos sociais”.

No Brasil, o sociólogo José Murilo de Carvalho, em sua obra “A Formação das Almas”, registra que a república brasileira foi proclamada em uma sociedade profundamente desigual e hierarquizada, com uma completa ausência da existência de um sentimento de comunidade, de identidade coletiva de pertencer a uma nação, inexistindo uma preocupação com o público e predominando uma mentalidade predatória, “um capitalismo sem a ética protestante”. A também socióloga Evelina Dagnino segue no mesmo raciocínio ao registrar em seu livro “Sociedade civil e espaços públicos no Brasil” que a nossa realidade caracteriza-se por um autoritarismo social, isto é, um ordenamento presidido pela hierarquização e desigualdade do conjunto das relações sociais. Segundo a autora, o desafio principal da democracia brasileira é o de eliminar o autoritarismo social a partir da ampliação da concepção de democracia que transcenda o nível institucional formal – que se debruça sobre o conjunto das relações políticas em seu sentido estrito – e atinja o conjunto das relações sociais, indo mais além do regime democrático para alcançar uma sociedade democrática.

Então, como romper com essa estrutura histórica hierárquica, desigual e autoritária?

Segundo o psicanalista Eric Fromm, o elemento mais importante para romper com uma situação de opressão é a CORAGEM DE DIZER NÃO, de desobedecer às ordens do poder, despertando do estado de futilidade e ilusão, indo à busca da liberdade de ser plenamente humanos, lutando contra tudo e contra todos que procuram impedir esta realização. Com uma atenção crítica ao fetichismo das palavras presentes no reino da ideologia políticas e dos meios de comunicação social: as palavras devem sempre ser lidas e escutadas observando-se atentamente os atos e a personalidade total de quem as pronuncia. É preciso destruir as ilusões. A destruição das ilusões não só produz novas percepções como também modifica os sujeitos nesse processo. Para Fromm, a figura bíblica de EVA é o grande símbolo da rebeldia pela sua capacidade de dizer não, acarretando a conquista da liberdade para a humanidade.

De fato, a leitura do Gênesis nos permite perceber o acento que o autor sagrado provoca à nossa reflexão. Diz o texto: “Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter o discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu ao seu marido que o comeu também: E OS OLHOS DOS DOIS SE ABRIRAM”.

Esse é o pano de fundo de uma política: a batalha pela hegemonia dos conteúdos significantes que aprisionem as populações dominadas em ilusões, impossibilitando-as de enxergar a realidade. Quem tem olhos para ver, veja. É preciso ter coragem de dizer NÃO!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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