relogio

E Acácio visitou o Velho Mundo – CLAUDER ARCANJO

Disseram-me que Companheiro Acácio, sumido há dias, encontrava-se em terras europeias.

— Acácio no Velho Mundo deve nos trazer novidades — cá falei comigo e minhas certezas.

Na manhã seguinte, rodei a cidade em sua busca. Fui à livraria, marquei ponto na cafeteria que ele sempre frequenta, postei-me cedo na banca de jornais em que ele adquire seus periódicos… E nem sinal do amigo.

Como sou deveras impaciente, mal que me acompanha desde a placenta, cuidei de ligar-lhe. O telefone, contudo, se encontrava fora de área, ou desligado.

Quase desistindo da minha missão de busca, eis que ouço sua saudação:

— Monsieur Arcanjô?!…

Ao virar-me, a figura acaciana frente aos meus olhos provincianos. Confesso que, de início, tomei um pequeno susto. Melhor, fui tomado por um quê de surpresa. Explico. Acácio portava uma bengala de madrepérola e, por sobre a cabeça bem dotada e desprovida de cabelos, uma boina à Neruda. Sem falar no jaleco de lã de carneiro.

— Companheiro Acácio, há dias que eu o procurava!

— Não gosto que me sigam, Clauder Arcanjo. Mandasse-me uma missiva para o meu endereço, e eu, de pronto, o respostaria — devolveu-me em um tom educado, apesar da singular e decidida resposta.

Notei que ele flanava com um livro a tiracolo. Ao dar com a minha curiosidade livresca, sem perda de tempo, Acácio tocou-me para o café que havia na esquina. Acabei me esquecendo de situar-nos, caro leitor, fá-lo-ei agora (detesto esta mesóclise com tom libidinoso): estávamos no centro da cidade. Melhor, na calçada de um velho sebo.

Antes de postar sobre a mesa uma dezena de perguntas, Acácio fez, ao garçom, um gesto reverente, como quem saúda um lorde; ao tempo em que o inquiriu, em tom baixo e quase melífluo:

— A casa poderia nos servir dois cafés e uma água com gás, nobre senhor?

O serviçal, acostumado aos gritos e aos rudes modos dos frequentadores, quedou silente, tomado pela surpresa que alumbra, ao tempo em que paralisa.

— O de sempre, Messias! — E tangi-o para as providências junto ao balcão.

Companheiro Acácio correu a vista nas paredes, depôs a bengala e a boina sobre a cadeira ao lado e soprou-me em portunhol:

— Soy yo y minhas circunstâncias…

Ortega y Gasset? Estarei certo? — Feliz, atalhei-o.

De imediato, não me respondeu. Com gestos estudados, ele enxugou a testa larga, cofiou o bigode sempre bem aparado e, em seguida, ajeitou o restinho de cabelo sobre a face lívida e extenuada (também, caro leitor, caminhar no centro de uma cidade nordestina, quase ao meio-dia, com uma boina de inverno e um jaleco para o frio europeu, você há de convir: é suadouro para ninguém botar defeito).

Quando Messias depôs o nosso pedido sobre a mesa, Acácio, com as mãos trêmulas, sorveu seu copo de água mineral com gás de uma golada só. O consequente arroto, ao se ver preso pela boca educada, vazou-lhe pelos olhos, pelo nariz e pelos ouvidos. Lágrimas acorreram aos olhos envergonhados do Companheiro. Os bons modos não resistem ao calor nordestino, cá matutei.

Para chamar a atenção para outro ponto, e livrar o Companheiro da situação embaraçosa que a gasosa lhe impusera, argui-o sobre a viagem recente:

— Comentaram-me que o amigo esteve em terras de além-mar. O que nos trouxe na bagagem da velha Europa?

Acácio adoçava o café, enquanto recobrava-se do infortúnio recente. Com pouco, disparou:

— A Europa atrai-me não pela tradição com cheiro de mofo e superação, caro amigo, mas por sua capacidade (em alguns países, que isso fique bem claro) de inovar sem abrir mão do respeito à tradição.

Mais do que pelo teor da resposta, animou-me o tom mercurial das palavras acacianas. O velho mestre voltava a se armar com a virulência e o pragmatismo de sua conhecida filosofia. Sem perder tempo, ataquei-o:

— Todo provinciano volta do Velho Mundo com cara de bobo; e o que é pior, Companheiro, a detestar as coisas do nosso chão e fazer loas desmedidas a tudo o que vem (e advém) do outro lado do Atlântico. Uns, o que é bem pior, após visitarem a Europa por mais de quinze dias, gargarejam um arremedo de francês (que nunca aprenderão) e, ao tentarem se comunicar em português, concluem que da nossa língua natal se esqueceram (suspeito todavia que por ela nunca zelaram).

Acácio mexeu-se na cadeira, quase se engasgou com o café e, quase em pé, disparou:

— Andou lendo o que escrevi na noite passada, seu filho de Licânia?!

Acácio, quando tomado pela emoção, cresce na frente de qualquer um. Seus olhos esbugalham-se, sua pele migra para a tez rubra, seus dedos se esticam tais quais garras felinas e sua voz ganha ares de tonitruante força.

— Mas…

— Não tem mas, nem contudo, nem porém, nem senão, nem todavia… seu filho de uma é… — vomitou Acácio, sem meias palavras.

Quando pôs a mão na bengala, vi-me como um homem morto.

Acácio serenou, pôs a boina na cabeçorra, meteu o cajado sobre o sovaco e, antes de sair, disparou em minha direção:

— Hoje a conta é sua! Isto pelo seu desaforo e pelo intolerável atrevimento, seu provinciano de uma figa.

Antes de chegar à porta da cafeteria, ele voltou-se, jogando-me ao colo o livro que levava:

— Cuide de lê-lo. No nosso próximo encontro, conversaremos a respeito. Bonjour, Arcanjô!

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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