DRUMMOND DAS QUEBRADAS e outros poemas inéditos de Renato Pessoa

PANFLETO

 

Procuro Maiakóvski!

Está nas barricadas?

Faz discursos proletários?

Está nas tavernas? Amando

prostitutas? Procuro

Maiakóvski! (os poetas

de hoje comem sanduiche

em pátios de shopping,

fazem yoga, são hegelianos,

ruminam ditadores, têm

as camisas sujas de sangue

inocente) Cadê Maiakóvski?

 

E o poema-molotov,

e o poema-barricada?

Onde, onde está Maiakóvski,

e a palavra-rebentação?

 

Procuro Maiakóvski!

Matou o czar? Metralhou

o prédio azul dos literatos?

Envenenou a sopa fina

dos filósofos? Está no inverno

de Leningrado?

Luta contra tiranos?

 

É preciso encontrar Maiakóvski.

Escrevam nos jornais, anunciem

na TV, façam passeatas!

É preciso encontrar Maiakóvski.

Dentro do poema? No muro

Das universidades? Na cama

dos infiéis? Na lâmina

dos algozes? Nos porões

das ditaduras?

 

Procura-se Maiakóvski,

vivo ou morto. Procura-se

uma esperança. Viva ou morta.

Pago bem.

 

DRUMMOND DAS QUEBRADAS

Quando o empregado nasceu
um destino torto disse:
– vai, cara, ser assalariado na vida

A primeira crise passou
a segunda crise passou
a terceira crise passou
mas a miséria continua

Perdeu o ônibus
e a esperança
volta desempregado pra casa

E agora, cara?
a luz venceu,
o dinheiro acabou,
a mulher chora,
o filho tem fome,

o barraco é sujo,
e agora, cara?
Está sem emprego,
está sem fé, tem medo?
Está no escuro,
a barriga dói?

E se você pegasse arma?
E se você entrasse no ônibus?
E se gritasse assalto?
Você tem saída?
E agora, cara?
Tem escolha?
Ainda acredita em Deus?
Acredita no governo?
E agora, cara?

Mas no meio do caminho tinha uma bala
tinha uma bala no meio do caminho
no meio do caminho
tinha uma bala

Um corpo negro e pobre
morreu no asfalto

ESFINGE

Tudo é escrito
na linguagem das cinzas.
Uma única profecia:
dono do mundo
é o fogo.

O POETA BÊBADO NA AV. 13 DE MAIO

o poeta bêbado
sonha amores
na noite absurda.
Sofre? Quer se matar?
Fazer serenata? Homilia?
O poeta bêbado
Não sabe que o inferno
É um retrato
Na angústia da boca.

O poeta bêbado
Recita Homero,
Camões e Valdique
Soriano. Quer ver
arcos abstratos? Quer
morrer com um cão?
Refazer ladainhas?
O poeta bêbado
só se comove
com os relógios
sem porvir.

Entra na rua sem casas.
Tem bares? Calabouços?
Mulheres nuas?
Pensa ver a lua anárquica.
É uma rua longa
de vidro e lamúria…

O poeta bêbado

assobia um verso
de Amado Batista.
Cadê Clarice? Cadê
Beatriz? Viram Cecília?
Não importa. O poeta
bêbado descobriu
o segredo da vida.

Mas está sozinho.

ÊXODO

Todos os mares atravessam o coração do poeta

SÍNTESE

A tarde desce sob a precária luz;
refaço-me entre os ocultos homens.
Sem nenhum penhor ou síntese,
sonho renascer entre ciprestes
e varandas. Dois pássaros,
ignorando a chuva, vem dizer-me
que é dos rios que descendo, selvagem.
Tenho vocação de não-permanecer.

 

Renato Pessoa

Renato Pessoa

RENATO PESSOA é escritor e crítico literário. Estudou filosofia na Faculdade Católica de Fortaleza e na Universidade Estadual do Ceará – UECE. Publicou, em 2011, O Corpo Arcaico. Em 2012, publicou Solidão Singular. Em 2014 organizou o livro Retratos De Abismo E Outros Voos – Antologia De Poetas Cearenses Contemporâneos. Em 2016 publicou A Paisagem Da Febre. Em 2017, publicou O Homem do Último dia do Mundo. Em 2018, participa do livro Cinco Inscrições da Mortalidade. É um dos criadores do Sarau O Corpo-Sem-Órgãos. É um dos idealizadores da Escola Popular de Filosofia.

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