Donald Trump and the door to the abyss

Uma tragédia anunciada! Essa poderia ser a manchete de qualquer jornal do mundo sobre o acontecimento em Washington. Não seria a primeira e provavelmente a última vez que o EUA protagoniza cenas de agressão a democracia e ao estado de direitos. O fato ocorrido apenas é mais um capítulo de um histórico conturbado na política americana e que teve sua temperatura ainda mais fervilhante nos últimos quatro anos. Desvendar as trilhas e os atores deste episódio, assim como seu percurso futuro é um tanto oportuno para o restabelecimento do caminho democrático, para a contenção da violência e ódio que cresce patrocinada pelos extremistas e para uma reflexão mundo afora sobre o quanto são perigosos os caminhos populistas reacionários e segregadores.

O mundo se espantou com a invasão de manifestantes, e por que não dizer delinquentes assaltantes da democracia, ocorrida em seis de janeiro de dois mil e vinte e um. Aguçados por um presidente que nos estertores de seu mandato insiste em não aceitar a derrota e substancialmente inflama a população a uma insurreição. As cenas degradantes captadas pela realidade das lentes muito mais pareciam um daqueles filmes ufanistas americanos onde seus heróis e seus trajes invadem os lugares para fazerem a justiça que as leis não conseguiram regrar. Os desatentos que passeiam pelas grotescas cenas podem imaginar que se trata de um ato isolado e talvez outros até o relativizem com o pensamento “é proibido se expressar? ”. Um terceiro, este mais dormente, parafraseando Chico César, pensará: o poder emana do povo, houve fraude nas eleições! Alguma semelhança com o que presenciamos por cá?

O que vimos no Capitólio está longe de ser um fato isolado, tampouco liberdade de expressão ou a tomada do poder pelo povo. Também se equivocam os apregoadores da anedota de que a democracia americana deve ser um espelho para o mundo, assim como os servis críticos e cientistas políticos que no açodamento de cravar teses indicam o ocorrido como algo já esfacelado e findado. O regime democrático americano, em sua história, carrega uma série de fatos que corroboraram com o acontecido. As mudanças em processos eleitorais para proibirem negros de votar, Nixon e o Watergate, Gerald Ford e a utilização do poder para perdoar Nixon, Clinton e Bush com suas guerras são exemplos de como a democracia em determinados momentos foi subvertida por interesses políticos de alguns grupos.

Donald Trump certamente é um capítulo à parte nesta empreitada. Não só pela contemporaneidade de seus atos, mas e principalmente por ter conseguido afrouxar os freios e contrapesos do regime democrático americano de maneira mais intensa e de forma contínua. Suas atitudes são demonstradas bem antes de se eleger presidente, aliás ser presidente só foi possível exatamente pelo que o mesmo representava ao povo americano ou para grande parte dele. O Partido Republicano, reduto que forjou a candidatura de Donald, ao longo da história foi sendo apossado por representantes da pior espécie. Grupos extremistas, ultraconservadores e segregacionistas encontravam abrigo nas bandeiras do partido para tornar o país o quintal de seu mundo ideológico. Mas não só estes contribuíram para a eleição de Trump, como também os republicanos movidos pela ideia de derrotar o partido opositor e retomar o poder para empenhar suas convicções sócio-político-econômicas. Deitaram com as hienas, toparam qualquer negócio, venderam a alma qual Fausto em Goethe.

Ao longo do seu mandato de quatro anos, Trump ensaiou por diversas vezes o rompimento com as bases e instituições democráticas, ameaçou constantemente a imprensa e seus opositores, desqualificou todo tipo de contestação ao seu governo, estimulou seus adeptos a reagirem com vigor contra adversários a fim de sufocá-los. O presidente dos EUA enviou cotidianamente e sem a menor das vergonhas recados para o mundo e para seu povo: devolvam a América a nós os americanos genuínos. Ajam em meu favor e estarão certos, ajam contraditoriamente e serão aniquilados. Seremos capazes de tudo para a manutenção dos nossos interesses. Embora os atos e discursos soassem com este teor uma parte da mídia americana se posicionava a favor, flertava com o regime autoritário, outra parte procurava esvaziar o peso dos acontecimentos. É preciso lembrar que outra parte da mídia, menor, se posicionava contrária e insistia em discutir as questões e fatos de acordo com a realidade, mas seu alcance representava apenas uma parcela do público.

Notoriamente as grandes mídias possuem o papel de importantes influenciadores nos lares americanos, e quando se afirma um discurso diante das câmeras este ganha vazão no pensamento coletivo. Se por um lado o discurso era afirmado, por outro era adormecido na perspectiva de que não se devesse levar o presidente tão a sério, suas falas são apenas histrionismos, mas sem efeito qualquer para a população. Mesmo que uma terceira parte faça um discurso contrário, se a situação econômica não estiver tão ruim, os adormecidos tenderão a desejar a manutenção do status quo.

O partido Republicano, por outro lado, nestes quatro anos se dividiu entre colocar panos mornos nos fatos e apoiar as atitudes do presidente. Foram inúmeras as vezes que entraram em campo seus principais representantes para abafarem o mais rápido possível o estrondo ocasionado pelos discursos e investidas autoritárias. Este tipo de comportamento dos republicanos e até mesmo de alguns democratas acabavam por cada vez mais afrouxar os freios e contrapesos de uma democracia que por aparato legal tem sérias fragilidades. O sistema jurídico e político americano possui diversas brechas facilitadoras para a aparição de representantes autoritários, todavia durante a história foi possível encontrar formas e acordos não escritos nas leis, mas que pesassem e pendessem para o campo democrático. No entanto Trump resolveu ignorar tais formalidades políticas construídas ao longo da história de seu país, decididamente regia sua alcateia na busca de atingir seus interesses particulares e se perpetuar no poder.

A oportunidade do impeachment foi desperdiçada pelo congresso americano, mas não por falta de vontade e por discordância da gestão do país, a manutenção do chefe maior foi possível devido a outro fator preponderante para se chegar até o dia seis de janeiro de dois mil e vinte e um. Entrou em cena um fantasma que sobrevoa países e geralmente tende a querer ditar as regras do jogo por onde passa, uma entidade intangível chamada Mercado. Os congressistas americanos se preocuparam muito mais em manter a relação amigável com esta entidade em detrimento do que tomava conta do seu país, o aclive ao populismo bélico de um lunático.

Voltando ao primeiro parágrafo deste texto, o que ocorreu no dia seis de janeiro de dois mil e vinte e um não representa nem o início e nem o fim do que pode ser esta tempestade ianque. Trump já estava derrotado e também sabia que nenhum protesto, invasão ou tiroteio acontecido neste dia seria capaz de impedir a confirmação da eleição do novo presidente, Joe Biden. Sua conduta intentava objetivos para além do provocar um caos no dia da posse de seu adversário político. A invasão do Capitólio por sua tropa se trata apenas de mais um capítulo de uma narrativa que se quer construir de maneira homogênea no país.

Este dia foi simbólico para os extremistas e ultraconservadores americanos, uma espécie de recado aos seus eleitores que ao mesmo tempo ratifica e busca encorpar um crescente e perigoso movimento de ruptura aos preceitos legais e a obediência civil dos processos democráticos contra os “inimigos da América”. Embora outros presidentes já tenham utilizado este slogan, desta vez o inimigo é mais que íntimo. O desejo de destruição não é direcionado a terroristas árabes ou comunistas orientais, a caça desta feita é interna. O inimigo ultrapassou as fronteiras, dorme na varanda ao lado e é preciso exterminá-lo mesmo que seja seu semelhante, mesmo que da mesma família. É preciso devolver a América aos seus pais fundadores, esta é a tarefa que Trump e sua turma buscará nos próximos anos, mesmo que para isso seja necessário violar as leis e os direitos das pessoas.

Feita esta análise, me reporto ao Brasil que não meramente vem ensaiando todo este processo em todos os seus detalhes, aliás em alguns momentos até ampliando o jogo cênico das falas e gestos. O que aconteceu e ainda está por vir no EUA deveria servir de alerta, não só os extremistas seguem o mesmo roteiro, mas também a imprensa e seus analistas políticos, o congresso e sua devoção ao mercado, empresários e influenciadores. Bolsonaro não reconhece nem a eleição que o elegeu, saindo perdedor da próxima, qual capítulo teremos em nossa história? Um remake tupiniquim ou uma novela à mexicana?

 

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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