DO “VEM PRA RUA” ATÉ O GENERAL – por Alexandre Aragão de Albuquerque

Como já tivemos a oportunidade de anotar em nossos últimos artigos neste sítio Segunda Opinião, uma rica documentação vem sendo produzida por meio da qual é possível compreender de forma sempre mais abrangente as diversas faces e articulações do Golpe perpetrado em 2016 contra a democracia brasileira. Portanto, as breves análises aqui postadas mantêm uma relação dinâmica e dialógica entre si, complementando-se à medida que incluímos novos olhares a respeito.

Por exemplo, na noite da última quinta-feira, 08, no evento 2º. Macro Day BTG Pactual, promovido pela Fundação Lemann, em São Paulo, o presidente da Câmara dos Deputados em sua intervenção lançou publicamente uma sentença que se reveste de autêntica confissão documental para os anais da história: “A pergunta é onde nós erramos? Se ele chegou aonde chegou, a culpa é nossa”, afirmou Rodrigo Maia, numa crítica contundente ao capitão Bolsonaro aproveitando-se do clima de radicalização e fragmentação instalado no Brasil desde 2013. Entre os operadores estruturantes destacam-se a Mídia chapa branca com a Operação Lava-Jato, como estão a nos revelar as reportagens do Intercept Brasil que denunciaram recentemente a relação do procurador Deltan Dallagnol com o movimento “Vem pra Rua”, entre outros, fornecendo-lhe elementos e estratégias para suas manifestações golpistas.

Exercício inusitado é o de juntar esta confissão do Presidente da Câmara Federal a um trecho do discurso de Bolsonaro durante a cerimônia de transmissão do cargo de ministro da Defesa ao general Fernando Azevedo, no dia 02 de janeiro, onde o capitão afirmou: “Hierarquia, disciplina e respeito é o que fará do Brasil uma grande nação. Meu muito obrigado, comandante Villas Boas. O que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos RESPONSÁVEIS por eu estar aqui”.

Se em nosso artigo anterior comentamos brevemente o “Mea Culpa” do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) sobre o fato de o seu partido de perfil social-democrata haver abandonado o respeito pelas instituições democráticas e pela soberania popular, ao articular e compor o governo golpista de Michel Temer, esses dois novos documentos juntos – a confissão de Maia juntamente com a declaração de Bolsonaro sobre a responsabilidade de Villas Boas por sua vitória eleitoral – apontam para uma compreensão mais ampla das forças conspiradoras que depuseram Dilma Rousseff e aprisionaram politicamente o Presidente Lula.

Já em 11 de novembro de 2018, o general Villas Boas, comandante das Forças Armadas, em entrevista à Folha de São Paulo, deixava claro, por meio de um twitter postado em 03 de abril daquele ano, que pretendia “intervir” caso o Supremo Tribunal Federal (STF) concedesse Habeas Corpus ao Presidente Lula: “Asseguro à Nação que o Exército brasileiro se mantém atento às suas missões institucionais”. O ministro Celso de Melo, decano do STF, afirmou que as declarações de Villas Boas eram “claramente infringentes do princípio da separação de poderes e que parecem prenunciar a retomada, de todo inadmissível, de práticas estranhas e lesivas à ortodoxia constitucional”.  Além disso, no dia 11 de junho deste ano, em sua página do twitter, Villas Boas, em relação às reportagens do Intercept ao revelarem a podridão dos bastidores da Operação Lava Jato, afirmou que “são uma insensatez e oportunismo”, expressando total “respeito e a confiança” em Sérgio Moro.

Alguns se perguntam como as democracias morrem. A resposta parece simples. Basta ler os fatos com olhos de ver.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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