Distorção no Espaço/Tempo: o Buraco Negro da Mente

Pontes

A ideia de que o mar é uma força que tenta penetrar o centro da terra e que a terra o repele com seu núcleo, aquecendo lentamente o mar e formando partículas de vapor d’água, que geram as chuvas, me veio à mente quando acordei hoje. Não sei se essa ideia foi fruto de um sonho ou se foi algum insight que nos chega quando nossa mente está sendo pressionada para entender alguma coisa inexplicável.
O certo é que não sou astrônomo nem físico e que a ciência me foi sendo revelada, na medida em que eu ia descrendo da humanidade alienada do real. E, nesse mundo cada vez mais compartimentado, eu, amante da literatura, estou cada vez mais isolado deste povo automatizado e já descrito outrora por Orwell ou Huxley.
Fui então rever Newton, Einstein, Hawking, Kaku, esses grandes cientistas hollywdizados pela ficção científica ou figuras fáceis na boca dos aprendizes de ciência nos canais do youtube. Mas meu sonho ou meu insight, em comparar o efeito do mar e sobre o mar com o mesmo efeito da luz sobre um buraco negro, me fez pensar no fim desta correlação de forças que geraria uma nova hiper-realidade e uma nova ideia do que seria o pós-tudo. Enquanto penso, vejo o mar e me vejo sendo levado pelas ondas para dentro e para baixo sem forças para reagir e sair do peso gravitacional que meu corpo vai sofrendo, sendo absorvido, até que, se descesse sem ar e com o meu próprio peso sem parar, seria esmagado pela mesma gravidade que leva as águas para dentro e as expulsa lentamente em forma de vapor pelas fendas espalhadas por todo o planeta.
Mas o que tem isso a ver com a minha existência? Cada vez sei menos a resposta. Quando experimento um novo conhecimento, e quando isso me leva para explicações mais lógicas, abrindo novas interrogações, entendo melhor porque esse invólucro de carne, com funções tão definidas, não comporta o conhecimento que preciso. Até que cheguemos ao horizonte de eventos que nos paralisará, antes de sermos engolidos por um buraco negro supermassivo, vou tentando ignorar que, o que ignoram em mim é apenas uma falha na energia mental em colapso de algumas pessoas.
Acredito que o centro de controle do planeta interrompeu a expansão das mentes de modo uniforme. A massificação e a automação dos gestos circulares em torno do corpo e não da mente formam uma espécie de déjà-vu para uns e de caos para outros. O déjà-vu seria uma espécie de disco arranhado tocando o mesmo ponto infinitamente. O caos seria a fuga do buraco negro e a passagem para uma dimensão espaço-temporal que abrigaria todas as nossas dúvidas como se lá, nesse lugar não explicado pela Física que nos orienta, fôssemos aprendizes e encantados com o que vem depois, quando nossa energia será, enfim, condensada no móbile necessário para a próxima fase.
Ao ver o corpo de Hawking sendo comprimido (por uma doença gravitacional?) para liberá-lo à próxima fase, preocupo-me com a dor nas costas e com a cabeleira de Kaku. E devaneio mais ainda. Se Angelina Jolie e Gal Gadot fossem cientistas e não atrizes, seria possível aproximar a ciência da beleza e, por conseguinte, a burrice como o mais feio dos males humanos?
Parece que estamos sendo esmagados pela gravidade dos saberes, restando as imagens de espelhos e os apagamentos das identidades que estamos perdendo numa velocidade estonteante.
O fim, para muitos, será a transformação numa massa fértil que os vermes estão sugando dos cadáveres e depositando no subsolo, para que nos transformemos em alimento de plantas e terra-formemos essa casa no lar dos que virão. Quanto aos autômatos, eles continuarão sugando os corpos para fertilizarem a terra.

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 26 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014; Poesia na bagagem, 2018; Crítica da razão mestiça, 2021, dentre outros. Editor da Revista de Estudos Decoloniais da UFCG/CNPQ. Vencedor de Prêmios Literários nacionais. Contato: [email protected]