DIRIGENTES DE COMUNIDADES RELIGIOSAS HESITANTES, por ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE

Sabe-se que em toda eleição a obrigação democrática de candidatos a cargos públicos diante da soberania popular é a de apresentar suas ideias e compromissos para o eleitorado tomar conhecimento, fazer suas análises e assim poder decidir o mais conscientemente possível sobre o seu voto. Um dos instrumentos eficazes para essa verificação por parte dos cidadãos é acompanharem a realização de debates promovidos pelos meios de comunicação social onde os presidenciáveis colocam-se olho no olho, sem máscaras, para o enfrentamento aberto de suas ideias.

Neste segundo turno temos, de um lado, a candidatura do professor Fernando Haddad ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, pelo Partido dos Trabalhadores com seu programa socialdemocrata, já provado em diversos governos municipais, estaduais e federal nesses 38 anos de vida partidária; do outro lado, a candidatura do capitão reformado do exército e deputado federal Jair Bolsonaro, expoente de um pensamento autoritário do conservadorismo de direita brasileiro.

Chegamos à reta final da campanha presidencial, todavia, sem a realização de um único debate pela recusa do candidato Bolsonaro em participar e com o agravante de o referido candidato promover em suas declarações e manifestações públicas um clima sempre mais crescente de ameaças tácitas a seus opositores, jamais visto no Brasil desde a sua redemocratização com a promulgação da Constituição de 1988.

No transcorrer de sua trajetória política de quase 30 anos, Bolsonaro especializou-se em expressar com veemência e originalidade as verdades nas quais acredita como, por exemplo, ser favorável à tortura como política de Estado; apresentar um perfil machista e violento ao declarar em público a uma sua colega parlamentar que ela não merecia ser estuprada por ser feia; ao oferecer capim para o eleitorado nordestino; tratar descendentes de quilombolas como se fossem humanos inferiores; fazer apologia à violência contra minorias lgbt; ou ainda manifestar louvor ao coronel torturador-mor da ditatura militar dos anos 1960.

Como se isso não bastasse, no dia 21 de outubro, domingo passado, o capitão Bolsonaro transmitiu pela internet para diversas capitais do Brasil um discurso onde acentua ainda mais esse pensamento belicoso e ameaçador das liberdades individuais e civis. Entre outras coisas, afirmou: “A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma se quiser ficar aqui vai ter de se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora do país ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria. Petralhada, vocês não terão mais vez em nossa pátria. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vocês, petralhada, verão uma Polícia Civil e Militar com retaguarda jurídica para fazer valer a lei no lombo de vocês. Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Nós ganharemos esta guerra”.

Qualquer pessoa que tenha um mínimo de decência, bom senso e de QI entenderá que estamos diante de um discurso apavorador, que nega a democracia como valor universal ao ameaçar seus opositores, quaisquer que sejam, com a violência de Estado levada às últimas consequências. É isso que ele planeja executar assim que tomar posse caso seja eleito.

Nestes dias, tive acesso à comunicação de dirigentes de comunidades cristãs católicas no Brasil, que apresentaram, no meu entender, uma fortíssima hesitação em expressar a situação de risco em que nos encontramos, pela total falta de clareza nessas suas comunicações oficiais em torno da conjuntura política em que nos encontramos, com a iminente ameaça de uma candidatura fascista assumir o governo federal brasileiro. A questão não é de uma polarização no campo democrático; trata-se de uma ameaça autoritária que bate à porta. Neste caso não se pode hesitar por medo ou por falsa diplomacia. Ser cristão aqui é, antes de tudo, alertar para o perigo iminente.

Algumas dessas comunicações alegam que a verdade não está contida em nenhuma das candidaturas postas. Mas é mister compreender que a verdade é objeto da Filosofia, mais propriamente da Metafísica enquanto busca além da aparência por meio do estudo do ser enquanto ser, uma ontologia.

O campo da política é o espaço da disputa democrática de projetos que visam organizar a sociedade da melhor forma possível tendo em vista as visões antropológicas e sociais que defendam TODOS OS HOMENS E MULHERES e seus direitos a serem humanos com dignidade, liberdade e igualdade, a nível individual e societário. Portanto, cabe à política não a busca da verdade, mas da organização da sociedade segundo critérios éticos que garantam a vida em abundância para todos e não apenas para alguns. Ninguém pode sentir-se ameaçado. Por ser uma disciplina do campo da Ética, a política está comprometida com o exercício da consciência – com o estímulo da consciência humana – para um discernimento questionador sobre o que está certo e o que está errado nas propostas políticas de organização social. Consequentemente, a escolha deverá levar em conta, entre outras coisas, uma realidade possível, nunca ideal.

Aqui fica uma pergunta no ar: a hesitação desses dirigentes católicos, num contexto de disputa entre a democracia e o autoritarismo violento, beneficia a quem?

Ainda há tempo de reverem suas posições.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.