DIGITAIS GENOCIDAS

Talvez a maioria não se aperceba, mas quando alguns cristãos conservadores batem no peito, buscando justificar suas opções políticas, utilizando-se da metáfora bíblica, ao afirmar que Jesus está sentado à direita do Pai, eles, em sua miopia, não conseguem perceber o seu não dito, mais amplo, uma vez que neste caso o Pai está sentado à esquerda de Jesus. Quem seria mais importante: Jesus à direita ou o Pai à esquerda? Afinal, como ele mesmo afirmou: “Eu e o Pai somos Um”.  No Um, por definição, não há hierarquia.

Não basta olhar as coisas, é preciso penetrar ativamente nelas, buscando-se captar a lei não fora do fenômeno, mas nele. Interrogar por várias vezes o fenômeno para assegurar-se daquilo encontrado, de que nada foi omitido, pois as relações entre as realidades concretas se dão de forma dialética, remetendo-se uma a outra por meio da mediação. Nada está isolado.

Para que um imbecil chegue ao poder, pelas mãos de um povo, é preciso que o povo seja submetido a um processo de “imbecilização”, a partir da alteração de sua consciência e percepção da realidade dos fatos, para assumir como verdade tudo o que for publicado pela manipulação dos meios de comunicação hegemônicos. Desde 2013 a mídia global brasileira desenvolveu uma guerra híbrida, ideológica, orquestrada, enfatizando de forma sistemática e contundente somente o fato de “Jesus estar à direita”, omitindo intencionalmente e sistematicamente a outra face intrínseca da moeda, isto é, de o “Pai estar à esquerda”. E assim criaram-se convicções parcializadas no meio do povo, voltadas para atender os fins do Bloco de Poder capitalista midiático.

Não foram poucos os amigos e amigas que vi ao longo desses últimos oito anos, pessoas cultas, com histórico de militância social, que caíram nessa armadilha, convictas de que Sérgio Moro (cujo codinome como agente é Russo, conforme os áudios publicizados) foi um juiz altivo, correto, que tinha como missão colocar o Brasil livre da corrupção com o seu projeto de reproduzir aqui a experiência de “Mani Pulite”, ocorrida na Itália, a qual fez emergir, como um de seus resultados, a nefasta figura de Silvio Berlusconi.

Esses amigos e amigas recusaram-se terminantemente a ver e a escutar as razões apresentadas – inúmeras vezes – da defesa do presidente Lula sobre a violência e os crimes processuais aos quais ele estava submetido pelo bando da Lava Jato. Acreditavam piamente em todas as matérias publicadas pelo Jornal Nacional. Na condição de cúmplices de Russo, condenaram Lula tiranicamente. E como eleitores abriram a porteira para uma tralha muito pior do que Berlusconi assumir o poder político no Brasil em 2018.

No dia 11, quinta-feira passada, o jornal o Estado de São Paulo, em seu editorial, voltou com toda carga contra Lula, a resgatar o clima do passado recente, afirmando que ele e Bolsonaro são as mesmas pessoas. Não fez análise objetiva alguma sobre o histórico e desempenho político de cada um, colocando-os lado a lado em um mesmo pacote, num texto bastante representativo da fração de poder derrotada depois de implantado o Golpe de 2016. Estadão, Globo e demais donos da mídia corporativa estruturam o impeachment para o PSDB de Alckmin ganhar as eleições em 2018. Não contaram com a pedra no meio do caminho: os militares, com sua eterna sede de poder, elegendo Bolsonaro, o anti-Lula.

Lula é um representante da vida. Sua preocupação como presidente eleito foi com a condição material da maioria da população trabalhadora e pobre. Sua primeira política pública de Governo foi o Programa FOME ZERO, do qual decorreu o Bolsa Família (reconhecido mundialmente).Primeiro Emprego; Combate à Escravidão e Trabalho Degradante; Fortalecimento do SUS; Prouni (Programa Universidade para Todos); Criação de 13 Universidades Públicas Federais; Política Nacional de Mudanças Climáticas; PAC (Programa de Aceleração do Crescimento); Minha Casa, Minha Vida; Política de Ganho Real do Salário Mínimo; Programa Agricultura Familiar. Tudo isso foi criado pelo Governo Lula.

Bolsonaro é o representante da morte. Como ele mesmo afirmou em vídeo, a sua especialidade é matar. (https://web.facebook.com/watch/?v=565304337423441). É um defensor da tortura. (https://web.facebook.com/watch/?v=565304337423441). Em sua concepção política, a ditadura militar de 1964 não fez o trabalho que deveria ter sido feito, matar umas 30 mil pessoas. (https://web.facebook.com/watch/?v=565304337423441). Muitos desses meus amigos e amigas sabiam disso, mas o elegeram apesar de tudo. Hoje, o Brasil de Bolsonaro conta com cerca de 240 mil pessoas mortas pela Covid-19. Ele desde o início afirmou que se tratava de uma simples gripezinha, fez ampla divulgação da cloroquina como tratamento precoce, além de haver incentivado aglomerações sociais e boicotado as vacinas contra a pandemia.

Também no dia 11, na sessão especial para prestar esclarecimentos no Senado Federal, o ministro da saúde, general Pazuello, escutou do senador Fabiano Contarato(REDE – ES) a seguinte declaração: “Sr. Ministro, e o Presidente da República, as digitais de vocês estão nessas mortes. Eu tenho fé em Deus, que tanto o senhor, como o Presidente da República, irão responder pelo genocídio. Seja aqui no Brasil, seja no Tribunal Penal Internacional. Porque o Código Penal é claro: quem de alguma forma concorre para um crime, reside nas mesmas penas a este cominada na medida de sua culpabilidade. A omissão é plenamente relevante quando o agente tenha por Lei a obrigação de proteção, vigilância e cuidado. Vocês dois estimularam o não distanciamento social, estimularam a não utilização de máscaras, e ainda por cima estimularam o uso de medicação sem nenhuma comprovação científica: 1,5 milhões de comprimidos de cloroquina estocados em Guarulhos; o Ministério da Saúde utilizou a Fiocruz para a produção de 4 milhões de comprimidos de cloroquina. O tratamento precoce mata”.

A golpes de Lava Jato, nossas instituições estão sendo dilaceradas. Todo arcabouço civilizacional construído a partir da redemocratização de 1988, a duras penas, consolidado nos governos do Partido dos Trabalhadores (2003-2015), está sendo jogado por terra. O processo originado em 2015 com a “Ponte para o Futuro” e o aceite do impeachment por Eduardo Cunha, está sendo posto em prática em toda a sua plenitude no tempo presente. Gilmar Mendes, outrora colega de Moro no projeto do Golpe, ao acolher o grampo ilegal feito contra a Presidenta Dilma Rousseff, por meio do qual impediu a nomeação de Lula para um Ministério, agora está correndo atrás do prejuízo para não ver o seu nome nos anais da história vinculado ao nome do Russo. E enquanto isso, a elite brasileira comprometida apenas com sua especulação financeira, aprovou a autonomia do Banco Central.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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