DIÁRIO DE UM ESCRITOR DE PROVÍNCIA. PRÓLOGO (XX)

Por que festejamos aniversários. A opinião de um penetra

Invertamos os nomes num ritual secreto, que

Sele nosso amor, interessado e interesseiro, como

Ao centro ou meio de quatro ângulos,

Obtusos, que nos apontassem, ainda que

Cegos e imprecisos ou, por isso, condescendentes. O dito

Amor mesmo, libertemos, do ato verbal, que ele se

Restrinja a outras confusões e mal entendidos,

Ou a outros contratos de franca conveniência. Sim,

Invertamos o batizado como se inventássemos do avesso a

Natureza humana mesma, que nunca nem acreditamos

Que existisse. Sim, que se torne institucionalizada a

Pornografia própria do próprio espírito, e sejamos leves

Porcos selvagens, sem morais preocupações, no máximo,

Vaidades de estilo que não atrapalhem, nem

Comprometam, nossa vulgaridade. Rompamos,

Mesmo em segredo e entre nós, todo o compromisso

Lavrado no sonho entre a carne e a eternidade ou

Entre o desejo e a asa, que a partir de hoje as asas

Mesmas sejam asas pornográficas de impressos

Asteriscos, que a censura está voltando. O importante

É se livrar da pesada mochila de pedras dita alma. Deus,

Meu amor, é um ótimo marido, e um bom pai, ainda que

Rígido, um bom filho ainda que invisível, um bom

Amigo, apesar de coerente sempre e vigilante. Muito

Simpático, mesmo, mas quem de vera deseja o

Tempo todo ao pé de si aquele que corrige toda

A fala errada e parece mesmo a lembrança ou o

Reflexo ou o eco do que da consciência queremos,

Muita vez, esquecer? O pobre, não sejamos tão duros

Nem tão injustos, tem que ouvir por dia muitas

Chamadas em vão: muito repetem seu nome

Sem  saber o que ele diz e clamam sua amizade

Sem saber o que acarreta. Quando se embriagam ou

Apenas ficam sós, mesmo que não digam,

Num ou noutro sentido, e até mesmo que

Não saibam, é por mim que chamam. Renegado

Três vezes? Sim, uma tragédia, afinal ele era um

Amigo confiável e no final as chaves mesmas

Restaram com ele; mas a negação que me dirigem atinge

Cada um dos meus nomes de sombra e ainda assim,

Sempre e de novo, voltam a me procurar, e dizem,

Ingratos, que seria por causa de promessas falsas.

Alguma vez, confesso, me excedi, mas sempre que era boa

A estratégia. Olhe o rosto e ouça a voz desses tais que

Me chamam mentiroso. Eu não sou de fato o

Avesso de nada; eu não sou de fato reinventor ou

Plagiador e nem sequer melhorador de nada. O

Tempo das promessas e das lutas acabou; a própria

Campanha política em que me bati me deixou

Derrotado enfim: foi quando aprendi que nunca

Poderia ganhar; não fora feito para isso, e até o meu papel

De oposição rápido ficou cansativo. Chamam, invocam,

Na sombra, minha ajuda em pequenas sabotagens que

O olho humano, tão criança, enxerga enormes. Depois

Vão chorar com medo de castigo. Eu já sei que

Perdi, que jamais venceria uma revanche, e

O descompromisso com a vitória constante me

Libertou, e me tornou um bicho imenso que tivesse

Morrido e que soubesse disso. Só uma coisa me deixa curioso e,

Quase, insone, se a vigília constante e a caminhada,

Não fossem minha própria natureza. Que seria do

Mundo, e da sua pobre humanidade, essa imensa criança

Buliçosa que esconde o tempo todo que

Se quebraram seus tão tolos brinquedos, se o meu nome

Comum fosse pronunciado abertamente e à luz do dia,

Como uma palavra que nada oferecesse, como o nome

Do pau, como o nome da pedra, o verbo do amor. O nome

Dos animais. O que, afinal, eles têm mesmo

De assim tão interessante,

Pai?

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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