DIÁRIO DE UM ESCRITOR DE PROVÍNCIA. PRÓLOGO (VII)

Afasta de mim esse cale-se. A segunda reflexão sobre a porta

As maiores tentações são o silencio e o grito. Duas tentações típicas do deserto.

Escrever exige força física e tempo, uma dedicação que rompe o relógio e o calendário, quando não rompe outras relações sem nada oferecer em troca.

Será preciso ser pai ou mãe e filho ou filha, pensei. Marido ou mulher, amante, cúmplice, camarada, partidário, companheiro de alguma forma, amigo, confidente, irmão e irmã, colega, conhecido, desafeto, inimigo, rival, político adversário. Uma densa experiência humana de comunidade, que concorre em muito contra a escrita, junto a outras forças, é também o que torna possível a fibra da escrita e do que é escrito. O vivente que escreve ou que escreveu terá que enfrentar a todos em algum momento com o egoísmo de suas renúncias e do seu isolamento. É o princípio romântico do método de Flaubert. Dizem que sua obra inaugurou o que chamamos de realismo (não creio que Flaubert fosse tão ingênuo: devia saber que, de algum modo, o que fundava era a pura impossibilidade do real). Podemos ver a sua dedicação – a busca da palavra exata, a exclusão do desnecessário, a busca por um princípio de perfeição como se uma obra escrita não fosse uma invenção, mas uma descoberta – como um princípio religioso de abnegação no qual o indivíduo se oculta em nome de uma obra maior que Flaubert virou pelo avesso (disse que madame Bovary era ele mesmo, não vamos nunca saber até que ponto para afirmar sua criação e até que ponto para fugir do promotor público e da censura, sendo que o invento que tanto teria dele para ser perfeito teria que eliminar tudo quanto fosse traço pessoal de identidade, enquanto Paulo diria: não era ele mesmo que vivia, mas Cristo que vivia por ele) ou uma pura e rígida ética do trabalho que rompia com o romantismo ainda mais radicalmente do que a escolha e o tratamento, sobretudo, da temática.

A abnegação do religioso e a seriedade do ofício nem precisam ser interpretações distintas de um mesmo princípio: são curiosamente bastante bem conciliáveis. Princípio pessoalmente constrangedor para mim porque pode limitar facilmente com algum tipo de moralidade ou mesmo de moralismo literário limitador (mas que pode ser benéfico numa cena literária eventualmente delirante).

A lógica que rege, aqui, o chamado e a escolha é diferente: poucos serão os escolhidos; chamado ninguém foi; no máximo se sentiu; e desde o começo tudo dizia não.

O silêncio e o grito. De outro lado será preciso pagar alguma contribuição à convivência humana. Por mais que se afaste do humano terá que saber do que trata o humano. E pode ser que desista de sabê-lo e de explicá-lo. Todos sabem da recusa de Rimbaud e o desprezo que ele parecia votar ao gênio literário depois da sua recusa radical (e ainda assim suas cartas pessoais testemunham alguma coisa além da informação e do fado biográfico que se não for poesia só pode ser loucura). Todos respeitam o discreto recolhimento de Raduan Nassar.

Gogol, convencido por um beato russo, um starietz, percebe que toda a literatura é obra do demônio, sobretudo a dele, destrói mais da metade dos manuscritos originais das Almas mortas e comete suicídio. Mais que desistência: ele percebeu que a aposta era alta, a literatura, calhou que um nome do diabo, nunca vamos saber qual, acudiu à sua memória no instante decisivo. O que nos arriscamos a perder ou a deixar de ganhar com literatura, no seu teimoso fazimento, é bem mais do que um punhado de copeques. E o diabo de novo levou a culpa por mais um ato de humana irresponsabilidade. São os humanos de carne e osso que fazem a Deus as cobranças e propostas mais insanas, são eles que desesperados pedem que se abram as portas do céu e do inferno ou que se fechem as da terra (ou o contrário, que sei eu do desvario de cada um) e logo se arrependem do pedido e temem que suas preces sejam ouvidas. São os humanos de carne e osso que inventam de escrever e de desistir de escrever, que optam por parar por causa de uma aposta alta ou são obrigados a parar pela mesma razão, pelo medo de perder ainda mais ou porque já perderam tudo e nem há mais o que apostar.

Quase ninguém percebe a desistência e o afastamento da maioria daqueles que um dia escreveram, publicaram e desistiram. Porque acharam que não valia a pena: era uma vaidade. Porque a vida não deixou: era vaidade.

Uma tentação do deserto. A multidão.

O homem do deserto, enlouquecido de tanta coerência, torna vida uma pesada santidade: não precisa que o mundo se torne seu espelho e sabe que isso não vai lhe acontecer. Do que ele precisa é de ser condenado por um mundo que despreza e ao qual não dá razão.

O tempo, o espaço e a barreira linguística impediram o que poderia ter sido o maior dos diálogos. Gore Vidal apostava num embate entre Buda e Sócrates, na esperança de que Buda exasperasse Sócrates.

Imagino Sócrates aguardando a sentença de morte na mesma cela que João Batista.

Airton Uchoa

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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