Diálogo de duas deusas da música, Dolores e Maysa

Artigo escrito por Por Sebastião Nunes e publicado em www.jornalggn.com.br sob o título “Dolores Duran e Maisa bebem e fumam solidão na madrugada carioca”)

Sozinha, numa mesa de fundos no Little Club, a cantora carioca bebia uísque puro e fumava um cigarro atrás do outro.

– Posso sentar com você? – perguntou a cantora paulista. – Cheguei esta semana e conheço pouca gente aqui.

– Claro que pode – disse a cantora carioca, examinando com interesse a cantora paulista. – Quer beber alguma coisa?

– Uísque puro. O mesmo que você.

Madrugada pegajosa e fluida. O Little mergulhado em silêncio, fumaça e vapor de bebida. Noite acabada, os últimos bêbados cantavam na rua. Entediados, garçons empilhavam cadeiras, faxineiras varriam lentas, baratas se refugiavam nas gretas.

As duas mulheres, deusas olímpicas, Euterpe e Atena, música e guerra, se estudavam. Seus grandes olhos abertos se encaravam com interesse e curiosidade.

– Eu te conheço – disse a cantora carioca. – Você não é Maísa, a autora de “Meu mundo caiu”, que está fazendo o maior sucesso?

– Eu mesma – disse a cantora paulista. – E só vim aqui pra te conhecer, adoro suas canções.

Sorriram, olharam-se, tragaram os cigarros, provaram o uísque – e olharam-se mais uma vez, reconhecendo-se quem sabe irmãs de sangue e silêncio.

SUCESSO E CANSAÇO

Aos 28 anos, a cantora carioca se sentia sexagenária. Não que parecesse, nem que o corpo estivesse fragilizado, apenas se sentia. Sobrevivente do nada, trapo regado a uísque. Minucioso esqueleto vestido de fumaça.

– Vida difícil a nossa, Maísa. Sei um pouco sobre você, como todo mundo. Acompanhei seu sucesso, suas desavenças, a separação. Ciúmes dele?

– Acho que sim. Homem não tolera sucesso de mulher.

– Meu caso é parecido. O Macedo queria me prender em casa. Logo eu, com meu jeito de passarinho cantador. Passarinho feio, é verdade, mas cantador.

Os grandes olhos verdes piscaram. Sim, de fato Dolores era feia. De longe até que enganava. Na plateia os homens se apaixonam pelo palco. O charme da estrela. A abóbora de Cinderela. Príncipes encantados esvoaçantes. Ratos transformados em belos cocheiros. Maravilhosas maçãs envenenadas. Bruxas narigudas e anões disformes.

– Feiura não existe – sussurrou a cantora paulista. – Só a velhice é feia.

A cantora carioca bebericou, revolveu o uísque na boca, acariciou-o lentamente com a língua, tragou devagar o cigarro, soltou a comprida fumaça.

– Só duas doenças são incuráveis, eu sei. A feiura e a velhice. No fim da vida todos sofrem das duas doenças.

A cantora paulista era linda. Um tanto bêbada, deixava escorrer um pouco de baba pelo canto da boca larga e macia.

– As doenças mais fáceis de curar são resfriado e ressaca – disse a cantora carioca. – Tenho ressaca todo dia.

– Resfriado me ataca pouco. Mas todo dia curo ressaca com uísque puro – disse a cantora paulista, fios de baba no canto da boca.

– Você está babando – informou com delicadeza a cantora carioca. – Quer um lenço pra limpar? Desse jeito você também fica feia.

– Deixe a baba. Eu também quero ser feia. Quero a sua linda feiura.

As duas cantoras, duas mulheres, duas fadas, duas deusas, voltaram a se encarar longamente. Sem alegria e sem tristeza. Sem amor e sem desprezo. Olhavam-se apenas. Nem ao menos curiosas, pois eram iguais no sucesso e no fracasso.

– Vamos morrer jovens, não vamos? – perguntou a cantora paulista. – Gente como nós não nasce para ser feliz. Nem para viver muito.

– Talvez seja melhor – disse a cantora carioca. – Certa manhã, hospedada no Hotel Comodoro, diante de mim estava Elizete Cardoso. Devia ter uns 40 anos. Notei, em seu rosto, uma tristeza infinita. Tive dó dela e… de mim.

– Adoro Elizete – disse a cantora paulista. – Sempre segui a carreira dela, até acompanhei de perto a briga com Elis Regina.

– Naquela manhã, no Comodoro, fiquei olhando muito tempo para Elizete. Atrás dela estava aquele painel de Portinari, “Bandeirantes” – sabe qual? –, e era um contraste estranho, ela em preto e branco e aquele mural cheio de cores lá atrás.

 

POESIA MARGINAL

Bêbadas, as duas continuavam bebendo. Bebendo e fumando. A baba que escorria na boca de Maísa passou a escorrer também na boca de Dolores. Ambas estavam suadas e fedendo. Numa mesa perto do balcão, o vigia esperava.

Da entrada reservada aos funcionários, estreita e escura, saiu um vulto magro e comprido, metido numa longa bata branca. Caminhando como um fantasma, pela lentidão e pela leveza, parou do outro lado do salão, encarando as duas. E como elas nada dissessem, e como ninguém dissesse nada, ele começou a declamar:

Feia como a necessidade.

Cabeça feita. Excessivo amor. O vírus do desespero.

Amava como um tubarão ao cardume de sardinhas.

Vivia como uma baleia arpoada.

 

Um punhado de canções. Apenas um punhado impuro.

Mas estava tudo ali: palpitando como um olho.

 

Uma metade da janela fechada. O sol recomeça.

Um pé moreno fora do lençol. 29 anos noturnos.

Tudo seria possível se não fosse tarde demais.

 

O homem magro e comprido se aproximou da mesa.

– Deusas da música e da guerra, da esperança e do desespero, eu vos saúdo!

Então levantou seu copo – era também uísque puro – num gesto de quem brinda. Depois desapareceu, como quem morre ou não existe, puro fantasma ou delírio.

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