DEUSES ENVELHECIDOS

O ano novo inicia com deuses envelhecidos, com os mesmos padres e pastores midiáticos, proprietários de redes de televisão, muitos deles milionários, ofertadores de “mídia positiva” ao governo federal bolsonarista, como acenada na reunião de maio de 2020 (https://www.youtube.com/watch?v=rwop06l7kpY&feature=emb_logo), com suas doutrinas individualistas, voltadas para cultos devocionais, reforçando a retórica da salvação pelo mérito individual (cada um é responsável pela parte que lhe cabe no latifúndio, ou por sua “xícara de café”, como circulou amplamente em mensagem pela internet no final do ano),prometida pelo neoliberalismo, fiel aos que lhe seguem seus ritos e ditos: bem-aventurados os ricos porque deles é o Reino do Mercado! Aos pobres, aumento do custo de vida, desemprego em massa e exclusão da riqueza produzida socialmente.

Por onde anda a fé circulante neste mundo contemporâneo hiper-consumista? Por onde transita aquela ideia de fraternidade e igualdade entre humanos – filhos e filhas de um mesmo Pai (já que, para o condicionamento categórico edipiano de alguns crentes, é herético representar a Deidade pela figura feminina materna) nos espaços urbanos e rurais onde há excessivo lugar para injustas desigualdades estruturais, verdadeiro escândalo para qualquer pessoa de bom senso que seja capaz de observar minimamente os caminhos já percorridos pela humanidade contemporânea? No Brasil, mais de 80% da população declaram-se cristãos, até mesmo o assim chamado presidente da República.

Acabamos de adentrar a terceira década do século XXI, com o noticiário repleto de fatos que denunciam um modelo estrutural de concentração de riqueza no qual um pequeno grupo de humanos privilegiados goza seu viver sem limites de consumo e de desperdício, em detrimento de uma grande parcela da humanidade tornada sacrificada em seu valor primário de pessoa enquanto imagem e semelhança de Deus, pelo fato de serem pobres, idosos ou portadores de deficiência, que não servem, segundo a ideologia neoliberal, mais para viver, são “os descartáveis.

A título de breve ilustração, observemos o montante dos gastos do cartão corporativo – para pequenas despesas – da presidência da República do Brasil. O site Portal da Transparência registra que, no ano de 2020 foram gastos,apenas com o cartão corporativo, o valor de R$19.188.856,91 (dezenove milhões, cento e oitenta eoito mil, oitocentos e cinquenta e seis reais e noventa e um centavos). Perfazendo uma média mensal deR$1.600.000,00.(http://www.portaltransparencia.gov.br/cartoes/consulta?tipoCartao=1&de=01%2F01%2F2020&ate=31%2F12%2F2020&ordenarPor=valorTotal&direcao=desc). No Portal, estes gastos continuam apresentando o caráter SIGILOSO, tanto para o CPF do portador que realizou o pagamento tanto do CPF/CNPJ do favorecido, apesar de estarmos em uma forma republicana de governo. Coisas do “regime mitológico em que fomos colocados.

O documento “Riding the storm – Market turbulence accelerates diverging fortunes”, publicado em outubro de 2020 pelo banco suíço UBS em parceria com a consultoria financeira PricewaterhouseCoopers (pwc), apresentou dados  de sua pesquisa confirmando o quanto a turbulência dos mercados provocada pela pandemia do Covid-19 favoreceu o crescimento da riqueza concentrada mundialmente. A referida pesquisa cobriu o universo de 2.000 bilionários, que especularam no mercado financeiro comprando enormes quantidades de ações em queda nas bolsas. Meses depois, os preços dessas ações voltaram a subir, aumentando ainda mais o patrimônio desses ultra-especuladores.

No Brasil há, conforme o documento, 50 bilionários que juntos somam cerca de US$200 bilhões. Por outro lado, o Banco Mundial publicou no mesmo período o documentoPoverty and Shared Prosperity 2020: Reversals of Fortune – Frequently Asked Questions”, que repercutiu muito pouco pela mídia hegemônica nacional, prevendo que o número de POBRES EXTREMOS será agora em 2021 de 150 milhões de pessoas perecendo com menos de US$1,90 por dia. Isso sem contabilizar a enormidade de empobrecidos considerados não-extremos, que sobrevivem com valores a partir de US$2,00 por dia, ou algo em torno de R$300,00 (trezentos reais mensais).

Conclusão: em 2021 teremos ricos ainda mais ricos, pobres cada vez mais empobrecidos e deuses mais envelhecidos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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