Deus se fez terra e tempo

“A esperança tem duas filhas: a indignação e a coragem. A indignação ensina-nos a não aceitar passivamente a realidade como se nos apresenta; a coragem impele-nos a transformá-la”. (Agostinho de Hipona)

 

Da tradição bíblica cristã, no prólogo do evangelista João, encontra-se a assertiva de que, em Jesus de Nazaré, “o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós”. Por sua vez, no livro de Mateus, tal afirmação consolida-se na concepção de Jesus como a manifestação de um Deus imanente no tempo, “um Deus conosco, Emanuel”. Por fim, no evangelista Lucas, Jesus é apresentado por sua mãe Maria como aquele sujeito ativo, ocupado com o bem comum, com a justiça distributiva das riquezas terrenas que “enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias”. Assim, uma pessoa que viva sua fé cristã com profundidade reflexiva e consequência prática toma como seu referencial existencial a dimensão temporal-espacial do Deus cristão, declarada por seus livros fundadores e reveladores de sua novidade. O Deus cristão se fez terra e tempo, presença na história, humanidade e criação.

Segundo o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), membro da resistência antinazista alemã, não é a participação a uma religião – ou a uma “seita divina” – que faz a pessoa ser cristã, mas a encarnação corajosa dos ensinamentos de Jesus na vida do mundo, com vistas a ir ao encontro de situações de desumanidade para contribuir com sua transformação em realidades mais humanizadas. Esse é o profundo significado da encarnação: Deus se fez humano – terra fértil (húmus) – para que nos tornemos mais humanos, restaurando nossa humanidade, impulsionando-a para relações mais genuínas, carregadas do amor do qual Jesus é portador. Há, portanto, um sentido muito mais profundo para a vida do que alienar-se dos sofrimentos humanos terrenos e fixar-se no próprio umbigo, cortando os laços que nos religam (religião) à vida terrena para projetar-se em abstrações desconectadas e espiritualizadas, como alguns leigos consagrados apregoam atualmente.

Para Bonhoeffer, a encarnação de Deus confirma que os humanos são seres-em-relação; sendo assim, ele critica toda e qualquer fuga do mundo. Na encarnação, Deus confirma a realidade terrena do ser humano e confirma sua vocação primeira de “estar-aí-para-o-outro”, em atitude e compromisso de amor recíproco. Neste sentido, a ética cristã abrange o significado ético mais profundo, ou seja, de ir além da mera distinção entre bem e mal, para, em Jesus, superar o mal dos males, a morte, fazendo surgir vida nova. (BONHOEFFER, Drietrich. Resistência e submissão: cartas e anotações escritas da prisão. São Leopoaldo – RS: Sinodal, 2015).

Em tempos de espiritualidades abstratas, de gurus desconectados das realidades concretas, de doutrinas teológicas muitas vezes alienantes e individualistas, é preciso desenvolver o esforço continuado de encontrar-se com Jesus concreto, contemplando-o em seu contexto histórico, para compreendê-lo em sua ação libertadora, a fim de desenvolver a vivência de uma espiritualidade profundamente conectada com a realidade – tempo e espaço – tendo em vista o mistério da encarnação por meio do qual o Verbo se faz carne e passa a assumir a existência humana com seus desafios sociais, econômicos e políticos.

Os estudos produzidos pela sociologia da religião, do professor emérito Richard Horsley, da Universidade de Massachusetts (Boston, EUA), apresentados em novas e críticas pesquisas da evidência que os Evangelhos oferecem da prática e pregação de Jesus de Nazaré, acarretam como consequência uma reavaliação de nossas próprias suposições e abordagens sobre ele. A busca desse entendimento visa estabelecer nexos com o tempo presente, na tentativa de encontrar novas compreensões e encaminhamentos concretos para o nosso agir humano.

Segundo o autor, a tradição dos Evangelhos está repleta de tensões, muitas delas com dimensões violentas. Todos os três Evangelhos Sinóticos começam e terminam com conflitos. No início do texto de Mateus, encontra-se o massacre dos meninos inocentes abaixo de dois anos de idade, ordenados por Herodes (Mt 2, 16). Em seguida, Herodes Antipas manda prender e executar João Batista, autorizando cortarem sua cabeça (Mt 14, 9-11). No evangelista Lucas, Maria mãe de Jesus canta um Deus que “derruba do trono os poderosos e eleva aqueles que estão na base da sociedade judaica” (Lc 1, 52). Além disso, no Discurso da Planície, Jesus oferece o Reino de Deus aos pobres e pronuncia “ai de vós” contra os ricos (Lc 6,20-24). Quando avisado que Herodes Antipas procura mata-lo, Jesus declara que continuará a exercer suas atividades repreensíveis (Lc 13, 31-33). E no evangelista Marcos, após o primeiro ato de Jesus no chamamento dos seus apóstolos, na alegoria do “espírito imundo”, anota-se: “O que tens a ver conosco, Jesus de Nazaré? Vieste nos destruir?” (Mc, 1,24). Portanto, para Horsley, em termos de espiral da violência, as tradições dos Evangelhos deixam claro que Jesus se opôs diretamente contra a opressão praticada por grupos governantes e que sua conduta era virtualmente um convite aberto a enfrenta-la. (HORSLEY, Richard A. Jesus e a espiral da violência: resistência popular na Palestina Romana. São Paulo: Paulus,2010).

O mais proeminente dos conflitos apresentado pela tradição dos Evangelhos é a crucificação de Jesus de Nazaré pelos romanos, rememorada nesta semana. As acusações que incidiram sobre ele não eram completamente falsas. A execução na cruz não era uma pena imputada a quaisquer tipos de crime, mas aplicada pelo Império Romano àquelas pessoas que conspiravam e buscavam romper a ordem dominadora. Ao anunciar a iminência da chegada do Reino de Deus, Jesus estava anunciando o fim da ordem antiga, da pax romana. Ou seja, a qualificação do crime de Jesus continha explicitamente uma dimensão política. Ele não chegou à condenação de cruz por nada, por não ter anunciado nada ou nem por não haver agido buscando influenciar na queda da ordem social opressora de então. Ele foi condenado, torturado e executado na condição de criminoso político. Portanto, para os fiéis de hoje que pretendem uma fidelidade à mensagem jesuânica, a simbologia da cruz deve significar algo mais profundo, sempre esperado em seu dia a dia de ação política da superação dos conflitos em vista de “novos céus e nova terra”.

Originalmente, o dia de sábado imediatamente posterior a crucificação de Jesus não foi de alegria (aleluia) para a comunidade primitiva, mas de tristeza e de temor pela iminente perseguição do poder romano. Sábado foi o dia da penumbra: Jesus estava morto, em de morte cruz, desde a sexta-feira, seus seguidores corriam o risco de um destino semelhante, e ainda não havia ocorrido a ressurreição prometida. Foi um Sábado de muito sofrimento, palavra evitada atualmente pelo mundo neoliberal hedonista que torna invisível e inaudível a desgraça de grandes contingentes populacionais produzida pelo capitalismo financeiro. O dia do silêncio de Deus, da solidão de Maria, sem o convívio de seu filho amado. Sábado é o dia da impotência, da injustiça, da desolação, da solidão; dia em que nos situamos diante da morte injusta imposta pelos “podres poderes”; dia precedido por traições, fugas, gritaria ameaçante, linchamento cruel e mentiroso; dia das esperanças rompidas, do medo que paralisa, do fechar de portas mentais e emocionais; dia incompreensível do silêncio, da “ausência” de Deus. Como pode tudo isso ter ocorrido?

Sábado é o dia da solidariedade radical de quem se fez nada para igualar-se àqueles e àquelas que nada têm, não possuem nada nesta terra e neste tempo.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .