DESFAZER-SE DOS LIVROS HERDADOS, OS PADECIMENTOS DE UMA VIUVA CONSCIENTE

Viúva de intelectual arca com responsabilidades “post mortem” que outras mulheres, sem sobras de livros persistentes a cuidar enfrentam em sua altiva viuvez.

Uma dessas amigas muito queridas decidiu aconselhar-se comigo para que lhe dissesse como se doam livros de um acervo construído ao longo da vida. Que esses livros, sobreviventes de uma proveitosa convivência, possam prestar serventia a outros intelectuais e a desvalidos de um bom aprovisionamento de leituras.

Sugeri que transferisse por doação para um sodalício, dessas instituições nas quais presumivelmente tomam assento intelectuais assim designados. E que possam ler.

Concordamos que esta seria solução pertinente, afinal livros soem estar em livrarias e bibliotecas, ao alcance das mãos de leitores diligentes e, em casos extremos, afeitos à leitura.

Meses transcorreram da oferta formalizada a uma dessas respeitáveis casas de cultura amealhada. Até que, por inesperada inconfidência, soube-se que havia uma fila de doadores em educada espera, três deles “de cujus” ilustrados, membros de numerosos sodalícios, e assim, pelas circunstâncias, preferenciais na edificante espera de prateleiras desocupadas.

Prateleiras disponíveis, sabemo-lo os bibliopatas ou bibliofrênicos como o são os detentores de livro em papel, é território de difícil ocupação. O livro que repousa em espaço alcançado a duras penas em uma estante, de lá não sairá jamais.

Outrora, quando os livros ainda corriam o risco de serem roubados, havia significativa rotatividade. Sem roubo, à falta de colecionadores piratas, os espaços em uma biblioteca tornaram-se exíguos: os leitores renunciaram à leitura, alguns acham, até, que ler causa azia.

Pois bem, minha amiga, cercada de livros que a qualquer intelectual de veras encheriam de felicidade, imaginou que poderia compartilhar os livros do legado do esposo com os amigos.

Aconselheia-a não ceder a este impulso. Há quem tome este gesto solidário, expliquei-lhe, como ironia ou recriminação, atribuindo-lhe a intenção de zombar da sua cultura miúda.

Cedi, finalmente, ante as enfáticas evidências e cometi o que jamais me ocorrera aconselhar a gente querida — despejar os livros em um sebo.

Tremi diante da cena entrevista: o aviltamento dos livros a caírem em mãos indevidas, pesadas sem a prática de quem alisa voluptuosamente o papel que antes foi papiro e pergaminho.

Deixei-a em meio a perplexidades tamanhas diante de um mundo novo no qual os livros impressos têm um valor reconhecido: a cotação dos catálogos das livrarias virtuais da Internet.

Lembrei-me de dom Rigoberto, personagem imortal de Vargas Llosa. Sempre que decidia pela compra de um novo livro, mortificava-se na escolha da lombada que extrairia da estante apoplética de livros para queimá-la e em seu lugar pôr o livro eleito em compra cercada de tantos cuidados.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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