DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO COM BASE EM ATIVOS

Quem quer observar ou refletir sobre o que as pessoas vêm fazendo para tornar suas vidas mais agradáveis, tem que olhar para o que as comunidades rurais, indígenas e urbanas vêm construindo ao longo dos últimos vinte anos no Brasil, tem que conversar com as pessoas e com suas lideranças para verificar o que elas têm feito: suas experiências, suas vitórias, suas dificuldades e suas redes de apoio e parcerias.

No contato com as experiências comunitárias, aprendemos que as pessoas e os grupos têm idéias diferentes sobre como as coisas podem melhorar e sobre o que é preciso para induzir [iniciar] um processo de desenvolvimento local ou comunitário. De modo geral, há dois procedimentos ou olhares que podemos sistematizar como o ponto de partida das ações de desenvolvimento econômico, social e cultural das comunidades: o Mapa das Carências ou Necessidades e o Mapa dos Ativos.

Mapa das carências ou necessidades

O Mapa das Carências centra o seu olhar nas necessidades das comunidades ou instituições, na natureza dos problemas, nas deficiências dos indivíduos. Esse é um tipo de mapa que está na mente da maioria dos líderes e técnicos institucionais, é o mapa das necessidades comunitárias. Os problemas mais comuns são: o desemprego, a falta de apoio da prefeitura, famílias desestruturadas, favelas, analfabetismo, falta de posto de saúde, falta de apoio para produção local, o envenenamento por agrotóxicos, o abuso infantil, as drogas, falta de transporte, os doentes mentais, etc. É assim que a maioria dos moradores, líderes e instituições enxerga suas comunidades. Chamamos isso de mentalidade das carências: uma forma de compreender a realidade local que tem guiado muitos líderes e tem determinado um modelo de prática social ou ação comunitária.

​No entanto, podemos perceber que esse mapa de carências tem algumas consequências inesperadas. Vejamos as mais visíveis:

• A primeira consequência: se as pessoas de um bairro ou comunidade estão sempre falando ou ouvindo seus líderes e assessores falarem somente sobre suas carências e deficiências, muitas vezes começam a acreditar que são apenas carentes e deficientes. E, na medida em que começam a acreditar nessas ideias, tornam-se inconscientemente dependentes;

• A segunda consequência: o mapa das necessidades tende a enfraquecer os relacionamentos locais, porque leva as pessoas a sedimentarem a ideia de que são somente carentes, que precisam de instituições e projetos que possam lhes ajudar. Isso enfraquece a capacidade pró-ativa da comunidade ou grupo;

• A terceira consequência: essa postura reforça a ideia de que, para ajudar uma comunidade, deve-se priorizar o dinheiro ou projetos como solução para suas necessidades. Todavia, ao longo do tempo, os projetos podem viciar a comunidade criando um círculo vicioso no qual as pessoas só participam de uma ação comunitária se tiver dinheiro de projeto, de editais governamentais ou da cooperação internacional. É somente das instituições de apoio (Estado e ONGs) que as coisas são esperadas e não mais da força organizativa e da ação cívica da comunidade;

• A quarta consequência: esse mapa de necessidades normalmente acaba em dinheiro fluindo para profissionais que vão ajudar pessoas, em vez de ser destinado para ações que ajudem as comunidades a construírem respostas com base em recursos existentes na própria comunidade;
• Finalmente, esse mapa das necessidades tem o efeito de criar a desesperança, o desespero. As pessoas começam a achar que não têm dinheiro, são carentes e veem os profissionais e assessores recebendo dinheiro para ajudá-las. Mas a comunidade e o bairro não mudam. Ninguém nunca viu nenhuma comunidade mudar com dinheiro aplicado para ajudar apenas os indivíduos.

Os comportamentos e práticas alimentados pela mentalidade que se foca só no Mapa das Carências é um problema que merece uma reflexão profunda por parte de lideranças e instituições que têm compromisso com o desenvolvimento local e sustentável. Em geral, as pessoas visualizam as instituições pelo foco de suas deficiências. As fundações, instituições, governo e mídia de massa tendem sempre a falar o que está errado, especialmente nas comunidades de baixa renda. Não fazem isso em bairros ricos. Lendo o jornal ou assistindo à TV, você vai pensar que só nos bairros pobres as pessoas se drogam e matam umas às outras, só nos bairros pobres têm desemprego, violência, poluição, medo e outras tantas coisas negativas.

Você, leitor deste texto, já consegue ver o quanto é negativamente poderoso esse Mapa das Carências ou Necessidades? Podemos, sem negar as necessidades locais, perceber a vida comunitária e institucional de outra maneira? A resposta é SIM.

O mapa dos ativos

Há, naturalmente, outro mapa, e esse mapa é o mapa dos ativos. Não que o mapa das necessidades não seja real ou verdadeiro, mas há outro real, o mapa dos ativos. Nesse estão os empreendimentos comunitários, as riquezas naturais, as habilidades das pessoas para desenvolverem várias atividades, as empresas privadas, escolas, bibliotecas, parques, clubes, igrejas, associações, grupos comunitários, os jovens, os idosos, artistas e grupos culturais. Todos são ativos numa comunidade, bairro ou cidade.

Quando você olha um copo, metade cheio e metade vazio, há duas formas de encará-lo: pode achar que ele está quase vazio ou pode apreciar a parcela cheia. Em geral, no trabalho comunitário, é comum focarmos na metade vazia, ou seja, nas deficiências da comunidade. A estratégia de focar na metade vazia, ou seja, no problema, tem limites reais. Os governos, em geral, focam os problemas, mas a sociedade civil precisa olhar para a metade cheia do copo, ou seja, para as capacidades [ativos] da comunidade. É uma estratégia diferente que pode gerar comportamentos e resultados positivos para o crescimento pessoal, coletivo e para o desenvolvimento local.
Quando analisamos as comunidades que têm alguma experiência exitosa de desenvolvimento local e perguntamos o que aconteceu que as fez melhorarem a sua qualidade de vida, descobrimos que, mesmo que essas comunidades fossem consideradas deficientes ou carentes, elas realizaram ações focadas nos seus ativos e iniciativas próprias para ajudar a desenvolver atividades econômicas, para ajudar as crianças, os jovens e as mulheres. Constatamos que elas produziram capital social ao lidar com problemas de confiabilidade. Suas histórias falam sobre a exploração de recursos existentes dentro da comunidade. Quando analisamos essas histórias, descobrimos que existem certos recursos dentro da comunidade ou bairro que as pessoas têm usado para melhorar as coisas por conta própria ou em parceria com o poder público ou entidades privadas, esses recursos ou ativos podem ser:

• As capacidades e as habilidades dos moradores locais;
• A terra e tudo que está em cima ou abaixo dela;
• A economia local: como as pessoas compartilham seus produtos, trocam, comercializam, vendem; as cooperativas, os sistemas produtivos, o artesanato, os meios de circulação de dinheiro;
• As organizações locais: associação comunitária, clube de mães, posto de saúde, bibliotecas, espaço de lazer, voluntários, grupo de jovens e outros;
• As instituições com as quais realizam parcerias;
• As belezas naturais (serras, praias, açudes, fontes termais, etc.);
• O capital social acumulado pela experiência coletiva da comunidade.

Podemos chamar os ativos de ingredientes para a construção de uma comunidade. Cada comunidade conta com um, dois, três ou todos esses ingredientes. Então, vamos tentar resumir algumas dessas descobertas, uma vez que existem dois mapas: um de carências, com consequências muito negativas, e outro em torno do qual você pode dizer: é assim que as coisas mudam. É assim que mudou, porque o foco não estava nas necessidades, e sim nos ativos.
A primeira descoberta, quanto ao que faz com que o desenvolvimento aconteça, quando se focaliza em ativos, é que ninguém pode fazer nada com necessidades ou carências. Eu, por exemplo, sou hipertenso. O que vocês podem fazer com minha deficiência? Nada. Uma necessidade não pode lidar com outra necessidade. Ativos são o que já dispomos para lidar com nossas necessidades. É por isso que é tão importante focalizar nos ativos. A comunidade pode fazer algo com o fato de que eu sou professor e trabalho com capacitação, mas nada com o fato de eu ser hipertenso.

A segunda descoberta é que o desenvolvimento comunitário se intensifica no processo de criar mais e mais conexões entre os seus ativos. Uma comunidade frágil tem poucas conexões e relacionamentos. Uma comunidade que fortalece seu capital social desenvolve conexões fortes entre cada um de seus ativos.

A terceira descoberta é que, de modo geral, as comunidades se desenvolvem numa sequência. Uma comunidade desenvolve-se de forma autônoma quando toma como foco inicial o seu próprio ativo. E, depois, recursos externos entram secundariamente. A comunidade utiliza melhor o recurso externo quando aprende primeiro a utilizar os seus recursos internos. Uma comunidade sabe melhor precisar o que necessita quando sabe o que tem.

A quarta descoberta é que as instituições externas, os doadores e financiadores podem ser mais bem convencidos a apoiar o desenvolvimento de ativos internos de uma comunidade se tiverem uma compreensão correta do seu papel. Eles têm um papel fundamental nessa iniciativa de dar apoio às comunidades para o desenvolvimento de seus ativos, criando relações e engajamento cívico.

Em síntese, uma comunidade utiliza melhor os recursos externos quando já faz bom uso de seus próprios recursos. O princípio é muito simples: você não sabe o que necessita enquanto não sabe o que efetivamente possui. As mudanças começam de dentro para fora, por meio do investimento e do apoio às qualidades e ativos das comunidades locais.

CONSTRUINDO O MAPA DOS ATIVOS

1 – OBJETIVOS:

Levantar a situação e as características atuais dos ativos [recursos] existentes na comunidade.

2 – MAPA DOS ATIVOS DE NOSSA COMUNIDADE

I – Qual é a natureza de nossa organização? [uma associação, uma ONG, um grupo de produção, um grupo prestador de serviços, entre outros];
II – Quais são nossos recursos estruturais [sede, patrimônio], materiais [equipamentos, terreno, carro, mobília], financeiros [dinheiro de sócio, projetos e atividades próprias], humanos [pessoas disponíveis, assessores, colaboradores com suas habilidades] e sociais [rede de apoiadores internos e externos]?
III – Quais são os recursos naturais existentes [utilizados e não utilizados seja para uso próprio ou para geração de renda]?

3 – POTENCIALIZANDO NOSSOS ATIVOS

I – Depois de sistematizados nossos ativos [questão anterior], vamos, agora, identificar as potencialidades e os limites de cada ativo [organizacional, patrimonial e natural] e definir qual a melhor forma de uso e de intervenção que o grupo ou comunidade pode fazer de cada um.

II – Identificado as potencialidades, os limites e usos, vamos agora mapear (lista) o que necessitamos para movimentar nossos ativos como alavanca do nosso desenvolvimento.

III – Realizado o mapeamento do que necessitamos para potencializar nossos ativos, vamos identificar quem são nossos parceiros [prefeitura, banco, ONG, associação, secretária do estado, governo federal] em cada necessidade e forma [projeto, editais, assessoria, empréstimo, crédito bancário] de realizar a parceria.

Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.