Desculpa

Olho para o relógio, já passa das 17h, ainda não tomei o primeiro banho do dia, só sentei para almoçar, será que sentei mesmo ou comi andando? Sei lá, nem lembro mais. Tarefas inacabadas, sono acumulado, olheiras que já estão praticamente conversando comigo de tão vivas. Faço tudo como se estivesse me escondendo de alguém, nada de barulho, nada de bebê acordando irritado do cochilo, não, tudo menos isso. Alguém bate na porta, sério? O que eu menos queria era uma visita agora, ainda mais de surpresa. Antes que eu pudesse perguntar quem era, ela entra, com seu ar de superioridade, seus passos sorrateiros, seu olhar altivo. Ela sabia que não era bem vinda, mesmo assim fazia questão de invadir minha privacidade, e não era a primeira vez que ela fazia isso, todos os dias ela vinha para me atacar.

Fico parada no meio da sala sem esboçar nenhuma reação, ela vai passeando pela casa, mentalmente imploro pra ela não ver as latas de fórmula, nem as fraldas que ainda não engomei, muito menos que o bebê comeu comida requentada hoje, fecho os olhos na esperança de que ela vá embora, mas é em vão, ela me cerca por todos os lados e me faz pensar que eu sou menos mãe porque não quis aqueles partos cheios de velas e pétalas de rosas, me faz achar que eu não consegui dar conta só porque meu bebê não mamou exclusivamente, e se ela souber que eu aceitei voltar a trabalhar fora de casa, vai me sentenciar como a pior mãe do mundo por deixar meu filho aos cuidados de outro alguém.

A maré de culpas vai me afogando até que me sinto sufocada por tantos auto julgamentos, por tantos dedos apontados na minha cara, e em uma atitude de sobrevivência eu grito: NÃO, BASTA! eu não quero mais você aqui dentro de mim, vai embora culpa, você não é necessária, aliás você é totalmente inconveniente e inútil. Nesse momento escuto um chorinho, vou ao encontro do meu filho e o abraço com tanta força, como se me refugiasse naquele corpinho quente e fofinho, olho nos seus olhos e encontro ali todas as respostas para os meus anseios. O seu sorriso me diz que não, eu não sou uma mãe relaxada, eu faço tudo o que posso e muitas vezes até o que não posso para suprir suas necessidades, eu me doo completamente, mas eu também preciso que se doem por mim. 

E daí se eu não voltei ao peso ideal em poucos meses? Olho agora com carinho para o meu corpo que foi abrigo, morada, e agora é alimento, aconchego, proteção. E daí se eu deixei a louça suja na pia pra tirar um cochilo? É descansando que eu consigo manter a minha sanidade mental e o meu bem estar. Para que eu cuide dos outros eu preciso cuidar de mim primeiro, pois só se dá aquilo que se tem. E se eu quiser pedir demissão do emprego pra ficar em casa com meu filho? E se eu quiser trabalhar fora para dar o melhor pra ele? Ele vai me amar do mesmo jeito e eu também. Nesse mundo de tantos rótulos, conceitos e pré conceitos, de tantos “exemplos”, de tantas dicas e “comigo foi assim”, se dê uma chance para se ouvir, seguir os seus instintos, se respeitar, pois só você sabe onde o seu sapato aperta, só você vive a sua realidade. E da próxima vez que a culpa tentar te dizer o contrário, bata a porta na cara dela e vá ser feliz!

 

Hadassa Cavalcante

Hadassa Cavalcante

Graduada em Jornalismo, Mãe de dois, Vegetariana,Cristã.

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