Depressão econômica mundial?

“Os anos de depressão econômica têm sido anos de reação política, e é por isso que a crise econômica tem gerado a crise na paz mundial.”   Arthur Henderson, Nobel da paz de 1934.   No capitalismo tudo é aferido pela forma valor, representada por suas duas formas referenciais fundamentais: o dinheiro, mercadoria especial e a única que não tem valor de uso, apesar de comprar todas as outras e nelas se materializar; as mercadorias sensíveis, tangíveis, os objetos; e a mercadoria serviços. Hoje há um artificialismo no mundo econômico que bem demonstra a inconsistência do capitalismo em sua fase desenvolvida: a dissociação entre o dinheiro e a forma valor que deveria representar. O dinheiro já não é mais a representação fidedigna do valor, e esta é a causa da inflação mundial assombrosa. O mundo todo roda com dinheiro sem valor, e em algum momento este artificialismo terá que exigir uma nova referência substantiva de relação social. A pergunta que não quer calar é: chegamos a este momento? A resposta a esta indagação é que se ainda não atingimos o ponto culminante desta situação de inviabilidade social sob a ordem capitalista, estamos caminhando celeremente para ela.   Analisamos aqui a questão sob uma perspectiva inicial de pretensão didática, correndo o risco de sermos professorais em demasia, mas entendendo que tal abordagem é necessária, principalmente para os leitores não versados em economia, a grande maioria da população. É que o objeto da adoração popular, o dinheiro, é um grande desconhecido, tal qual uma maçã externamente bela e podre por dentro. Os economistas burgueses, em geral, se prendem apenas a análise do gerenciamento do capital, abstraindo sua essência negativa, e tentando dar consistência ao que é inconsistente na origem. Esta é a razão pela qual vimos fazendo a crítica ontológica do capital (tentando espelharmo-nos no que Karl Marx fez e deduziu), reafirmando as contradições que fatalmente o levará ao colapso, sob o risco altamente presente dele nos levar à extinção como espécie em seu processo autodestrutivo (a guerra é uma destas consequências). Qualquer análise sobre a saúde econômica sob a égide do capital se fixa em quatro pontos básicos numéricos, e seus graves reflexos nas relações sociais humanas, quis sejam: a) o tamanho do PIB - produto interno bruto - da economia mundial; b) a inflação, que é a perda de capacidade de compra do dinheiro; c) o desemprego estrutural e suas taxas mundialmente crescentes; d) as dívidas públicas e privadas impagáveis. Como sabemos, o PIB é formado por três segmentos econômicos: o primário, representado pelo agronegócio; o secundário, representado pela produção industrial; e o terciário, representado pelos serviços. Apenas os dois primeiros segmentos são produtores de valor novo, sendo que na economia desenvolvida, o agronegócio agrega pouco valor ao PIB, apesar de serem os alimentos dele derivados vitais para a existência humana; a produção industrial é a mais representativa de criação de valor novo, principalmente nos países economicamente desenvolvidos, que produzem mercadorias sob patentes tecnológicas que não podem ser produzidas pelos países subdesenvolvidos que as compram a preços altos (não confundir com valores). O segmento terciário, de serviços, não produz valor novo, mas apenas transfere de mãos valor já existente. Tal segmento é, hoje, o mais expressivo na formação do PIB das economias desenvolvidas, fato que por si só já representa um sintoma de anomalia econômica somente explicável pelo enunciado antes exposto de que o mundo roda com dinheiro artificial. Como se explica o fato de que há mais dinheiro circulando no segmento de serviços, se não há valor novo sendo produzido para alimentar tal circulação, mesmo considerando a alta rotatividade de valores de prestadores de serviços entre si (que apenas explica em parte tal fenômeno)? A dedução lógica é de que há emissão de moeda sem lastro a alimentar o segmento de serviços, principalmente, e esta é a causa básica da inflação mundial estar atingindo agora as economias ditas fortes, vez que nos países da periferia capitalista tal fenômeno já é constantemente presente e sacrifica a maior parte de suas populações. Até países que outrora tiveram alto padrão de consumo, como a Argentina, estão agora padecendo sob o tacão da inflação, que representa o maior confisco de salários dos trabalhadores e do trabalho abstrato remunerado sob o critério do dinheiro. Quem visitou a Argentina há 30 anos, se surpreende com a decadência atual, após três décadas de inflação alta; e se o visitante o fez há 60 anos vai ficar profundamente entristecido. O Brasil de Boçalnaro, o ignaro, e seu apego desesperado ao poder aposta nesta trilha, daí não ter nenhum pejo em promover a distribuição eleitoreira de bondades financeiras que serão bastante prejudiciais num futuro bem próximo (no capitalismo não há almoço grátis).   O maior problema do capitalismo hoje é o desemprego estrutural. Máquinas não produzem valor, ao contrário do que muitos pensam (até mesmo os capitalistas que ganham dinheiro com elas inseridas na produção de mercadorias). Só o trabalho abstrato e sua extração de mais valia nos setores primário e secundário da economia produz valor, e sem valor novo e aumentado constantemente o capitalismo colapsa. Os números do desemprego estrutural mundial são alarmantes. Para se ter uma ideia desta circunstância econômica e tragédia humana (no capitalismo só come quem trabalha), basta olharmos as taxas de desemprego de regiões populosas do mundo como a China, a Índia e a África, que juntas somam cerca de 40% da população mundial, ou cerca de 3,5 bilhões de habitantes, que são as seguintes: - China e Índia com 6,1%; e África com 9,8%. Isto representa cerca de 1,3 bilhões de desempregados, que forçam os empregados a aceitarem salários de fome em nome de uma sobrevivência miserável. Não esqueçamos que além do desemprego estrutural, o regime de concorrência de mercado força a redução de salários e direitos trabalhistas em nome de uma retomada do desenvolvimento econômico pretendido pela direita e pela esquerda institucional e que a cada dia fica mais distante de se realizar. Mas não é apenas na periferia que tal fenômeno é cruelmente verificado (mas que pode representar uma ruptura com tal forma de relação social em futuro próximo, empurrado pelas condições objetivas), mas também, agora, nos países economicamente hegemônicos. Os Estados Unidos estão enfrentando a maior taxa de desemprego dos últimos anos calculada em torno de 6% de sua população economicamente ativa, e a União Europeia tem taxa de desemprego de 6,2%. O Brasil, país mais populoso da América latina, enfrenta taxa em torno de 10%. São bilhões de pessoas desesperadas e, diferentemente do que disse Paulo Guedes na campanha presidencial de 2018, o capitalismo não resgatou da miséria ancestral a população mundial (que antes do capitalismo e sob o feudalismo ou outras formas escravistas, vivia na miséria mais por ignorância científica do que pela exploração capitalista atual), mas está a lhe impor uma realidade social igualmente miserável, até que a guerra elimine os humanos supérfluos do capital. Corremos riscos inimagináveis de extinção como espécie graças a conjunção de fatores como letalidade armamentista nuclear e miséria social capitalista irrenunciável pelos gestores político-econômicos do capital.   O mundo está há um passo de uma recessão mundial, circunstância que tornará insuportável o que já era muito ruim. Não é a recessão que causa o desemprego estrutural, mas é o desemprego estrutural que causa a recessão, num processo de retroalimentação socialmente pernicioso. Aliás, foi Karl Marx quem disse que a substituição gradativa de trabalho vivo (trabalho abstrato, porque salariado em valor abstrato, como capital variável) pelo trabalho das máquinas (trabalho morto, sem salário, como capital fixo), faria voar pelos ares toda a lógica capitalista. Ele assim o fez e disse graças a análise da essência da forma valor, e ao invés de incensá-la, como o faziam (e fazem) os economistas burgueses, ele criticou-a logicamente, e por isso foi contestado pelos donos do capital e seus adeptos nestes últimos 150 anos, além de ter sido considerado morto e sepultado, mas que agora surge das cinzas tal qual Fênix redivivo.   O capitalismo é irracional se se quiser atribuir a ele algum sentido de equidade e viabilidade, e não apenas como um deliberado interesse de classe escravista; é o único sistema de relações socais no qual produzir mais por meio de instrumentos tecnológicos (as máquinas) significa sua derrocada; este é um fator denunciador de irracionalidade evidente. A guerra, a queda mundial no crescimento do PIB e da inflação não são causas, mas consequências irremovíveis das contradições da lógica do capital, e estão agora mais presentes do que nunca.   A Comissão Europeia, organismo integrante da ordem capitalista, portanto, de apoio ao capital e de insuspeita tendência crítica, afirma que os EUA estão vivenciando uma inflação de 7,3% para este ano de 2022 (a maior desde décadas), e de 6% para a zona do euro neste mesmo ano. O Brasil prevê uma inflação em torno de 12% para este ano de 2022. A inflação, como ensina qualquer manual simplório de economia, é consequência de uma circulação de moeda sem correspondência com a produção de mercadorias. Assim, como há mais dinheiro em circulação do que produção de mercadorias, a lei da oferta e da procura promove a alta dos preços destas (não do seu valor intrínseco, e é assim que a moeda perde credibilidade como sua representação). Os Bancos Centrais, em obediência à economia e suas regras ditatoriais (não há BCs politicamente autônomos, como se quer afirmar), emitem moedas sem lastro como forma de doar sangue artificial a um organismo anêmico sob pena de falência antecipada deste mesmo organismo. A inflação é uma febre que denuncia a infecção no organismo capitalista, e não se pode quebrar o termômetro como forma de obscurecê-la, porque os assalariados compram mercadorias e serviços com o dinheiro que ganham, e aí se tornam explícitos e conhecidos os seus efeitos socialmente nefastos. Traduzindo: a inflação é o maior confisco de salários que pode existir, e se alia à extração de mais valia e aos impostos estatais como categorias capitalistas promotoras da cruel segregação social que ora se acentua gravemente. Tudo corresponde a um ciclo vicioso decadente: não se produz porque não se vende; não se vende porque não há capacidade de compra pela população; mas como a máquina do capital precisa continuar viva, emite-se moeda sem lastro que causa inflação; a inflação corrói o poder de compra e causa depressão econômica, e por aí vai... Ou seja, o PIB - Produto Interno Bruto - decai em consequência das contradições capitalistas em processo. A Comissão Europeia prevê uma redução do PIB mundial para 2022. O PIB mundial deverá se situar em 2,9% para 2022, incapaz de recuperar as perdas havidas em 2020, ano da intensificação da paralisia econômica provocada pela epidemia da Covid19, e com inflação alta tais números se tornam socialmente explosivos, e principalmente assombrosos para a periferia capitalista. A África, por exemplo, corre grave risco de ser vítima de um processo de inanição causada pela fome. O Egito já dá sinais de tal tragédia humanitária. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, os Estados Unidos que detêm a maior economia nacional do mundo, viveu uma queda do PIB de 1,4% no primeiro trimestre deste ano de 2022; e o segundo trimestre não tem sido alentador para os capitalistas e rentistas em geral. As bolsas de valores caem, e as rendas de capital acompanham a mesma trajetória. A OMC – Organização Mundial do Comércio – organismo da ordem capitalista, afirma que a previsão do PIB mundial para 2022, corroborando o que prevê a Comissão Europeia, que teremos um PIB mundial em 2022 de apenas 2,8%. O PIB mundial de 2019, antes mesmo da pandemia, já demonstrava fragilidade, fixando-se em apenas em cerca de 3,0%. A crise sanitária apenas agravou o que já era gravemente preocupante. Com a economia mundial interligada e a velha e fratricida disputa por hegemonia econômica entre as nações, reproduzindo a competição fratricida entre os empresários na guerra de mercado e até dos trabalhadores por ascensão profissional, está ocorrendo um fenômeno provocado pelas guerras localizadas com reflexos negativos na economia mundial, que é a paralisia da produção causada pela falta de insumos necessários à produção nos níveis de mercado, e este é mais um fator desestabilizador. A falta de produção e fornecimento internacional de semicondutores na produção de equipamentos tecnológicos (carros, computadores, celulares, etc.) está travada e isto está contribuindo ainda mais para a queda do PIB mundial, sem contar com a volta da epidemia de covid19 em alguns países, como o Brasil, que está vivendo um crescendo perigoso de contaminação e se aproximando das 700 mil mortes para uma população de pouco mais de 210 milhões de habitantes.   Nesse quadro recessivo a máquina estatal carente de recursos para prover as demandas sociais de sua incumbência e os altos juros da dívida pública dos países pobres, que sustentam o mercado financeiro mundial, endivida-se ainda mais numa bola de neve sombria e ameaçadora. Mas os políticos continuam a desejar o acesso ao poder político decrépito da ordem capitalista, e o povo é incitado a votar como forma de solução de problemas que estão longe de serem resolvidos por quem está inserido nesse contexto político-capitalista. Aí, haja aumento da dívida pública e privada, e emissão de moeda sem lastro. Economistas mais conscienciosos estão prevendo que temos 40% de possibilidades de entrarmos num quadro de recessão mundial; a agência Morgan Stanley vai na mesma direção prevendo que temos 35% possibilidades. Assim, os investimentos se retraem e tudo converge para um impasse de proporções bem maiores do que aqueles causados há cerca de quase cem anos (1929/1930), na grande depressão que gerou a segunda guerra mundial.   E todos estes problemas são acrescidos pelo aquecimento global que também contribui fortemente para a desertificação esterilizante e para a formação de catástrofes climáticas insuportáveis. Quando é que vamos ter coragem de pegar o touro capitalista pelo chifre???

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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