Deixa-me falar sobre a primeira vez, por LUANA MONTEIRO

Nervosismo. Suor brotando pelos poros do corpo. Mãos trêmulas. O corpo reage ao que está por acontecer. É a exploração de um novo caminho. Adrenalina correndo pelas veias. Suspiros, sussurros, ruídos…

A chegada, inesperada ou não, de uma nova experiência nos aflora os ânimos e faz-nos adentrar no mundo dos sentidos.

Situações de prazer, estresse, medo ou raiva são delineadas pelas emoções. A liberação ou não de certo tipo de hormônio gera a comunicação exata entre os diversos sistemas que temos no corpo. Endorfina, adrenalina, cortisol e outras substâncias são responsáveis por desencadear respostas físicas e psicológicas a acontecimentos nas nossas vidas. Respostas comuns do nosso corpo diante de situações que geram “stress” – um estado de alerta – são de enfrentamento ou de fuga.

Da mesma forma os hormônios do prazer desencadeiam um alerta geral no corpo. Adrenalina e endorfina trabalham juntas para que qualquer dor ou desconforto físicos sejam momentaneamente repelidos, fazendo com que toda a concentração esteja na autossatisfação.

As primeiras vezes geralmente são dramáticas. Talvez nem tanto pelos acontecimentos em si, mas principalmente pelo coquetel de hormônios que se harmonizam e dão a métrica da situação. Medo, angústia, desconforto, entusiasmo, felicidade, excitação, orgulho, repulsa, ansiedade… todos são sentimentos que podem nos tomar o juízo e até sequestrar nossas ações.

Você já sentiu um frio enorme no seu estômago que parece te fazer congelar por dentro? Que na tentativa de conseguir algum aquecimento ao corpo, inevitavelmente vem um impulso em se encolher? Um colega afirmou uma vez que esse ímpeto para se colocar em “posição fetal” é na verdade a busca pelo útero da mãe, naturalmente canalizando uma proteção maior.

Bem, não cheguei a ficar indefesamente em “posição fetal”, mas já senti o vazio glacial na barriga.

E com o tempo esse frio foi virando literalmente dor de barriga. O que eu faço para que a sensação passe? Eu simplesmente me vejo impelida a enfrentar a circunstância que está me deixando aflita.

Não estou falando necessariamente de situações conflituosas ou eróticas, mas de momentos que exigem ação e para os quais ainda não possuímos um roteiro na memória de como aquilo deve acontecer, são as famosas primeiras vezes. Contextos em que me vi assim geralmente foram: dar uma aula, apresentar trabalhos, contar um segredo, inventar uma mentira, paquerar, ser entrevistada, tomar uma iniciativa e um vasto etcétera. Para mim toda primeira vez é assim.

Algumas vezes essa sensação de vivenciar algo completamente novo é precedida  por sentimentos bons que trazem felicidade, outras por angústia e sofrimento. Mas logo que as coisas se resolvem eu abro um sorriso enorme e até esqueço que há  pouco quase havia me jogado no chão e esperneado.

Essa sensação me faz lembrar de um trauma que eu tenho de infância. Toda vez que eu adoecia, e eu adoecia com muita frequência, minha mãe me levava para o hospital. Lá parecia existir somente um tipo de remédio, penicilina, que eu conhecia como “Benzetacil”. Ah essa foi a vilã da minha criancice. Mas na cabeça de todos era o mal necessário para a reconquista de um corpo são.

Eu chegava desvanecida no consultório: febre, corpo fraco, nem fome eu sentia. Só queria ficar na minha cama. A garganta super inflamada fazia até o ato de tomar água um momento angustiante.

Como eu mesma já sabia o meu prognóstico logo no começo dos primeiros sintomas da doença (tamanha era a familiaridade), me escondia embaixo dos lençóis, e quando minha mãe descobria a doença dizia, – Luana, vou ter que levar você no hospital! As lágrimas corriam desde a decisão de minha mãe até o momento de tomar o bendito remédio.

O bom mesmo era o pós-injeção, não passava vinte minutos depois da medicação e eu estava ótima! Até vontade de correr eu tinha. Um mês depois lá estava eu de novo esperando na fila da emergência.

Nem me recordo de como foi a primeira vez que passei por essa tortura. Mas sempre que ela acontecia minha memória me propiciava lembrar desgostosamente de toda a situação. Eu a revivia sem nem mesmo precisar estar na sala de medicação novamente, bastava ouvir a decisão de me levar ao hospital,  e todo o martírio era reavivado por mim.

Talvez a primeira vez conte com o privilégio de não termos programação neural que nos diga exatamente o que esperar dela. Talvez isso seja um ponto positivo, o que não deixa de gerar expectativas e teorizações sobre possíveis situações que nos vemos prestes a enfrentar.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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