Debate sobre Natureza Humana: uma relação entre Ideologia e Política

O ano de 2020 é marcado com uma mudança radical de rotina, a nível global, provocada por uma pandemia decorrente de um vírus esperto que se espalha com muita rapidez entre as pessoas. Países que venceram uma primeira onda ficam atentos para uma segunda que pode ser até mais mortal. Só uma vacina, o antídoto dessa desordem sanitária, normalizaria. Duas crises são provocadas, contudo, e que merecem destaques na política durante essa pandemia. Elas provocam impactos significativos na percepção humanista do mundo. São elas, a crise profunda da economia capitalista e, também como consequência, a constatação de que a desigualdade social continua não apenas como o grande desafio humanitário, mas também se apresenta como a base de um debate ideológico do mundo.

O Ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, garantia do apoio ao governo, sobretudo de um setor empresarial, fez uma declaração instigante sobre o tema clássico da Natureza Humana e esquentou temporariamente o debate nas Redes Sociais por tocar exatamente no ponto central. Ele diz: “Você se torna um liberal ao longo de muitas décadas, fazer um socialista leva cinco minutos, porque tem um bom coração, querer ajudar os outros, está nas grandes religiões, na solidariedade, na fraternidade; nós nascemos assim” (Redes Sociais).   

Esse foi um debate caloroso com grande participação religiosa e intelectual no século XVI, em que aconteceram mudanças radicais que ficaram conhecidas como Mercantilismo, na economia, e Renascimento, na nova forma de ver a Verdade, inclusive na fonte do poder político: o Teocentrismo, sendo substituído pelo Antropocentrismo, a fonte da verdade que passa paulatinamente da Revelação para a Ciência, afetando a estrutura de poder ao incorporar novos atores. Esse debate mostra, de forma didática, a relação entre ideologia e política, como pretendemos mostrar em rápidas pinceladas.

O debate da natureza humana estava, portanto, no foco, no século XVII, e os déspotas esclarecidos necessitavam de uma ética para essa nova realidade. Thomas Hobbes, tutor de Carlos V, na Inglaterra, adaptou o Livro de Gênesis, fonte do “Temor de Deus”, para o “temor dos homens”, uma transformação significativa para a política, uma nova fase da Soberania Popular. O Paraíso, criação de Deus, Hobbes substitui pelo Estado de Natureza, onde todos são iguais e livres, mas a competição traz um estado de guerra de todos contra todos. Necessitava-se de um poder absoluto para garantir a paz, e se realiza por um pacto onde o povo troca todo poder que cada um tem e o soberano garante a paz.

Liberdade e Igualdade, deste modo, são os novos valores nessa transição do feudalismo para o capitalismo. A Revolução Francesa, no século XVIII, irá resumir como Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Começava a consolidar uma revolução silenciosa em direção à modernidade, ao laicismo, substituindo a aristocracia pela burguesia. O conservadorismo prosseguia e era representado pela fraternidade.

Padre Manfredo Oliveira tem um belo trabalho sobre a modernidade e ressalta que ela “significou o retorno do homem a si mesmo e sua posição como ser radicalmente diferente de tudo mais. Em que consiste fundamentalmente esta diferença? Precisamente nisto, que o homem não se encontra completamente atrelado a uma ordem cósmica universal, que determina previamente seu ser e seu agir, mas é um ser que se possui a si mesmo. Neste sentido, a liberdade se tornou o programa fundamental da humanidade na modernidade”(OLIVEIRA, Manfredo Araújo, Filosofia Política – de Hobbes a Marx, – NEPS, Universidade Federal do Ceará – UFC, 1989, Fortaleza, Série Estudos e Pesquisas).

No século XVIII, o século das Luzes, Rousseau, o primeiro revolucionário, vai concordar com a bondade da natureza humana no estado de natureza, como a Religião já revelava e que a liberdade era a grande conquista.  Paulo Guedes, portanto, está concordando com ele. O foco é que vai ser diferente. Rousseau diz que foi a sociedade que corrompeu essa bondade humana com a propriedade privada ao introduzir a ambição. Ele diz que quando o primeiro homem que cercou a terra e disse que isso é meu, começou também a desigualdade. Paulo Guedes diz agora que o homem também é bom por natureza, daí ser naturalmente de esquerda, e é o liberalismo quem traz um novo momento para esta convivência social.

A Pandemia traz esse clássico dilema ideológico para os governos: primeiro salvar vidas ou salvar a economia. Eis aí a base para a existência de partidos políticos numa democracia representativa. O debate sobre natureza humana revela, pois, a relação entre Ideologia e Política. Rousseau morreu um ano antes da Revolução francesa, foi o principal ideólogo, dizia que o desafio da modernidade era recuperar a bondade do estado de natureza.

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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