De repente, mãe.

Despretensiosamente, me descubro mãe. 

Enquanto Fernando dorme, enquanto paro e consigo me ver em um espelho qualquer. Mãe. Substantivo feminino, adjetivando tudo aquilo que sou.

Tem sido intenso. Por vezes, as palavras somem. Dias à fio. Não consigo encontrá-las. Me faço rotina. Casa, trabalho virtual, fraldas. É estranho ver o tempo passar em quarentena e mais estranho ainda olhar pra trás, pra tudo que já fui e perceber quantas e quantas vidas eu vivi antes de me descobrir mãe.

Fernando fez seis meses, dias atrás. E, de repente, depois de seis meses, me descobri mãe. Ele cresce, o tempo não perdoa. O relógio faz ques-tão de correr. São poucas as vezes em que me vejo no espelho. Poucas as vezes em que consigo olhar pra dentro de mim, observar, permanecer no meu silêncio barulhento que tanto gosto. O medo de errar, de não ser o suficiente, de falhar. A culpa. Eu li esses dias sobre a culpa, que quando uma mulher se torna mãe, nasce a culpa também. É real. Como se tudo dependesse somente de mim e eu sei que não, mas sentimentos são difíceis de controlar.

A chuva cai, enquanto Fernando dorme. Queria inventar um outro mundo pra ele. Sem pandemia, Bolsonaro ou gente morrendo as pencas nas periferias. Queria protegê-lo para sempre de tudo isso. Ter um tapete voador, levá-lo pra bem pertinho da Lua, visitar galáxias desconhecidas e mergulhar oceanos cheio de vida diferente, diversa. Eu de mim criança lembro bem do medo do mundo adulto. Achava que talvez fosse chato crescer – e talvez eu estivesse certa.

Me descubro mãe perto dos trinta. Fernando fez seis meses. Meio ano, de pura vida. E tem sido doce, difícil, culposo me descobrir mãe. Mas ainda assim é o sorriso de Fernando – que tanto admiro, que tanto amo, que tanto me encanto diariamente – que deixa tudo mais leve. Desejo a ele os voos mais altos que puder dar. Aqueles que não vou conseguir dar. Sei que não vou protegê-lo nem do mundo, nem dele mesmo. Mas eu tô por aqui. Me descobrindo mãe, todos os dias.

No final das contas, escreveria mil teses sobre maternidade, maternar, o papel social da mulher-mãe. Mas para além de todas as (necessárias) problematizações e teorizações sobre isso, a descoberta é minha atual mola propulsora. É me descobrindo cotidianamente mãe que consigo enxergar um pouco mais de mim e de tantas outras mulheres-mães que me cercam. 

 

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhaes

Juliana Magalhães é licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e mestre na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) . Atualmente é docente da UECE na cidade de Itapipoca. Mãe de primeira viagem do Fernando.

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