DE FRENTE COM O SINISTRO

Sustenta-se, hoje, didaticamente: o convidar é uma questão de cortesia. Sim. Esses obrigados sem obrigação que saem ao bel-prazer para desconvidar os outros. O outro? Sim. Aquele mesmo que precisava daquela cama, daquele leito, daquele respirador… hoje tão escasso. Hoje tão findo, quanto o ânimo que ali estava. Onde está? Não sei.

Senta-se diante à TV e é visto um verdadeiro espetáculo! Os transeuntes caminham sem pensar mais de uma vez que no que é e no que pode vir a ser. Não. Eles não querem o que o corpo ou a alma pensam; desejam o inóspito sentimento de perda imponente. Tão imponente quanto o convidar. Eia, pois, ninguém os convida! Apenas a cegueira coletiva, essa que vai além do ensaio é capaz de explicar o que ocorre. São reféns de um pertencimento digno de nota: fruto da fuga do pai, do abandono da mãe, do irmão mais velho que foi embora. Uma relação de devoção inumana toma conta desses indivíduos. Inumana.

Pois só quem sabe e sente pode dizer. Negar pesquisas, profissionais renomados, pesquisadores profundamente unidos a fim de solucionar o problema, que é comum! Não usar proteção, seguir protocolo nenhum, xingar a mídia – que apesar de mídia, tem sido cirúrgica – e ser isolacionista dentro da política quando na verdade deveriam estar praticando o isolamento social. Só sendo muito sinistro pra defender um desses caras.

Segue-se o jogo. O rei e a rainha, intocáveis como são, assistem ao digladiar dos peões em desalinho. Quem ama, está em si e já não tem mais essa devoção insuficiente, está acordando para o real e vendo o quão dura é a realidade quando nossos mitos se esfacelam em gotículas. Quem não ama, está por acolá e se agarra ao negacionismo como forma de defesa, ainda não deve ter sentido na alma a dor que é uma perda por síndrome respiratória aguda grave; precisarão esses de uma coroa de espinhos para entender o sentido da crucificação? Espero que não. Que uma luz se abra em suas mentes e percebam o que está ali, diante de seus olhos: estamos todos em face do sinistro.

Amedrontador. Assustador. Gera perplexidade. 

Que seja nosso o despertar.

 

David Augusto

David Augusto

Me conheço David e me reconheço todo dia. Sou estudante universitário, me viro por opistótonos e sou leitor-todo-dia. Acredito na essência do que vem e, sobretudo, no que o tempo e eu somos capazes. Tenho na mente o sê todo em tudo e em cada e no coração um quê de eternidade. Escrevo porque é o porquê.

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