De dentro dos nossos “por quês?”

Hoje há povos inteiros explorados e deixados à própria sorte, como recentemente constatamos com os Yanomamis no Brasil, durante o governo de Bolsonaro. Há irmãos e irmãs empobrecidos, famintos e desnutridos, vivendo pelas ruas de nossas cidades, cujos rostos sequer temos a coragem de os fitar. Há pessoas descartadas por uma estrutura hiperindividualista para a qual só têm valor aqueles que correspondem ao padrão estético-econômico-cultural da classe dominante. Idosos abandonados, deixados sozinhos, ridicularizados, menosprezados. Pessoas portadoras das mais diversas deficiências que são literalmente violentadas e ignoradas em suas necessidades vitais. Juventudes das periferias das cidades que sentem um grande vazio existencial diante de um sistema da indiferença, da violência, da exclusão, pela ausência de solidariedades, promotor do ódio e mentira sistêmicos. E por que tudo isso acontece?

As indagações acima inspiram-se numa reflexão mais ampla presente na homilia do Papa Francisco, referente ao evangelho da celebração do Domingo de Ramos, no último dia 02 de abril. Para Francisco, somente mergulhando nesses “por quês” poderemos encontrar respostas salvíficas, libertadoras, encorajadoras, diante das quais brotarão uma esperança nova, uma fé fortalecida, um amor revigorado por meio dos quais nossas melhores energias podem reposicionar-se para novos sentidos da construção do bem pessoal e social.

Dirigindo-se especificamente para os cristãos de todo o mundo, Francisco denomina-os de discípulos de Jesus Abandonado, para os quais nenhum ser humano pode ser marginalizado, não pode ser deixado de lado, rejeitado ou excluído. Os cristãos precisam saber reconhecer Jesus Abandonado, diz o Papa, em todas essas pessoas reais, concretas, sofredoras, que diariamente passam ao seu lado. Estas pessoas sofredoras precisam de sua proximidade amorosa e real. E ao encontrá-las, estarão encontrando Jesus. Afinal, são muitos os Cristos abandonados no tempo presente, vítimas de um egoísmo pessoal e estrutural, sistêmico.

No dia 02 de abril, o desafio de Francisco foi lançado: mergulharmos nesses (e em outros) “por quês” para escutar uma voz vigorosa e verdadeira, por meio da qual possamos renovar nossa existência para converter nossas rotas existenciais rumo à construção do Bem para todos, e não apenas para alguns poucos. Sem dúvida trata-se de um grandioso desafio!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

1 comentário

  1. Valdenir viana

    Bolsonarismo é um mau a ser extirpado da nossa sociedade. Essas histórias de Deus patria familia não cola mas, pois suas sementes ficaram no congresso Nacional e estar em todos os lugares. Todos os dias temos que combatê argumentos eles não tem.oque sobra deles é só ódio que muitas vezes eles mesmo são vítimas