De andanças pela Oscar Araripe – LUANA MONTEIRO.

Olá! Você aceitaria uma carona para conhecer uma rua fora da sua rota cotidiana em Fortaleza?

Não vai demorar muito, garanto.

Aviso, no entanto, que ela é um tanto distante dos centros comerciais mais disputados da cidade. Ela atende principalmente a um público local, os moradores do grande Bom Jardim e do Conjunto Ceará.

Quando me proponho a desbravá-la, sempre à procura de mais uma relação com o mundo das mercadorias, geralmente vou de carro. O caminho costuma ser bem quente, e nos momentos mais concorridos nos horários comerciais, o Sol costuma corroborar a agitação dos corpos humanos que realizam dia a dia sua sina de compra e venda.

É verdade que na avenida em questão não é possível ter o abrigo das sombras de copas de árvores.  Deparamo-nos com a prioridade dos indivíduos em expor suas mercadorias e dar a elas visibilidade como um critério mais importante que aquele do conforto das sombras para quem passa à procura de algo.

A avenida em que vamos entrar se chama Oscar Araripe. Fica na região do grande Bom Jardim e é principalmente de caráter comercial, apesar de se encontrar em franca disputa com outros tipos de organização. Nela, além das típicas lojas, também é possível ver muitas casas, igrejas, academias, funerários, buffets, escolas e até um grande motel – ou seria um motel grande?

Ao passar por ela, podemos certamente afirmar que estamos fazendo um verdadeiro tour por um bairro, percorrendo apenas uma avenida.

Sua configuração me lembra muito a ocupação desordenada do centro da cidade de Fortaleza. A disputa pelos espaços de mais visibilidade dita o processo de ocupação.

Seu acesso principal é pela avenida Osório de Paiva. O fluxo da Oscar Araripe é o de entrada para o bairro. Seu início conflui com o curso do Rio Maranguapinho, deste eu costumo apreciar o que um dia ele deve ter sido e representado para as famílias que habitavam suas redondezas.

Logo no início vemos casas que não seguem um padrão: são casas grandes, com mais de um andar e belas fachadas, e também casas bem pequenas e humildes.

À direita tem um restaurante de comida japonesa que costumávamos frequentar logo que inaugurou – confesso que depois perdi o interesse nele. Mais à frente um posto de gasolina, onde algumas vezes abastecemos e aproveitamos para matar o calor com um picolé.

O motivo principal das idas que fazemos até a Oscar Araripe é a concentração de depósitos de construção e a relação de fidelidade que estabelecemos com um depósito em específico, o depósito do Irmão Jerônimo. Muitas das idas e vindas se deram em busca de ferramentas, material elétrico, madeira, tintas… entre outros produtos para reforma e construção que lá podem ser adquiridos.

Andando um pouco mais, visualizamos algumas farmácias de bairro, loja de portas e janelas e padarias. Havia uma padaria em específico que eu adorava frequentar nos fins de tarde. Lá eu achava o pão de côco que mais me fazia recordar dos que comia quando criança. Infelizmente ela fechou. No seu lugar abriu uma academia de musculação e muay thai da qual não me beneficio.

Entrando à esquerda temos o acesso a um supermercado. Seguindo em frente encontramos mais depósitos de construção, uma loja de ferragens e uma escola infantil. Vemos à direita muitas lojas de roupas com chamativas frases como: “peças a partir de 10 reais”.

À direita chegamos no ponto mais polêmico da avenida, aquele a que recorremos quando temos fome e preguiça de cozinhar. É o paraíso dos carboidratos, se chama Puxadinho e vende um dos melhores hambúrgueres artesanais que já comi em Fortaleza.

Logo depois de nos rendermos ao pecado da gula, seguindo um pouco mais e entrando na rua Virgílio Nogueira, vamos em busca de açaí. O meu sem açúcar, claro! Na ilusão de remissão dos meus próprios exageros.

Atravessando a Virgílio Nogueira vemos uma loja de artesanato, uma loja de cosméticos, uma bomboniere, um petshop e até uma loja de cadeiras e mesas de madeira. Entrando à esquerda chegamos no ponto que eu mais aprecio no bairro em que morro, o Centro Cultural Bom Jardim – CCBJ. Lá fiz dois cursos de fotografia, assisti a peças de muita qualidade e colaborei com uma exposição do trabalho fotográfico de meninas que estavam se descobrindo no campo da fotografia.

Existe vida pela Oscar Araripe que fluí para além do fluxo dos carros, das mercadorias e das pessoas. É o fluxo de significados que nós atribuímos a nossas relações. Cada espaço frequentado deixa de ser apenas um ponto no mapa ou mesmo um inconveniente visual e se torna vivo por ter feito parte em algum momento da nossa breve existência.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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