Da reunião dos palavrões à prisão do Queiroz

O HUMANO É O ÚNICO ser na existência visível capaz não só de saber, mas também capaz de saber que sabe. A razão humana tem a capacidade de superar o contingente para estender-se ao infinito. Disso decorre seu interesse pela verdade. Quando descobre algo falso, rejeita-o. A capacidade de discernimento entre o verdadeiro e o falso, formando juízos sobre a realidade objetiva das coisas, posiciona-o em uma humanidade madura e responsável. Uma vez conhecida a verdade, seu sentido ético o orienta a aderir a esta, caso contrário, em não havendo esta adesão, a falsidade daninha ganha corpo e avança. Portanto, sabedor de sua adesão à falsidade, por meio do seu agir livre e consciente, o humano torna-se responsável pela construção de um mundo de insegurança, angústia, egoísmo, medo e violência, pela ausência da garantia, da certeza, da tranquilidade que as escolhas da verdade produzem. Pela busca da verdade profunda das coisas, o humano torna-se um ser sempre mais livre em sua humanidade.

 

Consequentemente, devido à condição humana desejar conhecer a verdade, isto implica o direito de ter acesso às fontes e às informações verdadeiras dos fatos. A omissão da verdade, por parte daqueles que têm a responsabilidade de comunicá-la, denota uma falta grave contra a dignidade humana e o direito de todos os humanos. Disso decorreu, por exemplo, a instituição, pelo governo Dilma Rousseff, da Comissão da Verdade sobre o tempo obscuro da ditadura militar brasileira, dos anos 1964-1985, para a nação brasileira ter acesso à verdade de fatos não devidamente esclarecidos, ocultados ou falsificados daquele período, por parte do Estado brasileiro, permitindo que, como nação, pudéssemos, pelo encontro com a verdade, superar os traumas daquele período autoritário e rumarmos de forma segura para a democracia e o Estado de Direito. Afinal, como acentua o filósofo francês Alain Badiou, (1937-hoje), qualquer verdade, por si mesma, mesmo parcial, se realmente é verdade, apresenta-se como universal. Aquilo que é verdadeiro deve ser verdadeiro sempre e para todos. Um exemplo concreto tem-se na elucidação do caso Carlos Alberto Brilhante Ustra, (1932-2015), o primeiro militar condenado pela prática de tortura durante a ditadura (1964-1985). Em maio de 2013 compareceu à sessão da Comissão da Verdade afirmou “que recebia ordens de seus superiores para fazer o que foi feito”. Mas não nominou quem eram esses superiores. Chegamos apenas a uma verdade parcial.

 

Recentemente tivemos acesso a um vídeo documentando uma reunião de Estado dos ministros do governo com o presidente Bolsonaro, realizada no dia 22 abril de 2020. (http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=443959&ori=1). Portanto, um ato republicano, tratando da coisa pública, que diz respeito a todos os cidadãos e cidadãs brasileiras. Por meio dessa comunicação pudemos aproximar-nos um pouco mais das verdades relativas à substância – e não a aparência – movente daquele grupo e daquelas pessoas. Pode-se identificar com precisão a abominação do ministro Paulo Guedes em relação à classe trabalhadora quando disse que “colocou a granada no bolso do inimigo” (servidores públicos); ou então, o cinismo do ministro Salles defendendo “passar a boiada” para o avanço da desregulamentação de normas de proteção ambiental em prol do agronegócio; como também de Weintraub, bastante afetado, sugerindo “a prisão dos vagabundos (ministros) do STF”; o perfil autoritário de Damares afirmando “que iria requerer a prisão de governadores”; por fim, o show de palavrões de Bolsonaro, muitíssimo preocupado com a segurança (física ou jurídica?) dos seus familiares e correligionários amigos.

 

Humanos por buscarem a verdade, também são seres de crença. Aqui reside uma capacidade radical humana: a de confiar em outras pessoas. Nesse relacionamento interpessoal e social busca-se encontrar a verdade do outro, de sua pessoa e de suas ideias, para com ele estabelecer um relacionamento verdadeiro. O vídeo do dia 22 de abril veio derrubar as imagens falsas construídas midiaticamente por aquelas autoridades. João Paulo II(1920-2005), em “Fides et Ratio”, afirma que uma pessoa de fé, mas com uma razão débil, sem uma capacidade de discernimento profundo, cai no grave perigo de reduzir a sua crença em superstição ou mito (= mentira). Não é à toa, portanto, que toda a campanha eleitoral de Bolsonaro foi baseada no mito, e não na verdade do que ele é.

 

Para corroborar esta breve análise, na “live” do dia 18 de junho de 2020, em sua página do Facebook, (https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/videos/263958998021686/), Bolsonaro inaugurou colocando o tema da prisão de Fabrício Queiroz, seu amigo de longas datas e assessor do seu filho Zero Um. Sabe-se do manual de jornalismo que os assuntos mais importantes devem ser tratados no inicio ou na conclusão de uma comunicação. Bolsonaro fez questão de defendê-lo de cara: “O Queiroz não estava foragido e nem havia mandado de prisão contra ele”. Prosseguindo, afirmou: “Foi feita uma prisão espetaculosa; parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da terra. Repito: não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele. Tranquilamente, se tivessem pedido a qualquer advogado o comparecimento dele, ele teria comparecido. E por que estava naquela região de São Paulo? Porque é perto do hospital do tratamento de câncer”. Demonstrou cabalmente estar bastante inteirado do dia a dia de Queiroz. Quem diria… Desde então, Bolsonaro evitou conversar com sua claque no cercadinho do Alvorada.

 

Por fim, diferentemente do que afirmou com veemência no dia 22 de abril em relação ao sistema particular de inteligência de que dispõe, na live Bolsonaro disse que “o sistema particular de inteligência são amigos que trocam informações com ele, nos mais variados assuntos”. Mas no dia 22 de abril afirmou: “O meu sistema particular de informações funciona. Enquanto os oficias, desinformam”.(A partir do minuto 08: https://videopublicado.s3-sa-east-1.amazonaws.com/Videos/0007.mp4).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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