Da Janela do Busão – Jessika Sampaio

– Ei, minha senhora, esse ônibus passa no IJF? (Gritou uma mulher que estava na calçada querendo entrar no 38 lotado às 18h30 da noite.)
– Passa não! É o Conjunto Ceará alguma coisa. O ônibus acelera e nem sei se ela escutou eu berrando pela janela.
A vontade é de comprar um bulinho, mas nessa hora não tem ninguém vendendo. Como pode, plena hora do rush na aldeota e não se vê um bulinho? Pelo menos estou sentada e na janela e pegava um ventinho. Dia de sorte, peguei a última cadeira do ônibus, ruim vai ser passar por esse povo todinho pra descer na Domingos Olímpio.
– Abre a porta, ô fi duma jumenta!
A delicadeza veio de um cara que tentou entrar no ônibus enquanto ele estava parado no sinal.
– Não pode, moço – Gritei de volta.
Pra quê? Só pra ser xingada até a terceira geração da minha família. Mas eu entendo, alguns dias são difíceis. Ouvi dizer que querem fechar a Praça Portugal com protesto pró-ditadura. Ah, saudade que sinto dos ‘emos’ que ficavam lá e soltavam uma rasga lata de vez em quando… Passando pela tal rotatória não vi nada. A janela era virada para a praia e me senti aliviada quando passei pela Desembargador Moreira e senti a brisa do mar.
Alguém de dentro viu, não se conteve e deu um grito “IIIIIEEIIIIII! Vão pra casa, seus cão!”. Acho que talvez tivesse meia dúzia de militares aposentados querendo o direito de poder serem ruins sem tanta “aporrinhação” dos Direitos Humanos. Mas alguns são mesmo assim.
Olhando o caminho percebo que hoje ‘tá ligeiro’! Já já chego na Dom Manuel e vai bater o aperreio de ter que passar por esse povo todinho. Tem problema não, vai dar certo. Por hora vou vendo aqui as propagandas nos Outdoors. Agora moro perto do centro da cidade, mas antes era mais para a periferia e sempre via a Fortalcity mudar pelas janelas do 38. Da Aldeota pra Parangaba há mais coisas do que sonha nossa vã filosofia, viu?!
Você consegue perceber a luz das ruas diminuindo, sente nos pés a buraqueira aumentando, consegue identificar as pichações e quem é o autor, as caras das pessoas nas calçadas vão mudando e até o ar do engarrafamento é diferente. Às vezes, andando de ônibus, me pergunto quantas cidades cabem em Fortaleza e quantas é possível ver só andando de ônibus. Eu sei que são muitas e sei que acontece pela desigualdade social. A bela rica e pobre Fortaleza.
Enfim, começo a ver as construções fofas e quase abandonadas da Dom Manuel. Quando eu avistar a esquina com a Duque de Caxias preciso começar a passar. Olho quase triste praquela janela tão ventilada e confortável, que me deixa sentir a cidade mesmo em um infernal ônibus lotado. Mas é isso, a vida precisa acontecer e está na hora de passar.
É tanto “Com licença. Desculpa. Com licença. Desculpa. O senhor desce na próxima é que eu preciso passar.”. Vejo em seus olhos a vontade de me mandar pra puta que pariu. E eu só tenho vontade de gritar “São do mêi, são do mêi, são do mêi”, mas está todo mundo cansado e estressado. Não vale não.
Pronto, fui parida. Toda vida que pego esse ônibus e desço me sinto renascida, parida, na verdade. Ele vai e tem um rapaz de fones de ouvido e cabeça baixa na mesma cadeira que eu tava. Homi, aproveite a vida que entre os desprivilegiados, você está com um baita privilégio, a janela na hora do rush.

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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