Da janela do busão – Heliana Querino

Companhia de si, no afã de todos os dias, em percurso de volta para casa, concedia-lhe o direito de entregar-se a imaginação. Qual o caminho conduziria suas escolhas e que ações dariam sentido a elas?

Tinha desprezo pela repetição e um ódio mortal pela execução de coisas que pareciam inúteis. Ganha, deseja, escolhe, compra, usa, joga fora.

Não, não jogue na rua, não jogue pela janela do busão.

Ao regressar, quando possível, descansava na lotação e reunia duas paixões: os devaneios e a leitura. Era essa a maneira de abstrair-se da realidade temporal e viver o sonho do amanhã.

Tentava linhas que parecessem fazer sentido, pouco previsíveis, de preferência. Nem se dava conta que era só o Messejana Centro/Expresso. E nem se dava conta quando outros passageiros olhavam estranho, pelas despercebidas risadas jogadas ao vento, sem que ninguém soubesse do que se tratava ou enxergasse ali um motivo para tal.

O que parecia absurdo para uns, aos seus libertadores pensamentos conduzia a um namoro com o equilíbrio insano. Mesmo assim, seus olhos registravam a instabilidade das esquinas e a fragilidade dos que se julgavam detentores de bons modos, mas jogavam pela janela, na BR 116, as garrafas pets, latas de Coca-cola, lixo, no viaduto, por todo o percurso, no caminho até o terminal.

A ida, de todos os dias, interessava muito. Mas a volta, essa sim, era o grande momento.
Acalmados pelo cansaço, eram presas susceptíveis de contemplação.

Havia quem demonstrasse ironicamente uma felicidade inexistente. Na tela do celular, nas fotos do Instagram, com selfies feitas na janela do busão. Ou ainda quem mirasse tão distante que sua íris até transmitia dó. Era, por vezes, uma tentativa falha na construção de mil interrogações – “onde será que seus pensamentos pousam agora”?

Não, não ousaria perguntar.

No dia seguinte começaria tudo de novo, como numa partida de xadrez, ao final, à repetição. Aprendeu alguma coisa? Aquietou alguma aflição? Sentimento visceral! É hora de pegar o busão. Corre, a cadeira da janela está vazia e é o lado da sombra. Aperta, espreme e consegue sentar. Ufa!! Que alívio! Tem ar condicionado, só falta funcionar sem pingar água em cima das coxas da moça.

Quando se dava conta dessa repetição, notava que ao invés de sonhar, estava a pensar. Então, rapidamente retornava ao mundo das fantasias.

Por que? Por que?

Porque pensar fazia doer, porém, conduzia ao estado consciente, e isso, doía ainda mais. Tanto lixo nas calçadas, do centro até a periferia, essa é uma elite educada?

Rendia-se, mais uma vez, aos sonhos. Esses, transformavam os seus dias, e os dias eram tão bons que pareciam curtos e a vida, infinitamente longa.

Sim, tomava consciência, mesmo através do sonho. Porque ao sonhar, pensava, e pensava uma nova coisa. Ganhava, portanto, a liberdade, tornando-se um Ser autônomo. A janela do busão tinha asas.

Provavelmente chegará à conclusão de que não é um figurino autômato, mas, um indivíduo capaz de pensar sobre seu ato de fazer, de produzir e, acredite, de repetir. Só não repita os gestos de jogar pela janela, o lixo.

Contemplativo, para hoje escolheu um novo cenário, não estava num ônibus abarrotado – nada disso – ali era o mar azul, um barquinho e um protagonista abraçando versos de Neruda e contando as vezes que aqui se REPETIU o verbo SONHAR.

E você aí, em qual “viagem” embarca de volta para casa namorando a janela do busão?

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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