Da goiabeira à popularidade: como entender Damares? – EMANUEL FREITAS

Era dezembro de 2018, poucos dias faltavam para a posse de Jair Bolsonaro quando este resolvera nomear a até então desconhecida Damares Alves, assessora do então senador Magno Malta, para o novo ministério, que aglutinaria a mulher, direitos humanos e a família. Confirmada a escolha, o país foi tomado por matérias informando uma visão sobrenatural que a futura ministra havia tido, ainda quando criança, de Jesus em cima de uma goiabeira. Memes aos montes foram produzidos e compartilhados.

Dias depois, Damares tomaria posse prometendo, como ministra “terrivelmente cristã”, inaugurar “uma nova era, onde menino veste azul e menina veste rosa!”. Mais memes!

Com o passar do ano, mais vídeos polêmicos com pregações da ministra, feitas antes de se tornar membro do Executivo, foram divulgados. Neles, acusação de hotéis onde praticavam bestialismo, holandeses que praticavam sexo oral em bebês, a feiúra das feministas, indicação de ser o momento de a igreja governar homossexualidade de Frozen e Bob Esponja e tantas outras que se seguiram pós-ocupação do cargo: meninas são abusadas por falta de calcinhas, a volta dos príncipes e princesas, homens abrirem porta de carro para mulheres e tantas outras declarações.

E, claro, o desmonte de toda uma rede de políticas públicas que, nos últimos anos, vinham combatendo preconceitos e fomentando ações de promoção da diversidade, sob todos os aspectos, no país, incluindo aí o desmonte da questão da anistia.

Pois bem, um ano depois, dezembro de 2019, decorrido um ano de muitas diatribes proferidas e de inumeráveis políticas desmontadas com a assinatura de Damares, o que temos?

Uma aprovação popular de 43% dos brasileiros, segundo pesquisa do DataFolha, ficando abaixo de Sergio Moro, e acima de Bolsonaro.

Quatro em cada dez brasileiros, segundo a pesquisa, aprovam-na. O que isso nos quer dizer?

Como entender esse fato?

Mulher que rejeita o feminismo, ministra que crê fazer parte de uma revolução liderada por seu chefe, evangélica que almeja ver sua igreja à frente da condução do país, mulher que ocupa o espaço público de modo submisso (vendo nisso uma glória) sente-se a “mulher mais empoderada do Brasil”.

Parte considerável daqueles que ainda não entenderam aonde chegamos desde a eleição de 2018 leram o fato como se devendo apenas ao fato das “tantas bobagens ditas por ela, que fizeram-na ‘conhecida’ em vez de ‘popular’”.

Pode ser. Mas também, como diz o ditado popular, “o buraco é mais embaixo”. E é aí que mora o (grande) perigo.

No topo da aprovação está Moro, o grande representante da extrema-direita brasileira. Ele simboliza a punição, a segurança punitivista, o excludente de ilicitude, a bala, a justiça justiceira, a caça à esquerda. Ideal de 53% dos entrevistados.

Depois do país assim “protegido”, que tal uma dose de azul e rosa, de comando da igreja, de fim das feministas, de princesas e príncipes, de ex-gays produzidos em massa?

É, não tenho respostas para essa aprovação. Mas o fato é que Damares, depois de ter dado um olé em Magno Malta, ficando ela no Planalto, parece ter driblado também a nós, intelectuais, e, ao que parece, caiu na graça popular.

Terrivelmente popular, diria ela. Vestindo rosa e, quem sabe, convertendo Frozen e Bob.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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