Da entrevista de Lula ao jornalista Roberto D’Ávila, por Alexandre Aragão de Albuquerque

No dia 18 passado tivemos a grata surpresa de assistirmos a uma entrevista do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, ao jornalista Roberto D´ávila, da Globo News. Num primeiro momento, poderia passar como mais uma entrevista de rotina pautada pelo programa daquele comunicador. Entretanto, pelas respostas apresentadas pelo entrevistado, podem-se perceber algumas pistas importantes.

Primeiramente, a mudança institucional ocorrida no Brasil desde 2003, destacada pelo presidente. Lula relembrou que até o seu primeiro mandato, o procurador-geral da República era escolhido entre “os amigos do rei”, como ocorria em governos passados, os quais se tornavam não mais do que meros “engavetadores-gerais” de processos denunciados de corrupção da classe política e de empresários que mantêm negócios com os governos. Com Lula, os procuradores-gerais foram indicados a partir da lista fornecida pela corporação do ministério público. Foi essa atitude política republicana, entre outras, por ele adotada que promoveu uma mudança substancial – segundo ele, irreversível – na instauração de amplas investigações e julgamentos dos crimes praticados pelos agentes públicos, “doa a quem doer”. Uma mudança institucional.

Além disso, em seus governos, procurou estabelecer ampla articulação com os agentes políticos e sociais deste país, com partidos políticos, com representantes de empresários, de trabalhadores e dos movimentos populares cujo objetivo foi o de promover uma nova concepção da cultura política na qual todos deveriam ser beneficiados com o crescimento produzido – daí o lema “Brasil, país de todos” – porém principalmente aqueles mais necessitados, por meio de políticas públicas de transferência de renda e aumento real do salário mínimo, tendo em vista o fortalecimento do mercado interno de consumo. Ao planificar ganhos reais para todos os setores, os governos Lula indicaram um novo rumo de desenvolvimento com distribuição de renda para o Brasil. Um ganho mínimo do qual os pobres não vão querer abrir mão.

Por último, ele ainda assinalou que apesar da dívida histórica que o país mantém no campo da educação, foi ele quem revogou a Lei que dispensava a responsabilidade do governo federal sobre as escolas técnicas, promovendo a maior ampliação dessa rede de ensino jamais vista na história desse país. Além de criar diversos campi universitários pelo Brasil afora. Como se não bastasse, foi ele o presidente da República que mais inaugurou plataformas da Petrobrás, estaleiros e navios, demonstrando com isso a sua enorme capacidade política, mesmo sem possuir um diploma formal universitário, diferentemente dos seus antecessores.

Nessa singular entrevista, Lula mostra mais uma vez que está pronto para retomar as rédeas da condução da política nacional, agora mais amadurecido e conhecedor das contradições e complexidades que envolvem governar um país de dimensões continentais e heterogeneidades territoriais e sociais. Por outro lado, evidencia-se a clara a preocupação da oposição e de setores conservadores da mídia nacional em querer destruir cotidianamente a história do presidente Lula e de seu partido pelo fato de não possuírem programas, discursos e candidatos capazes de unificar o país e vencer a Lula no próximo pleito presidencial.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .