A CURA PARA O BRASIL SEMPRE FOI O BRASILEIRO, por Danilo Ramalho

A campanha política majoritária de 2018 pode gerar inúmeras análises possíveis e pertinentes a quem conseguir manter a distância das paixões partidárias. Tal sacrifício só é possível para quem acredita que há verdades a serem buscadas – embora nem sempre doces! – e que elas podem ser alcançadas pelo exercício cansativo e muitas vezes longo do uso da razão.

O Brasil já provocou muita gente, começando pelos brasilianistas que, de fora, estudavam como certas peculiaridades sociais, políticas e econômicas aparentemente só aconteciam aqui. Agora, ao fim do que podemos chamar de uma época, o Brasil provoca mais uma vez, dando uma demonstração de que há muito o que ensinar ao mundo, mas principalmente a si.

A primeira e principal lição é contrariar especialistas que sempre, do academicismo ao achismo popular, acusaram o povo de ser incompetente ao escolher seus representantes. “O povo não sabe votar” sempre foi, talvez, a frase mais repetida ao terminar uma eleição. Em 2018 este mesmo povo mostra, em sua maioria, que sabe votar quando a ele é dado as mínimas condições para isso. Acessar dados sobre os postulantes ao cargo máximo da nação foram essas condições mínimas. A internet foi usada para isso em meio às campanhas mais violentas da história.

Sabemos, porém, que de nada servem os dados se, desta reação química, não surja a informação, junção coerente que caminha para uma outra transformação, desta vez final: o conhecimento. É diante desta trilha de reações que o povo, detentor de dados, transformados em informação e por sua vez em conhecimento, mostra que, de posse de condições mínimas, sabe sim escolher. E isso tudo diante de uma enorme fila de “apesar de”:

  1. Apesar de a imprensa descumprir seu papel de informar, ela mesma ajudando a deformar fatos e a jogar no ventilador manchetes, pautas, ideologias e interpretações intelectualmente desonestas de repórteres, editores e empresas jornalísticas militantes só para ver o que dava na cabeça do eleitor. E se deu mal, apenas colaborando para aprofundar ainda mais o buraco em que se meteu desde o advento da web. Apostou na velha desinformação do eleitor. E perdeu.

  2. Apesar de estarem completamente aparelhadas, as instituições públicas, com destaque para universidades e o judiciário supremo da nação, não conseguiram impor seus prestígios como fontes tradicionais do saber e da isenção, simplesmente porque ao longo dos anos demonstraram exatamente o oposto daquilo que se conhece por saber e isenção. Apostaram na crença do eleitor ignorante e, portanto, subserviente. E perderam.

  3. Apesar de termos na internet ainda uma “terra sem lei”, portanto propícia aos desmanados das fake news, pouco ou nenhuma delas colou ao ponto de embotar a decisão soberana de cada brasileiro ao escolher em quem devia votar para presidente, sem falar nas escolhas para os governos dos estados e para o congresso e assembleias, diante da eleição dos novatos e da cassação dos velhos sobrenomes da política tradicional carcomida por escândalos, processos e Lava Jato.

  4. Apesar de elas – sim, de novo! – as fake news, terem sido muito mais fontes de chorosas reclamações da mídia, do STF, TSE e defesas do WhatsApp, não conseguiram ser eficazes armas de influência para mudança de voto e de demonização de candidaturas. Por tão esdrúxulas e por agredirem tanto a inteligência do eleitor, se tornaram apenas isso: lágrimas de derrotados. As mentiras criadas a cada dia e noticiadas aos quatro ventos foram usadas apostando-se na pretensa fragilidade de discernimento do eleitor. Quem assim fez, perdeu. E perdeu feio.

  5. E finalmente, apesar de todos os pontos elencados anteriormente, tendo seus atores e instituições se movimentarem juntos, como um rolo compressor aparelhado, antidemocrático e violento o eleitor brasileiro, não importando sua região de moradia, soube dizer “não” ao jeito de conduzir a política da última década e meia com suas pseudoproteções sociais, suas construções de vitimizações das minorias, sua economia estatizante e inchada, portanto pesada, num mercado altamente veloz; sua ideologia de desconstrução de valores éticos e morais, sua perpetuação da miséria pela renovação do assistencialismo rebatizado sob títulos aparentemente nobres e a arrogância dos que, embora condenados e presos, nunca sinalizaram para baterem no peito por um mea culpa, minha máxima culpa. Ainda a de se falar da posição daqueles que deviam pensar a verdade: os intelectuais em todas as nuances, dos acadêmicos aos jornalistas, dos professores aos artistas, embriagados todos pelo empreguismo e soterrados por camadas e mais camadas de anos de frouxidão e comodismo racionais diante de um Brasil que sangrava, mas que ensinavam e cantavam o contrário, com foco tão somente no consumo e no hedonismo de seus iaguais.

Graças, tão somente, à própria maturidade, o eleitor brasileiro pode ainda se refugiar nos poucos bastiões de um jornalismo fiel a sua missão de informar – sites e canais do YouTube, portanto todos da internet, terra das fake news, olha só! – e ter a coragem de virar mais uma página de sua história.

Não pôde contar com a maioria da impressa, do judiciário, dos partidos políticos, dos intelectuais e da Igreja, porquê todos, em maior ou menor grau, aparelhados e militantes. O povo, ao final, só pode contar com ele mesmo. Nesta aposta, se saiu o único vencedor.

Danilo Ramalho

Danilo Ramalho

Jornalista, Consultor e Professor na Academia da Palavra

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