Crueldade no Espírito Santo

SADISMO É UM TRANSTORNO psíquico-emocional que acomete indivíduos levando-os a desenvolver sentimento de prazer e gozo com o sofrimento alheio. Sentem verdadeiro sabor quando percebem alguém sofrendo, mesmo se ele não seja o causador. O importante é a sua satisfação vigorosa com a dor alheia. Entre outras características essas personalidades defendem a tortura; homenageiam torturadores como seus ídolos; propagam a solução armada para conflitos comuns entre humanos; incentivam relações hierárquicas, autoritárias, racistas, misóginas; não admitem o contraditório; facilmente irritam-se com opiniões contrárias às suas; incentivam constantemente a violência e a tensão social. Na política, mentalidades sádicas perpetraram estragos genocidas, tal como Hitler o fez com o nazismo alemão nos anos 1930-1945. Diante dessa crueldade não se pode vacilar nem compactuar; é preciso combatê-la ferrenhamente sempre que aparecer com roupagens e máscaras novas – como ocorre no Brasil, desde 2019, com o bolsofascismo – para extirpá-la do poder e mantê-la sob total controle social. Édipo Rei (427 a.C.), na tragédia grega escrita por Sófocles, expressa categoricamente que “impôs o silêncio à terrível Esfinge, não porque o céu lhe deu a solução, mas por meio de sua razão e de sua ação”.

As primeiras linhas do livro Mein Kampf (Minha Luta) escrito por Adolf Hitler durante o tempo em que estava na prisão de Landsberg, na Baviera, após o fracasso de uma tentativa de golpe de estado em Munique, em 1923, assinalam a busca de divinização de si mesmo. Ele se autodefine como um “homem escolhido pelo Céu para proclamar a vontade do Criador”. Ao entrar para a política, Hitler expõe uma linha de pensamento fundada na convicção de que o triunfo no campo político só pertence a quem é brutal e intolerante: “a massa humana é semelhante a uma mulher que se submete ao homem forte, inflexível, fanático, que causa medo e aterroriza”.

Entre os pontos programáticos por ele definidos está a reforma profunda de todo o sistema educacional, com a ideia do Estado inculcada na base escolar, buscando desenvolver corpos perfeitamente sadios e formando o caráter sólido em todos os estudantes, pois o Reich precisa de militares combatentes e não de intelectuais. A Ideia Mãe, núcleo central do idealismo nazista a ser implantado na cabeça dos jovens, é a da Raça: “é preciso que nenhum rapaz ou nenhuma moça deixe a escola sem ter chegado ao perfeito conhecimento do que é a pureza do sangue. A própria alma da Raça deverá palpitar em cada alma individual”. Para Hitler, “a mestiçagem é um pecado supremo contra a vontade do Criador, a perda da pureza do sangue destrói para sempre a felicidade interior, rebaixando o homem para sempre. Desse ponto de vista, as Igrejas cristãs ofenderam gravemente a obra do Criador, tolerando matrimônios mistos, lepra moral e física. O dever fundamental das Igrejas cristãs é o de velar pela salvação do homem ariano”. Uma das ferramentas para se atingir esse objetivo é a Propaganda. Ela deve fustigar a alma da multidão, alavancando o fanatismo, visando a desenvolver uma violência histérica, dirigindo-se não tanto ao cérebro, mas aos sentimentos da massa humana.

O ideário nazista continua internacionalmente vivo, percorrendo as contas privadas digitais e as plataformas midiáticas em todo o planeta, despertando nos corações e mentes dos indivíduos e grupos, por meio de uma propaganda intensa, o fanatismo em torno da truculência. No Brasil, a representação política de tal ideologia encontra-se nas lideranças civis, militares e religiosas vinculadas ao bolsofascismo brasileiro, alimentadoras do seu gado eleitor e militante.

O mais recente episódio de assassinato, praticado por um desses adeptos, com 16 anos de idade, ocorreu no último dia 25, instigado pela ideologia violenta bolsofascista, encapuzou-se com uma vestimenta portando uma suástica nazista, invadiu uma escola estadual no Espírito Santo, portanto duas pistolas do seu pai, uma de .40 e outra de .38, para disparar, covardemente, à queima roupa, contra professores e alunos. Ao todo, duas professoras e uma estudante (Selena) de 12 anos de idade foram mortas; treze pessoas foram baleadas e duas crianças estão em estado gravíssimo desde então. O pai de Selena chegou à escola momentos depois do ataque, tentou socorrer a filha, mas ela não resistiu. A mãe da garota, aos prantos, em total desolação, disse que perdeu a filha para o ódio impregnado na sociedade brasileira nos últimos anos. Poucos dias antes de ser assassinada, Selena havia recebido um certificado de reconhecimento pelo excelente desempenho escolar.

O jogador Richarlison, destaque da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, foi ao twitter lamentar a tragédia nas escolas do Espírito Santo: “Minha solidariedade e tristeza pelo que aconteceu no meu estado, na cidade de Aracruz. Professoras e uma criança assassinada. Coisa impossível de acreditar que ainda aconteça”.

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, também pelo twitter manifestou sua solidariedade para as vítimas e familiares: “Com tristeza soube do ataque às escolas de Aracruz, Espírito Santo. Minha solidariedade aos familiares das vítimas desta tragédia absurda. E meu apoio ao governador Casa Grande na apuração do caso e amparo para as comunidades das duas escolas atingidas”.

Até o momento, 27, em que escrevemos este artigo, não há registros de nota de solidariedade de Bolsonaro às vítimas de mais esta criminosa crueldade perpetrada por um bolsonarista.

O filósofo espanhol Miguel de Unamo cauciona em sua pujante filosofia uma sentença que diz muito em relação à violência desenvolvida nos últimos quatro nos quais o bolsofascismo está no poder. Sustenta Unamuno:

                            “Pouco ou nada se pode esperar de um governante que, nenhuma vez, mesmo que de modo obscuro, haja  se preocupado com o princípio primeiro e o fim último das coisas, sobretudo dos homens, de seu primeiro por que e de seu último para quê. Tal suprema preocupação não pode ser puramente racional, tem de ser afetiva. Não basta pensar, é preciso sentir nosso destino humano. Aquele que, pretendendo dirigir seus semelhantes, diz e proclama não se preocupar com a vida deles e com o seu destino, não os merece dirigir. Pois uma pessoa pode até ter talento, mas ser um estúpido do sentimento e um imbecil moral. A maior santidade de um templo onde os humanos se reúnem é ser o lugar em que se vai chorar em comum. Não basta curar a peste, é preciso saber chorá-la!”.

Será que ele, que nunca chorou a morte de 700 mil brasileiros e brasileiras vitimadas pela Covid-19, irá se importar pelas vítimas de mais este cruel assassinato cometido por um bolsofascista? Improvável, muito improvável.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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1 comentário

  1. José Maria Ferreira da Silva

    Infelizmente dessa BESTA e seu SÉQUITO de mal feitores nada podemos esperar de bom, sensato e humanitário. Ainda bem que em breve eles deixaram o poder central em nosso país, espero que seja para sempre. Que nunca mais nosso povo se deixe enganar por ideias tão monstruosas.

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