Crise de Representação III: O Estado Laico e o ateísmo

Um aluno de Ciências Sociais comentou que Marx era ateu. Embora Marx não escrevesse sobre religião, mas de economia e política, o que significa “Marx ser ateu” ou não? Um bom debate para se entender a geopolítica do século XX. A base ideológica da época era a economia, entre capitalismo e comunismo, mas que já utilizava a religião para reforçar o clima de ódio inerente, isto é, o conflito cultural já era também realidade, embora ainda residual.

Karl Marx viveu a realidade do século XIX e teve o privilégio de poder discutir suas idéias com os intelectuais da época. O industrial Friedrich Engels, admirador de suas ideias, lhe dava condições para essa tarefa. Assim, ele discutiu com todos os seus contemporâneos sobre o desafio civilizatório da época, defendendo sua posição sobre inclusão social a partir dda estruturação do capitalismo em processo acelerado: tinham acontecido duas revoluções burguesas, a inglesa e a francesa, e estava numa revolução industrial que potencializou a luta de classe de forma inédita na história. Não havia até então experiência histórica de enfrentamento dessa realidade.

Com o liberal Adam Smith, que defendia a capacidade do mercado de se auto-regular e como a livre concorrência teria uma mão invisível que faria a inclusão social, Marx, concordando com a lógica do mercado na estruturação da sociedade e da política, apresentada na obra de Smith: “História da Riqueza das Nações”, mas discordava dessa mão invisível, a saída liberal para a inclusão social. Aceitava, assim, a lógica da dialética preconizada por dois intelectuais alemães, seus precursores, Kant e Hegel. Como não houve revolução burguesa na Alemanha, o capitalismo se desenvolveu por força cultural, a partir do Estado e, segundo Max Weber, na segunda metade do século XIX, pela força também do cristianismo.

Como participante da primeira turma de Ciências Sociais, no Ceará, um evento marcou minha compreensão sobre o papel de Karl Marx, tanto no século XIX, quando viveu, quanto no contexto da Guerra Fria, no século XX. Compreendi por que todas correntes políticas que tratam da inclusão social queriam ter Marx como seu marco fundador.

O aludido evento estava ligado à fundação do PT como um Partido Político da fase da Redemocratização. Presente um deputado do Partido Social Democrata Alemão, que veio de São Paulo para um diálogo sobre o Brasil e a fundação do PT; estava também um representante do PT paulista, e um deputado do Partido Comunista Alemão, professor Dieter, visitante do Mestrado de Sociologia da Universidade Federal do Ceará.

O deputado Alemão afirmou que se Marx vivo fosse, ele seria um Social Democrata e teria participado da Segunda Internacional, no final do século XIX, que deu início ao Movimento Social Democrata.

Foi contestado pelo Prof. Dieter: defendendo que ele seria do Partido Comunista e teria participado da Terceira Internacional, da Fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e do Partido Comunista.

Nesse evento, portanto, estava em debate a essência ideológica da guerra fria. Fácil de entender. Marx escreveu em 1847 o livro “Miséria da Filosofia” criticando Proudhon, o líder anarquista, que tinha escrito suas idéias no livro “Filosofia da Miséria”. Proudhon defendia quebrar as máquinas, que estavam ocupando as vagas de trabalho dos operários de Fábrica, e também defendeu acabar com governos para recuperar a vida comunitária perdida com o capitalismo.

Marx mostra a falácia dessas motivações, pois o capitalismo é uma questão estrutural. E aqui está a essência do Materialismo Histórico. Não é ateísmo histórico, mas a percepção de que o mercado é estruturante da sociedade e da política moderna. Eliminando máquinas e a política, elas se reestruturam até com mais força contra a inclusão social. A luta de classe deveria ser resolvida na política, ocupando os espaços onde os trabalhadores poderiam participar e, ao chegar no poder, poderiam realizar a inclusão pelas políticas públicas. E essa era a tese da Social Democracia, segundo o Deputado.

Aqui entra a obra panfletária de Marx: Manifesto Comunista. Lenine fez dela a orientação da Terceira Internacional, pela defesa da Revolução. No “Manifesto Comunista” Marx busca unir as diversas correntes do movimento operário da época: os Sociais Democratas, com a defesa da primeira fase, o Socialismo; e os Anarquistas, com a defesa de uma fase seguinte: a Ditadura do Proletariado. Não é um texto de ciência, como a Obra de maturidade de Marx chamado “O Capital”, mas tornou-se profético para a militância. E isso é que é importante em política.

Com a limitação do espaço, espero ter apresentado a essência ideológica da guerra fria, que tinha por base a economia e que buscava criar uma hegemonia global do mercado. Marx não escreveu sobre Religião.Na sua biografia diz que era judeu e que se converteu ao cristianismo. Seu estereótipo religioso é orgânico na guerra fria e no contexto geopolítico ao acompanhar a orientação do Estado Russo que se declara ateu.

Vamos em frente! A próxima reflexão é sobre o papel de Max Weber e da Alemanha.

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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