CRIATIVIDADE ILIMITADA: TUDO PARECE POSSÍVEL

Sempre que se celebra o dia de Tiradentes, o que ocorreu na última quarta-feira, recordo-me de polêmica levantada por Millôr Fernandes, em texto publicado em revista de circulação nacional, de forte teor crítico quanto à perfeita tradução do dístico “Liberta quae sera tamen”, um dos mais respeitáveis símbolos da Inconfidência Mineira e lema inscrito na bandeira de Minas Gerais. Segundo Millôr, para bem traduzir o sentido então proposto pelos inconfidentes, o certo seria dizer-se apenas “Liberta quae sera”, em face de razões então por ele esposadas. Ante o posicionamento de ilustres latinistas – uns a favor de Millôr e outros contra –, restou o entendimento de que a intervenção (ou mutilação) de Alvarenga Peixoto num dos versos das Bucólicas do poeta latino Virgílio [no original “Libertas quae sera tamen respexit inertem”, com uma das muitas traduções indicando equivaler, em português, a “Liberdade, a qual, embora tarde, (me) viu inerte”] só poderia refletir o que realmente movia os seguidores de Tiradentes na luta contra o poder à época constituído, cruel e insaciável como sempre, se mantido o “corte” como promovido, ou seja, “Liberta quae sera tamen” equivalendo a “Liberdade ainda que tardia”. No caso, como se vê, ficou o dito por não dito.

Deixando de lado essa discussão – que ora entra no meu texto como Pilatos entrou no Credo, ou seja, sem uma razão fundamental que lhe garantisse tamanha importância –, o certo é que, na tarde do feriado, cumpri o que houvera prometido aos meus netos, há quase quatro meses enclausurados, vivendo à base do amor que dedicam aos seus celulares, com acesso garantido ao que lhes oferecem as redes sociais, tudo isso valendo como válvula de escape a energias reprimidas, com sérios riscos de perda de mobilidade, no mínimo. E isso na adolescência, convenhamos, adquire um nível de gravidade que a nós, os responsáveis por suas saudáveis formações humanas, nos causa uma boa preocupação.

Pois bem. Fomos ao Cantinho Maluju, para um contato com a Natureza e com os espaços que a casa e o apartamento não têm como oferecer. Lá eles dispunham de mais de meio hectare de área livre para extravasamentos, sob a sombra amiga de velhas e frondosas árvores. E eu lhes dei a liberdade de agir. E eles agiram e interagiram – em resumo: fotos, bola, banhos – até serem abatidos pelo cansaço. À boquinha da noite, retornamos. Antes, enquanto arrumava os apetrechos no carro, levantei a vista para o céu e contemplei a singeleza d’As três Marias, uma curta fileira de três frágeis estrelas que, não raras vezes, faz-me recordar a minha infância, na minha terra natal, mais precisamente lá no Posto Agropecuário de Baturité, no bairro Coió, e relembrar as quase sempre fantasiosas histórias contadas pelo meu pai, violeiro, versejador, repentista de raiz que, em pleno processo de maturidade, se viu obrigado a desviar o rumo que dava à vida, em face de uma violência que já na sua juventude, vez por outra, se manifestava perigosa nas brenhas do sertão.

Ele dizia, então, que aquelas estrelinhas – sem permitir que apontássemos para elas, senão verrugas enfeariam os nossos inocentes dedos –, donas de um intenso brilho azul, eram bem maiores que o Sol, de quinta grandeza, e ficavam tão distantes de nós que aos nossos olhos pareciam pequeninas e anêmicas; e acrescentava afirmando que compunham o cinturão de Órion, um caçador morto, acidentalmente e por engano, pela sua amada que, para não ser esquecido, colocou-o numa constelação. Ele, o meu pai, que sempre se dispunha a estar bem preparado para um bom desempenho nas refregas das cantorias, sabia até o nome delas, em árabe, e seus respectivos significados: uma delas era a Minstaka ou o cinto; a outra, a Alnilam ou a pérola; e a terceira, a Alnitak ou a corda; juntas formavam o cinturão.

E, por falar em três, o mestre Expedito costumava ressaltar o significado desse número que, na sua opinião, tinha muito a ver com ele, porquanto, se na espiritualidade significa o poder da unidade entre mente, corpo e espírito, na numerologia indica criatividade, expressividade e inteligência, elementos que, modéstia às favas, em grande medida integravam o seu perfil. E assim justificava o que o movia a isso ser tão crédulo:

– Nasci no dia três – dava ao número o relevo da ênfase – de junho, mês seis, ou seja, duas vezes três, do ano de mil, novecentos e vinte e três, numeral cujos algarismos, fora o nove, que equivale a três vezes três, somados resultam seis ou, mais uma vez, duas vezes três. E mais ainda: sou o terceiro filho homem de dona Chiquinha [a minha vó Mãezinha], a terceira esposa do meu pai José [o meu vô Dindim].  Entenderam?! – Aí fazia as recorrentes citações, de forma bem prazenteira. – Três são as deidades da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Três são as pessoas da Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Três, os Reis Magos: Baltazar, Gaspar e Melchior. Três eram as “mulheres de Galileia” que primeiramente viram vazio o túmulo de Jesus: Maria de Cleofas, Maria Madalena e Maria Salomé, a mãe de Tiago. Por três vezes Pedro negou a Jesus antes de o galo cantar e, apesar disso, sobre essa “pedra” Deus ergueu a sua Igreja. Três foram os crucificados no Gólgota: Jesus, o filho do Homem, na cruz do centro, e, nas dos lados, Dimas, o bom ladrão, por Ele ali perdoado; e Gestas, o mau ladrão, que desafiou Cristo a salvar-se a si próprio. – E, após um olhar de reverência à mulher, católica fervorosa, filha de Maria, arrematava. – São três Ave-Marias que introduzem o terço – a terça parte do rosário – talvez para, isso nunca ninguém me ensinou, apenas por refletir é que penso, lembrar ao contrito rezador ser o rosário bem mais extenso. – Finalizava sempre poetizando, ao seu peculiar modo.

Eu adorava ouvi-lo cantar – e isso ele fazia com tanto encantamento que a gente parecia ouvir os maviosos acordes da viola – a História do pavão misterioso, épico da literatura de cordel, de autoria do cantador e poeta paraibano João Melquíades Ferreira da Silva, também conhecido como o Cantor da Borborema, cuja estrofe inaugural ainda resgato da memória desgastada pelo uso: Eu vou contar uma história / de um Pavão Misterioso / que levantou voo na Grécia / com um rapaz corajoso / raptando uma condessa / filha dum conde orgulhoso. Segue, então, mais de uma centena de estrofes de idêntico padrão. O destino do pavão era a Turquia; o rapaz corajoso chamava-se João Batista, irmão de Evangelista; e o nome da condessa era Creusa. Quase sempre dormíamos antes mesmo do fim da apresentação.

Quando ele, deitado na rede de varandas ou acomodado na aconchegante espreguiçadeira, nos encantava ao recitar o poema As Flô de Puxinanã (1), de Zé da Luz, paraibano nascido Severino de Andrade Silva, isso fazia, sob o olhar de reprimenda da nossa zelosa mãe, para realçar a sua forte relação com o número três, porquanto tais “flores” eram exatamente três: a Ogusta (“a mais feia e mais ribusta”), a Guléimina (“tinha uns ói qui ô! mardição / paricia duas istrela tremendo”) e a Maroca (“tinha nos peito dois cuscús de mandioca”), por quem o narrador, que “brechava” (2) essas irmãs tomando banho de cacimba, decidiu apaixonar-se.

Seguindo nesta aprazível viagem de retorno ao passado, caminhando por uma via de três margens, numa improvável fusão do rio roseano (3), em cujo leito, a margem profunda, as águas decantam o que se lhe é mais pesado (uma bela metáfora da consciência humana), com a estrada cabralina (4), em cujo leito, a margem mais pisada e pisoteada, a pedra libera o pó do que nela se entranhou no curso do tempo, no aguardo de que o recolham, permito-me fazer três estratégicas paradas.

A primeira. Revisito – em livreto de capa dura do Círculo do Livro – Anton Tchekhov, o escritor russo que, no limiar do século XVIII, escreveu a novela As três irmãs, peça teatral em quatro atos, cujas personagens centrais, filhas de militar de carreira, revelavam personalidades fortes e distintas e se chamavam Olga, Maria e Irina. Por força dos ofícios paternos, deixaram Moscou, acompanhadas do irmão Andrei, e se confinaram em cidade provinciana, onde sofreram o esvair-se de todos os seus sonhos. Para a crítica, Tchekhov revela, na obra, “questionamentos profundos sobre a vida, os desejos e as frustrações iminentes de uma classe social desiludida”. Se, para Fernando Pessoa, “o homem é do tamanho do seu sonho”, arrisco dizer que de nada valerá esse sonho se o homem não se dispuser a agir no sentido de concretizá-lo. Se não acordar para a realidade, a frustração certamente o reduzirá a nada. E o sonho pode até transmutar-se em pesadelo.

A segunda. Reencontro-me – em brochura que o pintor de paredes Daniel (hoje professor com pós-graduação), parceiro no curso de Letras da UFC, cedeu-me por doação nos estertores do século passado – com Rachel de Queiroz e o seu As três Marias, romance centrado em conflitos subjetivos, familiares. Há quem afirme tratar-se de obra autobiográfica, arrimado em declaração da autora, segundo a qual ela teria sido a personagem principal da narrativa. A Guta sou eu, teria dito Rachel. Na verdade, Maria Augusta, ou Guta, protagonista e narradora, além de adotar comportamentos que se aproximam do perfil da autora, incluindo o de leitora por excelência, perfaz uma trajetória similar à vivenciada por Rachel. Após residir alternadamente no sertão e na capital e tentar fixar-se no Rio e em Belém, a família volta para Quixadá e, “em 1921, R. de Q. é mandada para a capital como estudante interna do Colégio Imaculada Conceição” (5). Ao chegar no internato, já com 27 anos – mulher madura, pois –, conhece Maria da Glória (órfã de história singular, que perde a mãe ao lhe dar à luz, recebe do pai a zelosa criação de pai-mãe, mas o perde na mocidade, e isso a leva, órfã, pálida e magrinha, para o mesmo internato) e Maria José. As três vivem, então, uma amizade profunda; no dizer de alguns analistas da obra, formaram uma “gangue”, num tempo em que o termo não havia sido ainda adotado pelo famigerado universo do crime. “Termina o curso de normalista em 1925 e volta para a fazenda (…) em Quixadá. […] Interrompeu sua obra romanesca em 1939” (5), exatamente no ano em que trouxe a lume o As três Marias.

A terceira. Regresso, nas asas do pensamento que, às vezes, me transportam para além da imaginação, pelas sendas dos sonhos, e me aproximam do que no passado se fez real, e sob a regência dos sentimentos mais puros que no íntimo se arraigaram com a proteção do que rotulo de “para todo o sempre!”, retorno ao cocuruto do Alto da Capela, no aldeamento formado no entorno da capelinha de Cristo Redentor (6) – hoje paróquia –, onde, nos idos de 1960 em diante, cresci, adolesci e virei gente, um tempo de que posso vangloriar-me: eu tenho história pra contar! (Porque fiz por onde…) E, prescientes leitoras e leitores, se ora me proponho a isso fazer, num sobrevoo sobre marcantes vivências, argamassa da minha cotidiana construção como indivíduo, como ser humano único (no sentido de diferente, distinto, peculiar – a bem dizer, o que todos nós somos) e como cidadão, move-me a inafastável vontade de aqui lhes apresentar As três meninas-moças que, sob esse título compuseram o romance que jamais escrevi, embora se tenha desenvolvido em tempo e espaço específicos.

E as protagonistas, entidades do mundo real, se chamavam (em ordem alfabética): Dolores, a filha de dona Fransquinha, irmã de Marcos Alverne, Sérgio, Arquimedes e mais uns três ou quatro pequerruchos, graciosa e carismática caboclinha de pele abronzeada, amorenada, de cabelos negros e lisos que escorriam até os ombros, rosto discretamente ovalado, sorriso comedido, olhar impositivo sem ser dominador, noção de comando, embora jovem ainda em fase inaugural de desabrochamento, morava em casa com frente para o paredão dos fundos da igreja; Eliane, a filha de dona Enedina, tendo dona Núbia – a madrasta que respeitosamente chamávamos de “madrinha” e tínhamos como a segunda mãe – como copartícipe na formação cristã e cidadã, e minha irmã e de mais uma dezena de saudáveis criaturas, outra bela e modestamente fascinante caboclinha de cútis atrigueirada, cabelos negros, abundantes e ondulados a emoldurar um rosto suavemente arredondado, olhos castanhos de brilho encaramelado, doce, afável, olhar perscrutante sem ser invasivo, agressivo, hostil, amável no exercício da autoridade inata, coração enorme e de pleno acolhimento, prazer em servir ao outro, disponibilidade para desatar nós, habitava em casa à esquerda da igreja, bem no limite da ladeira de acesso à via central do velho Putiú; e Janete, filha de dona Cosminha, irmã de Delano, Sueli, Adautinho e de mais uns três pirralhos, prima de minha eterna parceira, bela e cativante morena de cabelos lisos, compridos, de intenso negror, voz quase gutural, personalidade forte, bem mais reservada que as caboclinhas acima descritas, responsável ao extremo, exemplo de mulher, embora ainda menina-moça em flor, residia em casa à direita da igreja.

Elas, as três, podiam até ser Marias; uma delas, posso assegurar que era. Se estrelas fossem, formariam uma triangular constelação de intenso brilho e incomparável beleza. Havia entre elas, além do comum tempo de existência terreal, algo que lhes dava similares identidades – o atributo da fêmea que nasce com a predisposição para prendas do lar, para dona de casa, para dedicar-se à família; e as três, apesar de muito novas, assumiram e desempenharam funções de grande responsabilidade – como a da criação dos irmãos mais novos – no  apoio às suas respectivas progenitoras, no enfrentamento do cotidiano de um lar. Eliane, com apenas nove anos, e Janete, talvez com um pouco mais de vivências, ainda sofreram as dores e os efeitos da orfandade precoce; mas demonstraram resiliência, força e coragem para superar o trauma.

Confesso, por fim, que, em relação às três meninas-moças, ainda dedico o respeito, a consideração e a reverência de sempre. Até porque elas fizeram por merecer.

E, assim, concluo essa jornada através da simbologia do número três que, conforme a numerologia, confere às pessoas que com ela guardam identificação criatividade ilimitada, para quem tudo se torna possível.

 

NOTAS DO AUTOR:          

(1) Puxinanã, também conhecido como “Cidade dos lajedos”, é município paraibano, integrante da Região Metropolitana de Campina Grande.

(2) Brechar: regionalismo nordestino, significa espionar, espreitar, observar às escondidas; em outros termos, ver entre brechas (de portas, de cercas, entre arbustos) o que não é permitido às claras. – Sem-vergonhice!

(3) Roseano: de João Guimarães Rosa, o celebrado escritor mineiro, o inventor de línguas, autor de Grande sertão: veredas e Sagarana.

(4) Cabralino: de João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, arquiteto da Poesia, à qual se impôs pelo método, pela disciplina e pela proposta; autor de A educação pela pedra e outros poemas, em que revela rigor estético, construção complexa e vigor da linguagem.          

(5) Massaud Moisés, em Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira (Cultrix).

(6) Deve causar estranheza o fato de, ao me referir à capela, à igrejinha – hoje igreja, já que ganhou status de paróquia –, não usar o termo oficial “de Cristo Rei”, certamente ainda mantido nos anais religiosos da minha terra e, obviamente, no cotidiano do povo, algo que tem lastro na cultura popular oral, também. Assim ajo – e sempre agi – por ter sido alertado, não me recordo bem por quem, arrisco dizer que pelo padre Antônio da Silveira Paixão, então oficiante regular da igrejinha e meu professor de Português e Francês no Domingos Sávio, quanto à natureza expressiva da imagem àquela época venerada no altar central do santuário, no altar-mor. Com efeito, tinha-se um Jesus Cristo, em tamanho natural, vestido em túnica branca (pureza) sobre a qual enlaçava-o o manto vermelho (martírio), sobre a cabeça o halo, a auréola, a luz espiritual, a insígnia da divindade e do sagrado, no rosto a expressão da vitória e à mão direita, como se nela apoiasse, uma cruz de madeira, de cor negra e de igual tamanho, em cujos braços, inscrita em latim, por tradução do original em grego, lia-se a frase lapidar: In hoc signo vinces (Com este sinal, vencerás!), usada por alguns reis, notadamente em situação bélica, entre eles o romano Constantino e o lusitano Afonso I. Conclusão: aquela imagem simbolizava o regozijo da vitória da vida sobre a morte e, por extensão, da salvação da humanidade, da redenção; e ali estava Ele, descalço, sem trono, sem cetro, sem coroa; simplesmente por ser “Aquele que libertou [redimiu] e salvou a humanidade da condenação ao inferno”, ou seja, o Cristo Redentor, que salva, liberta, redime. (Sob censura).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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