CRIADOR DE PALAVRAS POSTAS A ENGORDAR •••

Arrastei do fundo das minhas lembranças de leituras caídas em domínio público e pus-me a ler um conto de Monteiro Lobato, escondido em “Urupês”.

O dono de uma fazenda em processo de desmanche; o dono decide-se por vendê-la a qualquer preço. Reúne os credores que eram muitos, embora pequeno o valor dos créditos a reclamar.

Montaram uma armação para tolos e puseram-se a trabalhar como se a fazenda ainda produzisse alguma cousa de valia. Pretendiam arrancar de um eventual comprador o que pudessem do seu descuido e resignada ingenuidade. O resto não conto, já é proibido oficialmente dar “spoiler” no Brasil. A não ser como “fake news” registrada na Comissão da Verdade, com registro de fabricação.

Pois bem, com Thiago, meu neto, beirando os 5 anos de idade, perguntei-lhe se queria ser dono de “palavras” e de inventá-las.

Expliquei-lhe que as palavras que inventássemos passariam a nos pertencer. Acordo a merecer respeito. Percebi, de logo, o seu interesse em ver crescer o seu rebanho de leite e de carne. Quem não gosta de ser proprietário de bens tangíveis?

Fechamos o acordo na hora. As palavras que ele criasse lhe pertenceriam. As minhas, as enfiaria na minha fazenda léxica:

“E tem fazenda, vô?”

Claro que tem, expliquei-lhe: você terá o seu cercado para nele enfiar as suas palavras, verbos, advérbios, adjetivos e substantivos, menos interjeições que estas não contam. As orações estão fora do negócio, só se criam em manadas, com artigos, verbos, substantivos e alguns advérbios. As orações coordenadas e subordinadas dependem umas das outras, há uma relação de autoridade e dependência meio complicada. Melhor, conservá-las à distância, em curral de cancela segura.

Expliquei-lhe um pouco da arquitetura léxica, como se edificam as palavras, de que elementos léxicos se compõem, da regência que fazem do verbo um manda-chuva na formação das frases, etc. e tal.

Ensinei-lhe o “pulo do gato”, o uso do prefixo e do sufixo na concretagem das frases, animei-o a ir em busca de apropriação do saco da semântica para de lá arrastar palavras mutantes, algumas mortas, recolhidas ao cemitério do abandono.

A tudo Thiago assistia maravilhado, dando por certo o seu latifúndio de palavras novas e recondicionadas, prontas para uso.

Emprestei-lhe cercas e água para a pastagem anunciada. Abri-lhe as cancelas, dei-lhe ferros para marcar as redes, que não se perdessem.

De repente, brota em Thiago a primeira preocupação social e econômica da sua vida de criador e apascenta dor de palavras:

“Vô, e se quiserem levar as minhas palavras ?”

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.