Cosmologias, por Pedro Henrique

No princípio havia um poeta.

Ninguém sabe ao certo quem era.

Pra uns, os cientistas, esse poeta era a própria matéria, confrontada com seu outro, seu alterego – matéria esquizofrênica, esquizomatéria –, seu outro que ainda era apenas sombra de si, antimatéria; num duelo de ser e não-ser, de ser e nada, de vida e morte, de som e silêncio, essa poetisa do espaço mentiu o tempo, que era seu próprio movimento de expansão insondável, incalculável, pelos séculos dos séculos, pelos milênios, biênios, triênios, por eras e eras sem fim. Pra esses, não há nada mais divino e belo, nenhum imaginário humanoide lhe venceria numa batalha de criação e improviso. Esses ainda não descobriram como foi possível tamanho feito dessa poetisa, nem mesmo como ela conseguiu desdobrar-se à complexidade da vida orgânica, muito menos à consciência de si, a cultura. Sabe-se como, mas não por quê.

Pra outros, os monoteístas, que consideram como sagrado não a matéria, mas o espírito, havia apenas o nada, informe e vazio, sem forma e sem conteúdo, feito luz, feito ser mediante a palavra da vontade superior, Deus, que disse belamente para que se alumiasse o mundo, e assim se fez, porque era bom. Um poeta soberano capaz de criar o mundo, as espécies e dentre elas uma criatura que, imperfeita, pois não era Deus, comungava de seu artifício poético, a palavra. Essa criatura precisava apenas nomear as coisas numa paisagem tão lindamente natural chamada Éden e, no entanto, assim como o supremo criador, deve ter se sentido tão entediada e só que precisou de seu outro, ainda também apenas sombra, uma mulher, e numa tacada da natureza, um certo impulso vital, um certo Eros manifesto na simbologia de uma cobra, chamada também de Kundalini, almejaram não o prazer sensorial de seus corpos nus, mas a sabedoria do bem e do mal, e assim aprenderam a julgar, então caíram, foram condenados ao fardo de um labor diário sem o menor sentido, sem jamais conseguir retornar à tranquilidade do Éden – o mesmo deve pressentir toda criança ao nascer, por isso seu choro.

Pra outros, os politeístas, ao menos os da antiguidade clássica do lado onde o sol se põe, o Ocidente, seguiam seus mitos aprendendo que é impossível o mundo ter sido criado, porque se fosse criado teria fim, e se findasse não poderia ser fundamento sólido nenhum para tudo aquilo que transita, peregrina, perece. No princípio era o Caos, matéria desorganizada, conteúdo sem forma, talvez, até que algo chamado terra, Gaia, despontou na solidão do primeiro, não sem trazer consigo um imenso breu, chamado Tártaro. Há um longo caminho ainda por ser apresentado, mas deu-se assim início à origem das gerações e gerações de deuses, digladiando-se, como as forças da natureza, para saber quem, ou qual, é mais potente, se sobressai: Urano, o primeiro pai, o céu, funde-se à primeira mãe, a terra, Gaia, pelo amor, talvez algum tipo de Eros; seus filhos são Titãs e dentre eles um se sobressai frente ao pai, por auxílio da mãe: o tempo, Cronos, que lhe corta o falo; este tinha o costume de devorar seus filhos para não se cumprir consigo o mesmo que se cumpriu ao seu pai, até que um de seus filhos, o trovão da justiça, Zeus, lhe faz vomitar os irmãos e funda o Olimpo.

Ah!… os filósofos. Tendo aprendido com seus mitos foram, no entanto, antes mesmo dos cientistas da ciência natural dos modernos, os primeiros desencantadores do mundo, não quiseram mais dizer do mundo mediante poesia, no princípio já não havia um poeta que não uma causa imanente (arqué) ao mundo natural, chamado de physis. Já tinham diante de si que aquilo que torna o caos primordial um cosmos ordenado era algo chamado Logos, o mesmo princípio da criação monoteísta, algo de próximo da palavra, que fazia o mundo algo de bom, e assim de belo, e portanto verdadeiro. E com isso eram, sim, uns tremendos de uns poetas: um figurou a água como metáfora da causa primeira do mundo; outro, o ar, pneuma; outro o ilimitado, o apeíron; e assim foram se dando: quatro elementos, átomo, fogo, número… Quando vem o período da polis política é que se percebem como artífices do mundo, ao menos de seu próprio mundo, de suas leis: o somos a medida de todas as coisas, das que são como são e das que não são como não são; ou não tem nada mesmo que exista, que possa ser conhecido ou dito; ou existe na vida humana, em seu ethos, alguma correspondência com o cosmos, quer seja a Ideia, quer sejam as quatro causas (formal, final, eficiente e material) e os primeiros princípios (começando por não contradizer-se) de tudo que existe. Depois disso, diante dos impérios, restava aos “homens” uma cosmologia que apontasse um cuidado de si, nenhuma verdade poderia ser maior do que a ataraxia, a tranquilidade da alma.

Essas as cosmologias ocidentais.

Pedro Henrique

Escritor, crítico e ensaísta fortalezense. Livros publicados em 2020 em formato digital, possíveis de serem adquiridos com o autor: Bibelô de recordações; Relicário perdido; Heteronímia; Rústico. Livros publicados em 2021: Economia e cultura na modernidade capitalista (Editora Fi), Crônico (Editora Fi), O caráter regressivo do capitalismo contemporâneo (EdUECE). Licenciado e Mestre em Filosofia pela UECE, Doutorando pela UFRJ. Reikiano e Massoterapeuta pelo espaço Ekobé. Professor de Filosofia no Ensino Básico da Paraíba. Perfil no instagram: @pedrenrique_insta. Contato pelo e-mail: [email protected]

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