CORDEL CEARENSE EM RECIFE

No “Encontro Regional Sem Fronteiras”, promovido hoje pela Procuradoria da Fazenda Nacional na capital pernambucana, o escritor, jornalista e poeta Pedro Gurjão apresentou versos do seu folheto de cordel “Recife: Capital Fi$cal do Nordeste”.

O trabalho, que tive a satisfação de prefaciar, foi editado e impresso pela Editora Expressão Gráfica, com 32 folhas e 1009 versos.

Não me passou despercebido o discreto e minúsculo subtítulo buarquiano “(mais de) mil versos cantei” (alusão a Carolina, que não viu o tempo passar na janela).

Um jeito criativo de descrever, com rima, métrica e bom-humor, a nova estrutura organizacional, setores, siglas, atividades e nomes de dirigentes e funcionários de um dos órgãos técnicos do Ministério da Fazenda, concebido para não sofrer interferências políticas.

Em outras palavras, um modo leve e atraente de revisitar temas oficiais, geralmente áridos e herméticos, popularizando o linguajar administrativo-financeiro e quebrando tabus culturais e burocráticos.

Ainda mais quando o enredo é a complexa questão tributária, de difícil tradução. Ou a desmistificação da antiga disputa hegemônica entre Recife e Fortaleza, rivalidade que perpassou a Política, a Economia, a Arquitetura Urbana, as Tradições, as Artes, o Carnaval, o Futebol.

Em Setembro de 2018, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) reconheceu a Literatura de Cordel como patrimônio cultural imaterial brasileiro, tributo a uma das mais genuínas e singulares expressões populares, a arte de recriar a realidade em palavras e modo de falar, para enfrentar as intempéries e adversidades locais.

Vejam como o versejador cearense começa a cordelizar o evento “desafiando” o decantado bairrismo dos nossos vizinhos maurícios:

“Cidade que é diferente,
Recife, que não se inibe,
sotaque bonito, ôh xente,
no frevo dá salto quântico,
aqui onde o Beberibe,
sem pororoca, nem pânico,
encontra o Capibaribe
formando o Oceano Atlântico”.

De passagem, cita ninguém menos do que Zé Limeira, o “Poeta do Absurdo”, que escandiu na Veneza Brasileira a mais esdrúxula de todas as suas trovas:
“Eu cantei lá no Recife,
dentro dum pronto-socorro,
ganhei 500 mil réis,
comprei 500 cachorro,
morri no ano passado,
mas este ano eu não morro”.

E assim o nosso irreverente articulista encerrou sua apresentação:
“If you think of you can take
my dear sister Severina,
te espero no coffee-break,
te pego ali na esquina,
eu juro que isso não pode,
num trisca nessa menina.
Dou-te dois litros de toddy
de presente por teu níver,
then I throw up your body
in Capibaribe River”.

Ao prefaciar seu libreto, fiz questão de assinalar o fato de ser Gurjão “pesquisador e difusor da obra do escritor, humorista e tradutor Millôr Fernandes”.

A bem da verdade, cabe-me registrar mais: Pedro foi o jornalista brasileiro que mais fez publicações sobre o “Pensador de Ipanema” a propósito do 10º ano de sua partida, a mais extensa delas publicada aqui no Segunda Opinião, sob o alfanumérico título “10 Anos 100 Millôr”.

Millôr, como se recordam, foi um fiscal vigilante dos desgovernos e crítico intransigente do desvio das verbas públicas, notadamente diante das vicissitudes da grande maioria da população.

E, perguntariam vocês, o que o Millôr tem a ver com o cordel?

Simples assim: homenageado em 2014 pela concorrida FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty – RJ, ele virou tema de cordel dos emboladores paraibanos Fernando Rocha e Marinalva Silva, com a denominação “Viver é desenhar sem borracha” – uma de suas mais instigantes frases.

E ganhou versos bem ao gosto popular:

“A verdade é que Fernandes
Um espaço conquistou
Para o povo brasileiro
É um homem de valor
Morreu, mas tá na memória
Desse povo lutador”.

Temática sintonizada com a recente publicação “Pré-leitura do livro ‘História da Literatura de Cordel’ ”, de Carlos Dantas; e com o livro “Governantes, Poder & Dinheiro”, organizado por Josênio Parente e este escriba, lançado há uma semana no Shopping Benfica.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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