CORAÇÕES DE OURO PURO! SÓ QUE NA ESSÊNCIA O OURO É DURO…

OLHEM! VEJAM! PRESTEM ATENÇÃO! EU NÃO SOU ASSIM tão diferente dos demais membros mortais da minha espécie, até porque também tenho as minhas idiossincrasias, embora possa garantir, desde sempre, que nenhuma delas, por mais fora de propósito que possam parecer ao olhar severo, crítico ou fantasioso dos hipócritas – aqueles soberbos entes humanos que costumam pretender ser o suprassumo do néctar divinal, a quintessência aristotélica, ou seja, o grau mais apurado do que, in casu, se revela nada –, jamais se aproxima da pouco recomendável excentricidade, admitida até a hipótese de, não raras vezes, resvalar para a esquisitice e até causar estranheza aos de coração mais nobre. Não são elas, a bem da verdade, muitas; chegam, sim, a ser várias ou multifacetadas na origem, no brotar para a existência, na peculiar natureza intrínseca, equivalendo a dizer que não guardam entre si qualquer similaridade ou parecença, mas, juntas, concorrem também para a formação da suficiência, da abastança, da concretude das minhas cruciais necessidades cotidianas, bem como das minhas singulares atitudes comportamentais e, por extensão, dos meus mais longevos e imperturbáveis relacionamentos interpessoais, sem os quais não sobreviveria às intempéries da vida.

Em relação a algumas delas, como é o caso, por exemplo, do excessivo rigor que exerço sobre a limpeza doméstica, um item aparentemente comum, no sentido de cotidiano e, portanto, recorrente, consigo até extrair da velha e cansada memória o onde, o como, o quando e o porquê, no que concerne ao seu ingresso definitivo no meu específico e particular modus vivendi.

Houve um período – curto, por sinal, apenas de alguns meses e ainda na fase perdida da minha crucial orfandade precoce – em que a casa do meu pai (e nossa, obviamente!), ele em plena viuvez, ainda na caça de uma outra bússola que lhe pudesse apontar um novo Norte a direcionar sua nau então à deriva, e no ofício de mestre-de-obras na capital (chegava a Baturité, ali na histórica estação do Putiú, no trem suburbano dos sábados à tarde, e retornava a Fortaleza, pela mesma via, nas tardes dos domingos), a casa do Alto da Capela, de amplo, declivoso e frutífero quintal e largas áreas laterais protegidas por muros de alvenaria (à beira da íngreme e curta ladeira para a rua Coronel Ribeiro Montenegro, em cuja confluência ficavam, de um lado, a residência do seu Nego Elói, servidor da RFFSA e pai do Dé, motorista de praça, de Wilson e Fatinha, o grande amor do Zé Olavo do Paulão, e do outro, a bodega, com duas portas frontais e uma lateral, do seu Izidoro, o irmão de Ocinair, dono de armazém no entorno do Mercado Público, ambos altos e magricelos), servia de moradia apenas a mim, mais desorientado que cego sob bombardeio inimigo, e ao meu irmão mais velho, quatro anos de vida adiante de mim e também desnorteado ante o vazio de comando que tanto nos afetava e nos empurrava, literalmente, ladeira abaixo, com todos os questionamentos e irreverências que comumente nutrem uma adolescência circunstancialmente largada ao deus-dará e, por conseguinte, revestida de irresponsabilidades, impertinências e descompromissos. Ademais, a nós se juntava uma turma de dez, doze e, às vezes, quatorze, quinze moleques de mesma faixa etária e idêntico matiz comportamental. E o mundo virava ao avesso; o caos absoluto se estabelecia invariavelmente e se manifestava, a olho nu, através da bagunça de redes sempre armadas em quase todos os ambientes – quartos e salas –, do empilhamento de vasilhames – panelas, frigideiras, pratos, colheres, garfos, facas, copos – por lavar na pia da cozinha e do nauseante cheiro de mofo entranhado em toalhas e lençóis, além do desarranjo de roupas sujas espalhadas pelo chão de cimento queimado e carente de uma boa varrição.

A manhã do sábado, por razões óbvias, era reservada para a faxina geral.

E eu vivia naquele meio. Era personagem daquele drama. Eu também cometia os meus desatinos – como assumir, ainda na pré-adolescência, o prejudicial vício do fumo, cujos estragos nas vias aéreas até hoje ainda me cobram um preço muito alto, e repetir por três vezes a primeira série ginasial, numa irresponsável desqualificação de uma tão disputada vaga, tão brilhantemente conquistada, após um irrepreensível exame de admissão –; eu também perpetrava os meus pecados, alguns tão “cabeludos” que nem coragem tinha de os revelar em confessionários (cujo perdão sempre cri recebê-lo diretamente do Pai, em clara exacerbação da petulância, da insolência humana); e, assim, concorria para que tudo aquilo acontecesse e, é claro, também me sujeitava aos recorrentes castigos dos sábados à tarde, os quais não podiam ser classificados como “corretivos” porque correção nenhuma eles se mostravam capazes de produzir. No máximo, arrancavam de nós promessas nunca cumpridas.

Mas a pia da cozinha, cheia até não poder mais, me incomodava. E muito!

E, assim, deu-se a aquisição de uma das mais antigas e resistentes idiossincrasias da minha existência terreal: o incômodo – insuportável! – ante qualquer tipo de sujeira doméstica, o qual, ao longo dos anos, mais de meio século, ampliou-se, extrapolou os limites do que considero “a minha moradia”, até alcançar áreas que lhe são externas e a expandem, como o quintal, o corredor lateral, o jardim e a calçada frontal. Procuro sempre mantê-los limpos, de acordo com o meu restrito e rigoroso conceito de limpeza.

(…)

Em meados do mês de dezembro do pandêmico ano de 2020, às vésperas das festivas e tradicionais confraternizações humanas, todas ora virtualizadas por óbvio, a secretaria regional a que se encontra jurisdicionada a área onde fixada a minha casa resolveu, repetindo o que faz todos os anos, promover um mutirão de limpeza em todas as ruas sob sua administração. Ação louvável e merecedora dos mais justos e elevados encômios.

Só que, desta vez, os agentes públicos da limpeza urbana¹ entenderam de escolher a frente da minha casa para depositar o mato capinado e todo o lixo então recolhido, amontoando-os a partir da guia da calçada, a poucos passos do largo portão de acesso à garagem. E haja carrinhos de mão a despejar atulhos… imagino eu, já que recolhido me encontrava no recôndito do meu lar, em plena fuga ao mal do século – le mal du siècle, como dizem os franceses, em sua língua fina, delicada e melódica (e, obviamente, com “biquinho”). Dessa ação de dois dias – segunda e terça –, resultou que o sujo se tornou limpo e o limpo… bem… ao limpo coube acolher toda a sujeira dos outros.

Na sexta, boquinha da noite, a campainha retiniu nervosamente. Atendi na forma de praxe, ou seja, sem abrir o portãozinho central, reservado ao acesso das pessoas, e indaguei:

– Quem é?

Uma voz que não me soou estranha respondeu do lado de fora:

– Sou eu, doutor. Um dos garis da turma que limpou a sua rua…

– [Que limpou a minha rua, mas sujou a minha casa! – Eu até pensei em dizer isso, mas não disse.] Pois não. Em que lhe posso ser útil? – Quis saber.

– Eu estou recolhendo a ajuda dos moradores desta rua para a nossa cesta básica. – É verdade. Sempre foi assim. Sempre ajudei. Sempre participei desse momento do “vamos passar a sacolinha”, no caso, bem mais cristão. – O senhor deve lembrar-se… – Ele prosseguia na formulação do pleito, quando o interrompi:

– Sim. Lógico que me lembro. Só que desta vez, amigo, não vejo por que devo colaborar…

– E por que não, senhor?!

Confesso que tentei engolir a seco a minha insatisfação e manter a polidez com que costumo conduzir as minhas conversas com quem quer que seja, em especial com gente simples, humilde. Não consegui. Alteei a voz e fui… fui, sim… grosseiro, ríspido, severo, certamente com quem não merecia:

– Ora, rapaz, vocês despejam todo o lixo na frente da minha casa, quase sobre a calçada, e ainda esperam que eu pague por isso.

– Mas doutor…!

– Não tem mais nem menos, rapaz. Veja aí… já estão colocando entulho, resto de material de construção… isso aí vai acabar virando rampa de lixo… e a culpa é toda de vocês…

– Senhor, a regional vai recolher tudo isso…

– Quando? Vocês terminaram o serviço na terça… e hoje já é sexta… praticamente sábado… E nada. Portanto, o dinheiro que eu ia dar a vocês, para a cesta de vocês, vou usar para contratar um desses catadores de lixo para retirar toda essa porcaria da frente da minha casa. E é só. Passar bem. – E, enquanto me afastava da zona de conflito, adverti-o: – Que isso sirva de lição! Da próxima vez, escolham um outro lugar para depósito de lixo. – Encerrei a conversa com outro “Passar bem!”, agora bem mais enfático.

Nem bem adentrei o hall de entrada da casa, quem me interpelou foi a minha neta, no alto dos seus dezessete aninhos recentemente completados, com ar de líder estudantil e de defensora dos pobres e marginalizados, com jeito de quem já se esforça muito para suportar o isolamento social que lhe está sendo imposto e com um olhar naturalmente belo que, mesmo sob o efeito da contestação que fazia, tanto me encanta quanto me convence (às vezes, reprimo tais sentimentos, ou seja, empenho-me em não revelá-los, até como estratégia de defesa ou de não-recuo):

– Vô, o senhor foi muito grosseiro com o coitado do gari. Nem o portão abriu, vô! O homem só estava pedindo uma ajuda. Se o senhor não pretendia ajudar, não precisava ter sido tão rude, tão…

– Mas… – Eu quis desculpar-me. Em vão. O controle da situação estava com ela. E, em momentos desse jaez, o silêncio ainda é o melhor remédio.

– Vô, o senhor podia até estar coberto de razão. Acabou perdendo a razão por pura grosseria… e gratuita, hein! Certamente o gari vai ficar com a impressão de que o senhor é zangado, birrento, rabugento. Eu sei que o senhor não é isso… ou será que já está ficando?! A idade… A reclusão… O novo normal… Cuidado, vô!

 

“Sob seus modos desconcertantemente bruscos e até mesmo ríspidos, (…) escondia a mais generosa das naturezas.”²

 

Recolhi-me à minha rede de varandas, ao meu aconchego das horas ociosas, das leituras auspiciosas, dos sonos e sonhos prodigiosos, seja após jornadas venturosas com seus efeitos bonançosos, seja, em fuga, após embates ardilosos sempre a mim muito danosos; enfim, abriguei-me no meu recesso predileto, em especial quando percebo ter perdido as estribeiras, ter afrontado os meus rigorosos propósitos de cidadão e ido além das fronteiras do que me é, por mim mesmo, permitido. Assumi, então, uma postura reservada, introspectiva, de aparente alheamento, quando se misturam a meditação, a autocrítica e, em maior dose, a compunção. Vivi, dessarte, um momento essencialmente catártico. E, assim, de olhos fechados, o corpo em plena quietação, quase em total adormecimento, permiti que minha irrequieta alma adejasse por espaços de marcantes vivências num passado longínquo que, por terem concorrido para a minha formação pessoal, ainda se preservam na memória.

E, nessa viagem de retorno às origens, reencontrei-me com pessoas de minha mais alta estima, de meritória consideração, eternas beneficiárias das minhas mais justas reverências, as quais, ainda na última quarta parte do século passado, eram tidas e havidas por muita gente, boas e más, como rudes, duras, grosseiras, intratáveis, irritadiças, geniosas, azougadas, enfezadas, zangadas e, para alguns mais rigorosos em seus juízos de valor, muitas vezes desprovidos de justos argumentos, até mesmo rancorosas e violentas. Isso porque se tratava de pessoas que não mandavam recados, pois elas mesmas preferiam ir até o destinatário da mensagem e, pessoalmente, frente a frente, dizer o que devia ser dito; que não levavam desaforo pra casa, nem se permitiam ficar remoendo mágoas, dissabores e mal entendidos, porquanto preferiam resolver o problema tão logo lhe era dado o direito de conhecê-lo, independentemente de quem estivesse no outro lado do imbróglio; que não tergiversavam, não desconversavam, não admitiam empurrar com a barriga as eventuais mazelas ou contrariedades, ou seja, não se mascaravam, não se omitiam, não se escondiam, nem fugiam de uma boa briga.

Pois bem. Sorvendo agora uma boa dose do aprendizado – como é possível perceber, insignes leitoras e leitores, trata-se de elemento desprovido de qualquer fração, por mais insignificante que seja, de teor alcoólico, o que o tornaria não recomendável no pós vacina contra a Covid – que o escritor mineiro Roberto Drummond [autor de Hilda Furacão, que virou minissérie da Globo, e O cheiro de Deus (“A vida da gente é um rio, não vai em linha reta, faz curvas, para nos remansos, corre nas correntezas.”)] sustenta ter recebido de Thomas Mann [o consagrado escritor alemão, ganhador de Nobel, autor do clássico A montanha mágica (“Todo caminho que trilhamos pela primeira vez é muito mais longo do que o mesmo caminho quando já o conhecemos.”)], para quem “se você tem uma família, não precisa inventar outra: é só escrever sobre ela”, ora elejo como exemplo, como ícone mesmo daquele peculiar universo de pessoas, sobre quem muitos enredos foram inventados, muitos fatos foram profundamente modificados – para pior, é claro! – e até mesmo maliciosamente super produzidos, dois dos principais pilares que dão sustentação à minha estrutura cidadã: os mestres Expedito, o meu pai, e Antônio Pereira, o meu sogro.

Em relação ao meu pai, dois fatos ora os recupero em toda a sua singeleza e integralidade.

Num deles, o antagonista era um pedreiro, cujo nome não me recordo, talvez Macenas, que residia no bairro Boa Vista, numa de suas duas únicas ruas de acesso, a perpendicular à avenida Dom Bosco, com início defronte ao portão principal do Ginásio Salesiano Domingos Sávio. Ao ser convidado pelo mestre-de-obras para um serviço de reforma em prédio residencial, com alguns riscos que reclamavam um certo grau de competência e tirocínio ao executor da obra, logo surgiu o primeiro desentendimento entre eles porquanto, se o contratante preferia o sistema de empreita que sinalizava para o encurtamento do prazo para atendimento da demanda, o contratado impunha a condição do da diária. Esse senão resolvido, o mestre elencou as orientações que, segundo exigia o seu ofício, deviam ser seguidas rigorosamente pelo pedreiro. No intervalo para o almoço do primeiro dia de trabalho, a relação profissional entre eles se degenerou. Nada do que fora feito até ali observara o determinado e aparentemente acordado. O seu Macenas preferira agir conforme o que lhe pareceu adequado ao caso, fazendo tabula rasa de tudo o que o mestre-de-obras como plano de ação traçara. Discutiram.

– O que houve, mestre? Por que não fez como combinamos? Não entendeu as minhas ordens?

– Entendi, sim. Só que não concordei com elas…

– E por que não disse logo? Preferiu não considerar…

– Porque não valeria a pena discutir com quem é teimoso por natureza.

– Isso é agressão, sabia? Na sua idade, mestre, já devia ter aprendido que onde há quem manda, só lhe resta obedecer ou desistir. Eu sou o responsável por tudo o que possa acontecer aqui. Portanto…

– Portanto, mestre dos mestres…

– Só conheço um mestre dos mestres: Jesus Cristo. E, mesmo sendo ele o filósofo do Amor, expulsou a chicotadas os vendilhões do templo…

– Pois antes que eu seja expulso daqui, retiro-me sem pretensão de voltar. Pague a meia diária ao servente… quanto a mim, não me deve nada. – Pegou, então, os seus instrumentos de ofício e retirou-se.

E nunca mais um trabalhou para e com o outro.

No dia seguinte, assumiu a obra, entregando-a algumas semanas depois, na forma como tudo fora contratado, o sempre tranquilo e operoso mestre Josué, líder religioso das Lajes e responsável maior pela edificação da nova igreja de Nossa Senhora do Rosário – prédio secular demolido porque asfixiava o fluxo veicular para a Prefeitura, a Matriz e adjacências, além do acesso à serra, incluindo o Seminário dos jesuítas –, transferida da avenida Proença, seguimento da Sete de Setembro após a Waldemar Falcão, para aquele bairro periférico.

No outro caso, o antagonista era um servente de pedreiro que guardava mágoas do mestre-de-obras, desde que por ele fora demitido devido a embriaguez e desordens. Conhecido como Zé do Malaquias, residia com os pais no Coió de Baixo e era tido como arruaceiro, briguento, valentão.

Era um sábado à noite.

Eu e o Olavo, meu irmão mais velho, tínhamos de retornar de nossas diversões noturnas até às dez horas; exceto aos domingos que, por conta do Telecatch, programa televisivo de exibição de combates de luta-livre, éramos agraciados com um tempo adicional, geralmente até à meia-noite. Assim é que, naquela noite enluarada, presenciamos, do patamar da igrejinha, a poucos passos da zona de litígio, a cena que ora narro.

O Zé entendeu de, sob efeito de álcool, desacatar o mestre-de-obras, ciscando como galo de briga, urrando como touro brabo e vomitando impropérios bem à frente da janela do quarto em que repousava quem houvera escolhido como desafeto. O mestre levantou-se, abriu a janela da sala de estar, alcançou através dela a área lateral da casa, contornou o amontoado de lenha (naquela época só havia o fogão a lenha ou o fogareiro a carvão) recentemente adquirida e entregue na tarde daquele dia, e sentou-se no muro, ou melhor, na construção em alvenaria que dera início ao projeto de edificação de uma outra casa, por enquanto suspenso à espera de tempos mais alvissareiros. Ao ver o alvo da sua ira tranquilamente sentado à sua frente, vestido apenas com o calção do pijama, peito desnudo, pernas balançando no ar e os pés descalços, o servente sacou a peixeira e investiu loucamente contra quem, na sua concepção, logo se tornaria a sua vítima fatal. Num abrir e fechar de olhos, o mestre Expedito saltou para o chão desviando-se da arremetida inimiga e, com uma acha de lenha, atingiu, em golpe de cima pra baixo, o encontro do ombro esquerdo com a base do pescoço do seu agressor que cambaleou, soltou um gemido estridente e esparramou-se na pedra tosca do calçamento da rua. Ao levantar-se, ainda meio zonzo, percebeu que houvera se dado mal. Em pé, a alguns metros dele, o meu pai, em posição de defesa, mostrando estar de posse da peixeira já na bainha, ordenou:

– Rapaz, vá embora! Viva a sua vida e me deixe viver a minha em paz!

E o Zé, ainda trôpego, desapareceu na estreita passagem entre a casa dos Macaxeiras e a esquina da igrejinha.

No domingo à tarde, o jipe da polícia parou sob a sombra da castanholeira defronte a casa do meu pai (e nossa também, obviamente!). O cabo formalizou, então, o “convite” para que o mestre comparecesse à delegacia, às oito horas da manhã da segunda-feira. E a intimação da autoridade policial foi devidamente cumprida. Na acareação, os dois – o mestre e o servente – se reconheceram como envolvidos na confusão do sábado à noite. O Zé, com o ombro esquerdo envolvido em proteção de gesso, com o braço na tipoia, já não mais se portava como um titã enfurecido; mais parecia um manso cordeiro fugido do ato de imolação. O delegado, então, dirigiu a palavra ao mestre:

– O senhor assume ter provocado todo esse estrago? – E com um meneio de cabeça, indicou o ombro engessado do Zé.

– Sim, assumo. Não fora isso, delegado, certamente eu não estaria aqui, mas no cemitério… e o senhor com os seus homens talvez ainda estivessem à caça dele, de um assassino.

– Como assim? – Indagou, surpreso, o delegado. – Houve tentativa de…

– Desculpe-me interrompê-lo, delegado. – Ao dizer isso, o mestre depositou na mesa da autoridade, ao seu alcance, o embrulho que mantinha sob sua guarda. – Eis a prova material do crime de tentativa de homicídio.

– Êpa! Uma catorze polegadas… – Reagiu com estranheza o delegado ao desembrulhar o pacote e, voltando-se para o até então agredido e agora agressor, indagou-lhe: – Isto lhe pertence?

– Sim. – Respondeu, cabisbaixo, o ex-valentão.

– Você sabia que esse tipo de arma tem uso proibido em via pública? – Virou-se para um dos soldados. – Recolha ao depósito de armas apreendidas. – E, dirigindo-se ao meu pai, perguntou. – O senhor pretende formalizar a devida queixa-crime contra ele?

– Não, senhor! Apenas peço a ele que me deixe viver em paz. E ao senhor que o deixe livre para que ele possa tocar a vidinha dele. Façamos de conta que nada houve…

– É. Até porque ele já está pagando pela besteira que cometeu…

E, então, o Zé choramingou:

– Ocorre, mestre, que eu não tenho nem como comprar os remédios que o doutor passou…

– Qual foi o médico que o atendeu no hospital? – O seu Expedito quis saber.

– Foi o doutor Marcelo.

– Eu vou falar com o Marcelo (havia uma longeva amizade entre eles: o médico e político e o mestre-de-obras e eleitor). O que devo a ele jamais vou conseguir pagar mesmo. A partir de agora, você vai ser tratado por ele, lá no hospital dele, ali próximo à praça de Santa Luzia, na descida para as Lajes. Quanto aos remédios, me dê aqui o receituário. Você sabe onde fica a farmácia do seu Luís Ponciano? – O Zé respondeu afirmativamente apenas com um movimento de cabeça. – Pois bem. Eu vou passar por lá agora e, quando o delegado liberar você, vá até lá e receba os seus remédios. Passe uma temporada sem beber, rapaz! Para o seu bem e a paz dos outros!

E as coisas se resolveram de acordo com o regramento então vigente, combinado com os costumes da época.

Quanto ao meu sogro, naquela época mais conhecido como Antônio Guariba, assinalo que aparentava ser mais sociável, dado o seu alto desempenho em muitos tipos de jogo, tais como o futebol, a sinuca e o carteado, apenas para citar três. Além do mais, tinha uma vida noturna – bares, botecos, casas de jogos de azar e festas, as religiosas e as mundanas – mais marcante. Assim, a sua vitrina de exposição social era bem mais vistosa.

Mais recentemente, mereceu da edilidade caucaiense a homenagem póstuma que, por tradição, sempre se destina a filhos ilustres, quando publicamente reconheceu os seus méritos, vinculando o nome do cidadão ao ginásio poliesportivo então inaugurado no bairro Planalto Caucaia. Na ocasião, coube a mim, representando a família do agraciado, tracejar um perfil que melhor se lhe amoldasse e que, a rigor, mais apropriadamente revelasse a sua personalidade, a sua individualidade, quando enfatizei as principais qualidades que pautaram a sua rica e profícua existência, quais foram: transparente e até turrão ou teimoso, mas não gratuitamente grosseiro; irrequieto e protagonista consciente do seu papel em todos os atos em que se envolvia como personagem; destemido; generoso; vigilante; confiável; conciliador e amigo. E acrescentei: “Parecia ter os olhos de lince, a agilidade dos felídeos, a perspicácia da vigorosa águia, atributos que se aguçavam mais e mais quando se tratava de defender seus entes queridos.” Com ele, aprendi a valorizar a figura do pai presente e protetor.

Eu tive amigos cujos pais também integravam o seleto grupo dos indomáveis, dos insubmissos. Era o caso, por exemplo, do Hélder, nascido ator dramático ou humorista em tempo e local errado, e do Assis (ou Nenen), parceiro nos tempos de salesiano. O seu Murilo, pai deles e então chefe da estação de Baturité e de uma família típica da época – com não menos de uma dezena de filhos (vou tentar reconstituir a relação: dona Neide, professora em Fortaleza, e João, telegrafista em Capistrano, ambos então já casados e com vida encaminhada; Leide, Leônidas, Francisca, Zinha, Roberto, Cássia e Robério, além dos amigos já citados), não se fazia apenas ser respeitado, mas temido. Embora acolhesse a molecada em sua ampla sala de estar para assistir a programas humorísticos, filmes e seriados na tevê em preto-e-branco e admitisse ver a casa cheia de gente nas transmissões de jogos do Brasil na vitoriosa Copa do México (1970), pedindo apenas:

– Por favor, não soltem pum na minha sala! Respeitem os mais velhos!

Num certo domingo, chamou-nos a nós – o Assis e eu, que estudávamos para uma prova de Matemática marcada para a manhã do dia seguinte – para acompanhá-lo no quebra-jejum pós noite de plantão, no alpendre que dava para o quintal, cujo bananeiral se estendia até as areias da margem do rio Aracoiaba e se limitava, de um lado, com o sítio do seu Porfírio, pai do Inácio, e, do outro, com o longo e alto muro da mansão do seu Raimundo Viana, o dono da Usina Putiú. Tratava-se de um café essencialmente preto, forte e fumegante, adoçado com raspas de rapadura da cor de caramelo, tornado marrom pela mistura de um leite gorduroso, há pouco ordenhado, e acompanhado de cuscuz de milho novo e recoberto de nata. E ele me disse (lembro como se fosse agora):

– Eu me incomodei muito, ao meu jeito meio grosseiro de ser, com a dor que vocês, ainda crianças, sentiram com a morte da mãe. Eu respeito muito o seu pai que soube enfrentar a situação de cabeça erguida. Se sofreu, e eu tenho certeza de que sofreu, não se permitiu fraquejar, não se deixou ser levado pelo vendaval da viuvez. E eu ficava me perguntando: será que eu suportaria perder a minha mulher, com tantas obrigações que ela conduz com tamanha sabedoria e desprendimento? Juro que não encontrei resposta. – E lágrimas brotaram no canto dos olhos e escorreram pelo rosto enrugado do velho senhor, tido como rabugento e sorumbático, no sentido de carrancudo, melancólico e taciturno.

E eu fui aluno salesiano. Nessa condição, mantive convivência discreta com o padre João Batista (acho que era esse o nome dele), recentemente chegado ao Ginásio Salesiano Domingos Sávio para ocupar o cargo de Prefeito, substituindo o padre Luiz Sávio Prata que, em face da transferência do padre Paulo para o Colégio de Carpina, no interior de Pernambuco, assumia a direção da Casa. Com a voz metálica, o olhar à Yul Brynner – o  Chris Adams, de Sete homens e uma sentença (1960) –, e eles até se pareciam fisicamente, fazia-nos tremer na base todas as vezes que nos advertia sobre algo que dissesse respeito ao seu cargo, em especial a cobrança de mensalidades atrasadas. Ele foi meu professor de desenho geométrico. Era homem de poucas palavras. Não me recordo de ter assistido a uma missa por ele rezada. Acho até que o padre João jamais sorriu.

E eu fui professor cenecista. Estreei em 1971 no Centro Educacional Professor Joaquim Nogueira, defronte a praça Waldemar Falcão. E o diretor era o doutor Ilídio Silveira, cirurgião-dentista com consultório montado no que seria a sala de estar de sua residência, na rua Sete de Setembro, em frente a praça de Santa Luzia. Na alta janela frontal, mantida aberta nos seus atendimentos – que, diziam as más línguas, eram regidos por repetidos diabos! diabos! diabos! recorrentemente por ele proferidos em sussurros –, havia um anteparo de vidro fornido e fosco com a inscrição centralizada e em meia-lua: Ilídio Silveira, no formato de abóbada; e Cirurgião-dentista, horizontalizada e na base. Consta que um feirante, na manhã de um certo sábado, subiu no peitoral da janela, meteu a cabeça no vão superior e perguntou ao dentista em plena ação:

– Doutô, por quanto o sinhô distrai um dente meu?

E o doutor Ilídio não se conteve:

– Eu distraio é a senhora sua mãe, seu filho duma égua!

Eu nunca tive qualquer atrito com o meu diretor preferido. Confesso que, em alguns momentos, ele me tratava como se filho dele fosse. E eu até tive a oportunidade de tornar-me genro dele… mas que deixei passar ao largo, acho que por incompatibilidade de gênios.

E eu fui agente de coleta da Fundação IBGE, aprovado (6º lugar) em concurso público que previa o preenchimento de 20 vagas, distribuídas pelas agências do interior do estado. (Pra mim, tal fato serviu como renascimento, após sucumbir, duas vezes seguidas, em certames para o Banco do Brasil; na segunda derrota, prestes a mergulhar num destrutivo processo depressivo, fui salvo pelo meu pai.) A posse se deu de forma solene, na agência de Caucaia, ali na entrada da cidade, após curso de ambientação no Cetrex (o Centro de Treinamento e Extensão da Ancar-CE, depois transformada em Ematerce, situado no distrito caucaiense de Capuan), com a presença do então delegado regional, o senhor Francisco Cronje, que se fez acompanhar de todo o seu staff e alguns representantes da velha guarda. Quando fui chamado para assinar o livro de posse e receber a minha carteira profissional, já devidamente anotada, o seu Cronje assim se pronunciou:

– O senhor está lotado na nossa agência de Baturité. Segunda-feira, às 7 da manhã, deve apresentar-se ao senhor Juvenal Rodrigues de Senna, por todos nós carinhosamente chamado de… Dragão!

E todos, exceto os novatos, soltaram uma sonora gargalhada. E eu, ali, naquela hora, tive a sensação do que me esperava. O tempo se encarregou de mostrar o contrário.

Das convivências minhas com todos esses personagens, além de alguns outros com idêntico perfil, posso assegurar-lhes – ó pacientes leitoras e leitores! – que no peito de cada um deles batia um coração de ouro puro, embora o ouro na essência seja duro.

 

¹ Conforme matéria veiculada em jornal eletrônico da Biblioteca Nacional, tais agentes carregam a marca, registrada e indistinguível, oriunda da corruptela do nome do francês Aleixo Gary, contratado, em outubro de 1876, para prestar os serviços de coleta e remoção do lixo produzido na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.

² Aldous Huxley, em Chawdron Contos escolhidos. Trad. Eliana Sabino. São Paulo: Globo, 2014; pág. 424.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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