Conversando com a Mamãe

O isolamento social prendeu meu corpo, mas liberou minha alma e aguçou minha imaginação. Não parei, saí por aí percorrendo o mundo. Visitei todos os continentes, falei com vários povos, ouvi gemidos diferentes e com ritmos e intensidades diversas. Adquiri mais conhecimento de geopolítica. Senti e vivenciei a civilização e a barbárie das nações, dois extremos irreconciliáveis. Permaneci mais tempo na África; queria conhecer melhor aquele torrão, berço da negritude sofrida que contribuiu tanto com a formação da nossa brasilidade brejeira.

Ah! como é bom ser brasileiro! Povo manso e rebelde … do jeito que eu gosto!

Meu “worldwide-tour” fortaleceu meus músculos mentais e tonificou o meu ser. E sinto como é bom ser Gilmar, filho de Afonso e Maria e irmão de Gilvan, Nisa, Nilde, Darci, Maíse, Gilza, Beto, Bevan, Denise, Mai, Nei, Adelinha, Adélia, Afonso Jr. e Deth … todos unidos com as bênçãos do dedo Divino, nas palavras do meu querido e saudoso pai Afonso.

 

Paro e fecho as janelas. O barulho nas ruas é ensurdecedor. Panelas batem com gosto e os gritos de FORA BOLSONARO são ouvidos a mil léguas.

 

A prisão do senhor Queiroz canalizou energias cidadãs contra ilícitos constantes. Nos Estados Unidos o gatilho foi a morte cruel de George Floyd, negro assassinado por um policial branco.

 

Sinto saudade da presença e do afeto da minha saudosa mãe. Imagino-a sentada no sofá da sala com seus cabelos brancos e com a força e o peso da sua idade. Respiro fundo e me deito estirado, colocando a cabeça no seu colo. Minha mente é inundada por imagens, sons, sentimentos, sabores e cheiros. Sinto-me criança em seus braços. A roupa nova que ela costurava, os pratos feitos postos na mesa, meu primeiro presente de Natal … .

 

Minha mente entra em estado de ebulição. Quero ouvir a sua voz e começo a perguntar sobre sua vida aqui na terra:
– Mamãe, onde a senhora nasceu?
– Nasci no Amazonas, em Guajeratuba, à margem esquerda do rio Purus, um afluente do Solimões.
– Mamãe, onde a senhora está não existe nenhuma dor, recompensa merecida para quem criou dezesseis filhos e construiu um valoroso legado. Como enfrentaria esse momento de profunda crise sanitária que assola o mundo?
– Com tranquilidade, meu filho. “Disse isso alisando meus cabelos com seus dedos finos e delicados. A emoção tomou conta de mim”. Eu tive duas irmãs e cincos irmãos, todos morreram de malária em menos de dois anos, muito jovens. A Alzira com 14 anos e a Albertina com 17 … não gosto nem de lembrar. Hoje existe a ciência que salva muitas vidas.
– Meu avô morreu de quê?
– Meu pai teve uma pneumonia e morreu a bordo de um navio a caminho de Manaus em busca de tratamento médico. O Agilberto, meu irmão mais velho, ainda adolescente, estava com ele. Um bispo que viajava no navio deu a extrema-unção. Ele foi sepultado em Manacapuru, um município perto de Manaus. Dias depois, o Agilberto chegou com a notícia. A mamãe ficou muito abalada e viemos morar no Ceará.
– Por que valeu a pena viver aqui na terra durante 97 anos?
– Na vida tudo conta. Tudo vale a pena. Mas conhecer seu pai, ter vocês com ele e senti-lo morrer num ato de amor em meus braços, merece destaque. A propósito, ontem fez cinco anos que encerrei minha missão aí na terra.
– Missão bem cumprida, mamãe. Todos sentimos muitas saudades da senhora.
Sem saber como me despedir, falei emocionado …
abênção, mamãe, Ela enxugou delicadamente minhas lágrimas e disse: “Deus te abençoe, Gilmar; sou grata por tudo”.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar de Oliveira, Professor Universitário.

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