CONVERSA NA PRAÇA – Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Cervantes dizia que a língua portuguesa é a mais sonora e musical do mundo”. (Ariano Suassuna, em postagem em rede social).

Quando cheguei à acolhedora praça, domingo cedinho, eles já lá se encontravam, bem aboletados em um dos espaçosos bancos de assento e encosto de madeira e estrutura de ferro, sob a sombra de generosos arbustos, a conversa fluindo no curso de sua trilha natural. O jardim já não é mais o mesmo; da verde grama, nem mais resquícios há; as flores… que flores?! Apenas algumas plantas – lança-de-São-Jorge, por exemplo – resistem bravamente ao descaso; entre elas, sobressai um renitente girassol. Cadê o zelo com a coisa pública? Ninguém sabe, ninguém vê.

Cumprimentei-os, como de costume, com a solenidade de que se fazem merecedores, em francês de arremedo – Bonjour, mes amis! –, afinal trato-os sempre como se fossem o Athos, o Porthos e o Aramis, os três mosqueteiros do romance histórico, de capa e espada, da lavra do escritor francês Alexandre Dumas, os quais…

– Que, na verdade, são quatro! – Quem me interrompe, advertindo-me, é Athos, que aparenta ser o mais experiente e vivido do grupo, sentado entre os outros dois amigos. – É que o D’Artagnan, no caso você, prefere ser dispersivo, evita manter conosco uma convivência de maior frequência, somente aqui e acolá bate à nossa porta, sempre movido pela saudade. É o que alega. E nós sempre o acolhemos porque acreditamos nisso. Sempre.

Isso mesmo. Reconheço. Não há constância nas minhas andanças pela praça. Vez por outra, sinto falta da boa e saudável conversa com os meus amigos mosqueteiros e, aí, vou até eles. Recupero, então, o tempo perdido.

É o Aramis – o que demonstra ser galanteador, faz bom uso da palavra, com astúcia e perspicácia, sem exageros; às vezes, ensimesmado, revela-se mais audição que fala – quem me insere no bando, ou melhor, quem me oferece um lugar no banco, entre ele e o Athos que, tão logo me acomodo, apresenta-me a seguinte questão:

– Lembrei-me de você ontem, professor. [Quando o assunto diz respeito à gramática da língua portuguesa, é assim que eles me tratam.]. A minha neta é concurseira; prepara-se para mais um certame nacional, aspirando a uma vaga no serviço público federal. Pois bem. Ela questionou o que lhe houvera ensinado o professor do Cursinho sobre a concordância verbal com a expressão “um dos que”, para quem, nesse caso, é correto tanto o emprego do verbo no singular quanto o uso no plural. O que você diz sobre isso, mestre?

– A meu estrito saber, amigo, só depois do rigoroso e conservador Napoleão de Almeida, por incrível que pareça, é que os gramáticos deram um pouco de clareza à dupla sintaxe de concordância em casos do gênero. Com efeito, explicitaram que o uso do verbo da oração adjetiva sequente à referida expressão – “um dos que” – no singular ou plural não ocorre por puro diletantismo, ao bel-prazer do usuário da língua. O sentido que se pretende dar à expressão é o que vai, regra geral, definir a pessoa do verbo; assim, quando a ação se revela individual (“um”), usa-se o singular; quando a ação se revela coletiva (“dos que”), emprega-se o plural. Bechara rotula de “seletivo” o “um” que impõe o verbo no singular em casos específicos. – Escrevo na borda superior da primeira página do jornal que conduzo comigo: “O Cocó é um dos rios cearenses que atravessa Fortaleza”, destacando os elementos envolvidos na questão. Então observo: – Vejam os senhores que, no caso, o Cocó é único em relação à ação expressa no verbo: de todos os rios cearenses, apenas ele cruza a capital; assim, verbo necessariamente no singular. – Ainda usando a borda superior do jornal, cito outro exemplo: “Foi um dos teus filhos que jantou ontem comigo”. E leciono: – Perceberam o uso inafastável do verbo no singular? Dos filhos do outro, um e apenas um jantou com ele. Temos, aí, o “um” seletivo, de ação individual. Agora, verifiquem esta frase (E mais uma vez uso o jornal como material de apoio): “Um dos homens que deviam hoje estar tristes, eras tu”. A ação verbal, no caso, é de natureza coletiva (“dos homens”), enquanto o individual se manifesta na pessoa do verbo ser (“tu”); portanto, verbo no plural. Ficou claro, pupilos meus?

– Quer dizer que quem define é o sentido, certo? – Essa é a voz de Aramis.

– Isso. Principalmente nos tempos atuais, quando a palavra em uso constitui o elemento basilar do entendimento da língua; em outros termos, quando as questões de concursos, certames e exames priorizam a interpretação textual, em detrimento do rigorismo das normas, do emprego escorreito das regras gramaticais, como ocorria no passado.

– Você se considera um plantão gramatical ambulante? – Indaga-me o divertido e espirituoso Porthos.

– Não. Não tenho a menor afinidade com isso. Dificilmente me procuram, me consultam. Não sei bem se é porque a Gramática perdeu muito em importância ou se a facilidade da pesquisa virtual tornou esquecidos os que se arvoram de entendidos da língua pátria. – Como me considero um contador de histórias, não tão exímio quanto o meu vô Francisco, logo introduzi na conversa um fato tido por mim muito interessante. – Um dia, amigos, o telefone da minha mesa de trabalho tocou. De pronto, atendi. Era um colega de Bacen que, na oportunidade, coordenava um grupo de trabalho na Delegacia de Belo Horizonte. Pediu-me ele que esclarecesse a dúvida surgida em parecer assinado por analista do grupo, que defendia como correto o uso da expressão “Tratam-se de processos sobre a intervenção na instituição financeira…” Com a minha autorização, colocou-me no “viva voz”. – Após grafar tal segmento de frase no meu eventual material de apoio, sob os olhares curiosos dos amigos mosqueteiros, recuperei, apesar da memória já desgastada pelo tempo, a explicação então oferecida por telefone aos meus colegas de labuta. – Nesse fragmento de frase, escrito dessa forma, verifica-se o fenômeno da contaminação. A proximidade da palavra “processos”, assim no plural, suscita a admissibilidade do verbo no plural. Ledo engano. Ocorre que temos aí um caso de pronome “se” na função de índice de indeterminação do sujeito. Ou seja, o sujeito existe, embora não se possa determiná-lo. Conclui-se, em face disso, que o verbo tem de necessariamente ser flexionado na terceira pessoa do singular. E por que “processos” não pode, na frase dada, ser o sujeito do verbo “tratar”? Eis uma questão que bem poderiam vocês levantar. E eu complementaria: a presença da preposição “de” impede, decisivamente, que isso ocorra. Trata-se, pois, de complemento verbal, regido pelo verbo, em função secundária.

– E haveria uma outra forma de dizer a mesma coisa? – Quem intervém é Athos.

– Sim. – Reescrevo na mesma folha do jornal o segmento frasal em análise: “Tratam os processos da intervenção na instituição financeira…” – E aí teríamos o verbo (“tratam”) concordando em número e pessoa com o núcleo do sujeito (“processos”).

– Essa língua portuguesa…! – Desdenha o vaidoso Porthos.

– A língua não! A gramática sim! – Rechaça com firmeza o sensível Athos. – A bem da verdade, aqui nós nos entendemos muito bem em pura e legítima língua portuguesa. Que os registros oficiais e as falas e os discursos formais observem os rigores gramaticais!

– Embora não possamos negar, senhores, que a gramática é inerente à língua… qualquer língua. – Advirto-os. – E que ela cumpra apenas o seu papel… importante, necessário, enfim.

– Permitam-me mudar o rumo desta conversa. – É Aramis quem interfere no andar da carruagem. – D’Artagnan, amigos meus, estive recentemente participando de um evento familiar. Bodas não-sei-de-que de uma irmã muito querida e, aqui pra nós, muito paciente; afinal, aturar aquele que se diz marido dela, só com muita paciência, calma e compreensão. Diz ela que é amor. Razão tem o poeta: ela rima amor e dor. Pois bem. Tive o desprazer de cruzar com um contraparente, declaradamente antipetista, crítico ferrenho do lulismo e, obviamente, seguidor – e defensor – incorrigível e inabalável de quem considera ser um “mito”, o salvador da pátria, a quem só se refere pelo cognome “O capitão”. Ele me trata como se eu estivesse sempre no outro polo de tudo o que ele defende e professa. Ou seja, sou seu antagonista, por ele escolhido como tal. Mais parecendo um seguidor da Jihad islâmica fazendo valer o poder destrutivo da metralhadora que cospe fogo e verte sangue, ele me atordoou com questões várias, todas de seu exclusivo interesse, obviamente. Pedi desculpas e saí pela tangente. Agora, muito apreciaria ouvir de cada um de vocês o que pensam a respeito de três delas. A primeira, dirijo ao “gigante bondoso”, a você, ó diletante Porthos.

– Sou todo ouvidos…

– Na condição de presidente da República, você indicaria um de seus filhos para chefiar a embaixada do Brasil em Washington? E por quê?

– Sim, ó intimorato guardião! Isso eu faria. Desde que ele atendesse plenamente a todos, sem a mais mínima e simplória exceção, todos os requisitos que o cargo requer. O fato de ser filho do presidente, igualmente ao de saber preparar um saboroso e substancioso hamburguer, não seria sequer lembrado no processo de escolha. Acima de tudo e de todos, a meritocracia.

– A segunda, destino ao “coração do grupo”, a você, ó respeitável Athos.

– E eu o agraciarei com a mais criteriosa das respostas.

– Estou certo disso. Também na condição de presidente da República, você sugeriria a membro da Suprema Corte a suspensão de procedimentos investigatórios em curso, caso um filho seu se incluísse no rol de suspeito em algum deles? E por quê?

– Não, ó destemido guardião! Isso jamais faria. Por dois motivos pra mim cruciais, essenciais. É regra pétrea inscrita na Carta Magna vigente a que impõe que devem os três poderes legitimamente constituídos ser independentes e harmônicos, interferindo uns nos outros tão-somente para assegurar as garantias constitucionais e estabelecer o equilíbrio entre eles, não se admitindo abusos de qualquer ordem. E eu sou um fiel cumpridor de normas. Sou um obstinado defensor da lei. Também fiz ser regra pétrea em todo o processo de criação e educação dos meus filhos a rigorosa observância a princípios éticos, o pleno cumprimento de valores por mim considerados fundamentais para a formação do indivíduo, do cidadão, entre eles o respeito, a honra, a honestidade. Daí a convicção de que jamais pairaria sobre eles – os meus filhos muito amados – a mais mínima das suspeitas de desvios comportamentais. Não nos atrai a riqueza por vias tortas, por portas de travessa. A eles disse e ainda digo: nada façam de que possam vir a arrepender-se. Não permitam que os seus sonhos vivificantes se tornem pesadelos acabrunhantes. Prefiram sempre dormir o sono dos justos.

– A terceira, bem, a terceira eu a reservei, de propósito, para o “cérebro do grupo”. Ela vai pra você, ó estrategista temperamental, meu caro D’Artagnan.

– Seja menos efusivo, ó astuto companheiro de batalhas invisíveis!

– Agora, na condição de eleitor bem esclarecido, crítico ferrenho da polarização exacerbada, do maniqueísmo ilógico, que avaliação faz do “governo do Messias”, como você mesmo costuma rotular?

– Acho, amigo, que preliminarmente cabíveis se tornam alguns esclarecimentos. É o caso, por exemplo, do que significa “maniqueísmo” que, sob o prisma da religião – a meu ver, a mais clara neste aspecto –, trata-se de doutrina segundo a qual o mundo se divide em dois princípios, o bem (Deus e, no caso, o mito ou o barbudo) e o mal (Diabo e, no caso, o barbudo ou o mito). Não cabe uma terceira via: se você não é bolsonarista, tem de ser petista ou lulista. E vice-versa. Os dois polos, então, num antagonismo que beira o bestial, aderem a um processo agressivo, desrespeitoso, verborrágico, usando como suporte as pouco confiáveis redes sociais, que tudo aceitam e que tudo inflamam, afogueiam. Nada de positivo disso se extrai, e, nisso, vocês hão de convir comigo. Oportuno, também, é esclarecer que, numa declaração de não-voto, ainda em plena campanha presidencial, afirmei que não depositaria as minhas parcas esperanças na incompetência sobejamente demonstrada no exercício de outras funções republicanas, afora o contumaz agir de animosidade gratuita, de desvarios inconsequentes, de intervenções censuráveis, sob a proteção da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar. Mesmo aceitando o resultado das urnas como o sublime momento de aprendizado democrático, tenho percebido que, a cada manifestação de poder, o Messias mais robustece a minha tese pré-eleitoral, eis que a incompetência e o afrontamento assumiram o comando da nave à deriva. A liturgia do cargo sofre de recorrentes achincalhes: ele confunde o “eu” boquirroto com o papel singular de líder de um povo, de chefe de uma Nação. Ouvi, há poucos dias, num programa de rádio, um respeitável cientista político assinalar que “Na fala presidencial não cabe tudo, e se torna perigosa quando isso ocorre”. O vocabulário descortês, afrontoso e até insultuoso, aliado à irreverência sarcástica e até aviltante em declarações ou postagens infelizes sobre assuntos de caráter pessoal ou acerca de situações anacrônicas, afetando sensivelmente até líderes de outros povos soberanos, revela a temerária e imprudente falta de consciência do cargo. E o pior: já se torna perceptível a estratégia da reeleição; embora haja quem aposte numa inevitável defenestração. Tudo é só uma questão de tempo. Eu me arrisco a dizer que, se Trump tem-se mostrado isolacionista, por sua desastrosa atuação no comando da mais poderosa e rica nação do mundo, o Messias tem sido divisionista, por estimular o antagonismo político e a polarização do povo, cuja unificação se lhe impõe como dever inalienável. Afinal, as urnas não o ungiram como presidente apenas dos que nele votaram, mas sim de todos nós, queiramos ou não. As atitudes de Messias se revestem, infelizmente, de imensuráveis riscos. E o seu governo sofre, infelizmente para todos nós, de padecimento de credibilidade, que se agudiza mais e mais.

– Você levanta a hipótese da reeleição, nem bem se completou o primeiro ano de um mandato previsto para um quadriênio. – A voz agora pertence a Athos. – Que tipo de perfil você traçaria para um presidente ideal em fase tão crucial de nossa história?

– Costumo dizer, mosqueteiro amigo, que, na condição de eleitor comum, embora responsável pelos atos que cometo, votaria num candidato que se apresentasse com três qualidades, as quais considero fundamentais: o carisma mais que reconhecido em Lula; o conhecimento e a inteligência que aparenta ter o Ciro; e o espírito de estadista – equivalendo a dizer tirocínio, habilidade e discernimento – somente encontrável em… em quem mesmo?! Ah, nos saudosos cearenses Castelo Branco e Virgílio Távora.

Por alguns instantes, um silêncio ensurdecedor envolveu os quatro amigos. Um beija-flor fez vibrar nervosamente suas agílimas asinhas, num gozo indescritível ao sugar o pólen de uma solícita e solitária flor amarela de um renitente girassol. Quando retornaram do ligeiro acabrunhamento, o Aramis achou por bem cutucar a onça com vara curta:

– E aí Porthos, se você exercesse alguma influência sobre o presidente, que conselho você a ele daria?

– Cala a boca, Magda!

Depois de boas gargalhadas, o futebol passou a nortear toda a conversa. Agora, adivinhem, prescientes leitoras e leitores, sobre o que mais eles discutiram. Oh, isso mesmo! O famigerado VAR ou o atabalhoado árbitro de vídeo. Mas isso fica para um outro momento. Por hoje, é só. Já fui além do que devia.

E que os meus cotovelos descansem, enfim.

“Aquilo que sai da boca provém do coração, e é isso o que mancha o homem.” (Mateus, 15: 18).

 

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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