CONTOS DE NATAL – Em perspectivas distintas

“Escritor é aquele sujeito que escreve com dificuldade; quem escreve com facilidade é orador. A ambição da palavra escrita é permanecer; o pseudo escritor escreve nos anais diáfanos do vento.” (Autran Dourado, em Breve manual de Estilo e Romance).

 

I.

Donana abandonara os seus afazeres domésticos, confiara-os à primogênita filha – Isabela ou simplesmente Belinha –, já bem encaminhada no ofício de prendas do lar, incluindo o hábil e competente manuseio da máquina de costura, além do manejo das agulhas de tricô e crochê, e, com a aquiescência do marido, o marceneiro Quinzinho, dedicava-se, há quase um mês, ao prestimoso acompanhamento das últimas semanas do período gestacional da filha mais nova – Mariana –, estreante em tão marcante, expressiva e transformadora vivência, com o propósito de alongar a sua permanência por todo o resguardo da então inexperiente mãe.

Manhã de sábado. Véspera de Natal. Mariana, levantou-se com cara de quem comeu e não gostou, o bucho pela goela. – Será uma meninona! – observou a avó, também marinheira de primeira viagem. – E que venha saudável! – complementou o pai, o jovem Josenias, requisitado artífice, especialista na produção de móveis sob encomenda, que já retornara da feira semanal. E os dois conduziram a gestante, em passadas lentas, gestos cuidadosos, até o único banheiro que, naquela singela e aconchegante casa, ficava entre a sala de jantar e a cozinha, com entrada pelo curto corredor que ligava os dois cômodos.

Após o asseio corporal, incluindo o relaxante banho com sais – essência de alfazema –, a que se seguiu a reconfortante remoção de resíduos com água morna, a gestante, vestida em camisola de cambraia de algodão, leve e transparente, sentou-se à mesa posta para o que seria para ela, apesar do adiantado da hora, o café da manhã ou, mais apropriadamente, o desjejum, tudo preparado com muito esmero pela proficiente e dedicada Donana. E ali estavam, à disposição de Mariana, além das garrafas térmicas com café e leite, porções de torradas, de bolachas, de pãezinhos caseiros amanteigados, uma pequena terrina com ovos misturados, uma travessa de inox com nacos de mamão descascado, uma jarra de suco de maracujá e dois cestos de vime com maçãs e peras. O marido sentou-se ao lado, demonstrando que com a mulher compartilharia aquele abastoso repasto; na verdade, bem outras eram as suas intenções – estímulo, proteção, parceria. A mãe retornou à cozinha, onde dava encaminhamento ao almoço.

Mariana sorveu meio copo de suco, comeu dois pãezinhos entremeados de ovos misturados, olhou com algum interesse para as torradas, mas optou pelo mamão. Puxou para perto de si um prato de sobremesa e escolheu um talher: faca na mão direita e garfo na esquerda. Levantou-se bruscamente para alcançar a travessa com nacos de mamão, empurrou a cadeira para trás com um forte movimento das pernas, tropeçou, sentiu falsear uma delas, desequilibrou-se, tentou apoiar-se na mesa – debalde! – e caiu pesadamente no chão. O marido, depois de tentar sem sucesso evitar a queda, agiu rapidamente no oferecimento de socorro. Donana, ao ouvir o baque surdo seguido de um grito abafado – Ai! –, largou o que fazia e, indagando com preocupação – O que aconteceu?! –, logo acudiu a filha, ajudando o genro a reerguê-la, conduzi-la até a sala de estar e acomodá-la no confortável sofá de três lugares. E Mariana insistia em acalmá-los:

– Não foi nada demais, gente! Estou bem, mãe! Foi só um susto!

Quando ela começou a girar entre as mãos os longos e negros cabelos, como se pretendesse fazer um cocó no alto da cabeça, Josenias percebeu que o garfo pendulava levemente ao lado do rosto da mulher, preso por três dos quatro dentes que rasamente perfuraram o trago, aquela “pequena saliência à entrada do ouvido externo que se cobre de pelos na idade avançada”. Pedindo calma – Não é nada grave. Eu vou dar um jeito nisso. Mantenha-se tranquila! –, recorreu à maleta de primeiros socorros, mantida sobre o tampo do criado mudo da cama de casal, umedeceu um chumaço de algodão com água oxigenada e, cautelosamente, removeu o utensílio de mesa, percebendo não haver gravidade aparente no ferimento, sem sangramento – certamente por se tratar de cartilagem, sem vasos sanguíneos –, e avaliando em silêncio o iminente risco de perfuração do olho. Em pensamento, assentiu: Deus é mesmo muito generoso! Sentou-se no outro lado do sofá, instou a mulher a deitar-se e apoiar a cabeça em seu colo. Afagou os cabelos da amada, beijou-lhe a testa, acariciou o volumoso ventre e desfrutou, de olhos semicerrados, o prazer de sentir a filha mover-se na bolha aquosa. E o silêncio e a calmaria preencheram todos os cantos e recantos da agora tranquila moradia.

 

 

II.

Marialva, filha única, perdera os pais ainda criança. Acolheu-a um tio que, passados alguns meses de insossa convivência, passou a maltratá-la, submetendo-a a injustos e impiedosos castigos. Suportava-os por medo do pior e por não ter a quem recorrer. Tão logo atingiu a pré-adolescência, ele tentou molestá-la. Ela conseguiu escapar das garras do covarde animal. E fugiu. Sem rumo. Embora decidida a não mais pôr os pés naquele casebre.

Não demorou muito, juntou-se a um grupo de pré-adolescentes marginalizados. E virou moradora de rua. Até adaptar-se à crueza do abandono, do descaso, da desesperança, sofreu muito. Aprendeu, quase sempre por imposição da necessidade, sem a exata noção dos riscos a que se expunha, tudo o que pudesse assegurar-lhe a sobrevivência; de um jeito sofrido, deplorável até. Enfrentou a polícia – escapuliu algumas vezes, apanhou de cassetete em outras. Viveu momentos tristes, enfadonhos e depressivos, reclusa em casas de ressocialização. Até a alma enfureceu-se.

Nunca se preocupou em saber por que aceitara Josenildo, um jovem catador de recicláveis, em sua inditosa vida. Nunca experimentara qualquer forma de amor, nem sentira qualquer tipo de atração por quem quer que fosse. Era, até por ignorância, imune a paixões. Tinha a alma embrutecida, o que se revelava no rosto de amuos, de arrufos, de angústia. Entretanto, aceitou compartilhar com ele o barraco de tábuas e papelão, montado sob um viaduto, e até deitar-se com ele sobre um velho, puído e surrado colchão, estendido no chão irregular e declivoso de sua pobre moradia. Com pouco tempo de convivência, percebeu que o companheiro não gostava de criança; e o pior: não admitia, em hipótese alguma, a paternidade. Ele até a advertira: Não quero pôr ninguém nesse meu mundo miserável. Para sofrer, eu já me basto. Portanto, nada de gravidez! Cuide-se! Não sei como, mas cuide-se!

A maior sensação de enfado, de cansaço, os enjoos, as tonturas, tudo isso enfeixado pela suspensão da, no seu caso, irritante e incapacitante menstruação, eram sintomas do natural engravidamento que, para a sua infelicidade, tornou-se perceptível tão logo o ventre começou a ganhar volume. Por um tempo, conseguiu encobrir a prenhez, só que Josenildo, tão logo viu a desconfiança tornar-se realidade, irritado e grosseiro, não se sensibilizou aos rogos de Marialva, expulsando-a do seu pobre barraco e da sua inexpressiva vida.

Voltou, então, a ser moradora de rua. Agora, porém, em condições de maior complexidade, o que tornava a luta pela sobrevivência mais exigente, bem mais sofrida e difícil.

 

 

III.

Quando Donana perguntou se podia servir o almoço, a filha, aparentemente adormecida, a cabeça ainda acomodada no colo do marido, reagiu, já retomando a posição de sentada:

– Mãe, eu estou sem fome. Não quero comer nada.

– Nem uma sopinha de legumes e verduras?

– Não. Nada. Nada mesmo. Por favor, mãe, sirva o Josenias. O coitado nada comeu no café, por causa do meu destrambelho. Sirva-se a senhora também.

O marido espantou-se ao perceber que se arroxeara a base do trago. Conteve-se, todavia, ante o estado em que se encontrava a mulher. Cuidando para não exprimir a mais mínima das preocupações, revelando calma, perguntou-lhe:

– Amor, você está sentindo alguma coisa?

– Estou, sim. – Ela respondeu de pronto. – Eu acho, ou melhor, tenho certeza de que esta menina (acariciou o próprio ventre) está querendo vir ao mundo de hoje pra amanhã. Espero apenas que ela não me arrebente de dor…

– E o que lhe dá tanta certeza, minha filha? – Quis saber Donana.

– Intuição. Nada mais que intuição, mãe. Cuidem de almoçar. Enquanto isso, vou arrumar as coisas que a gente deve levar pra maternidade. Mais tarde, você me leva, né meu amor?

– Com certeza. Vamos à maternidade, tão logo você esteja pronta, querida.

Genro e sogra sentaram-se à mesa e se serviram – arroz à grega, macarrão com queijo ralado, salada de verduras, fatias de peito de peru assado no forno e suco de abacaxi. Em silêncio, ouviam Mariana em ação no quarto de casal.

Tarde de sábado. Véspera de Natal. Um Classic verde lótus segue normalmente o seu trajeto, cortando longitudinalmente a ora tranquila metrópole. Transporta um jovem casal ao clímax do sonho a dois que em realidade logo vai se tornar, da confirmação do amor que os une, da consagração de ambos pela sagrada vivência da multiplicação. Algo bíblico, simplesmente: “Sede fecundos. Crescei-vos e multiplicai-vos.”

E Donana cuidaria da casa, entre fervorosas preces e obsequiosos pedidos.

 

 

IV.

Ultimamente, Marialva andava bem mais reservada. Pouco conversava com os amigos de infortúnio. Recebera valiosas ajudas de pessoas do bem que a aconselharam a não perpetrar o crime do aborto. Afinal, a criança que carregava no ventre não tinha culpa de nada. Admitia que, nessas ocasiões, raras que fossem, até sentia arrebatamentos de felicidade por saber ser capaz de gerar um filho, de mantê-lo em seu ventre e de… quando percebia a gravidade do ato de parir, de pôr um ser humano no mundo, sem as condições mínimas e necessárias, sofria o crucial abatimento de quem se desencanta com a cruel realidade. Não recuperava a imagem do Josenildo, nem em sonhos ou pesadelos. Não lhe restava mais nada, a não ser chorar. Mas, com muito esforço, jamais se entregava a desesperos.

Sábado à tarde. Véspera de Natal. Para fugir dos pensamentos que em tudo a atormentavam e em nada a apaziguavam, abraçou a velha sacola com seus míseros pertences pessoais e deixou-se perambular por ruas movimentadas, em meio ao agito das compras natalinas. Nada lhe chamou a atenção. Nem o Papai Noel que, à frente de uma concorrida loja, saudava os transeuntes e dava as boas-vindas aos consumidores em potencial. Não se deixou afetar pelo burburinho, pela incontida alegria dos outros. Era como se estivesse anestesiada. Apenas caminhava, sem rumo, sem destino, sem paradas. E a brisa do mar atingiu-lhe frontalmente o rosto, fazendo esvoaçar os descuidados cabelos. E isso a atraiu. Desceu até a praia que, vazia de gente, pareceu, aos seus olhos descrentes, ser só sua. Descalçou-se. Despiu-se. Jogou a roupa sobre a sacola já posta na areia. E, com a sensação de ser a senhora absoluta do mundo, banhou-se naquelas águas salgadas, frias e indóceis. Feito criança, brincou com as ondas que teimavam em ir e voltar. A areia fina parecia fugir sob seus indefesos pés. Equilibrava-se com algum esforço. Assustou-se com um tipo de incômodo diferente, no baixo ventre, a que se seguiu um forte calafrio. Afastou-se ligeiramente das águas, sem o menor escrúpulo quanto à sua nudez, o corpo disforme em razão da gravidez. Vestiu-se. Calçou-se. Abraçou novamente a velha sacola. E retomou a caminhada, agora em direção ao nervosismo das ruas.

Mais adiante, decidiu usufruir da tranquilidade da praça, da sombra das árvores que a guarneciam. Deitou-se, de lado e com algum esforço, ao longo do banco de madeira, apoiando a cabeça na única parceira da atual jornada – a velha sacola. E o cansaço da caminhada, aliado aos efeitos do banho nas águas do mar, fê-la dormir. Tranquilamente.

 

 

V.

Na maternidade, o atendimento demorou um pouco, causando irritação em Mariana. Josenias cuidou de acalmá-la. Quando o plantonista a examinou, concluiu que não se tratava de um caso de risco ou de iminente partejamento que recomendasse a internação. Embora já vencido o período gestacional, não eram ainda perceptíveis os clássicos sinais que antecedem o parto.

Ante a resistência do casal, o médico revelou, com didática e paciência, a crucial situação em que aquela unidade de saúde se encontrava no momento: alto índice de demanda por leito, o que já superava em mais de 20% a capacidade de oferta; reduzido quadro de profissionais em atendimento, em face dos festejos natalinos; decisão administrativa de só acolher pacientes em estado grave ou que precisasse de atendimento de urgência. Assim, o aconselhável, ou melhor, o recomendável era que o casal retornasse à casa deles e ali aguardasse o momento oportuno, que reclamasse a intervenção de profissional da saúde.

Em silêncio, caminharam lado a lado até o estacionamento.

Tão logo se sentiu acomodada no banco de trás do Classic, Mariana não se conteve:

– Josenias, meu amor. Eu insisto em que vou parir no mais tardar amanhã. Acho muito arriscado – me perdoe, por favor! – a gente atravessar toda a cidade de novo para – sei lá! – de noite ou de madrugada refazer todo o trajeto, sob maior tensão em meio a uma cidade em festas. O que você acha disso?

– Você está coberta de razão, meu amor. Mas nós não temos aqui por perto um parente, um amigo, um conhecido, que pudesse nos acolher. Me dê um tempo. Deixe-me avaliar a situação.

E ele andou pensativo por entre os muitos automóveis ali estacionados. De repente, ao ver a enorme placa – luminosa à noite – na parte frontal de uma peculiar edificação, brotou-lhe na mente uma ideia salvadora, a seu ver. Retornou rapidamente ao carro, onde a mulher pacientemente o esperava. Sentou-se ao lado dela e expôs a sua proposta:

– Querida, nós vamos pernoitar num motel. – E antes que Mariana dissesse alguma coisa, prosseguiu confiante. – Bem aqui (apontou para o outro lado da avenida, para um ponto quase em frente ao hospital e maternidade), está a solução para o nosso problema. Fica a poucos metros daqui, em qualquer momento o acesso será bem mais fácil. Pense no conforto, Mariana! A gente aluga um apartamento…

– Aceito, Josenias. Vamos ao motel, meu amor! Vamos relembrar a nossa lua de mel…

E, na confortável tranquilidade de uma espaçosa suíte, com ar condicionado, ducha de água quente, cama redonda, teto espelhado, frigobar, tevê a cabo, escrivaninha e poltrona reclinável, o jovem casal albergou-se.

E já era sábado à noite. Véspera de Natal.

 

 

VI.

O agora intenso trânsito, com motores barulhentos e buzinas estridentes, além das conversas das pessoas que se movimentavam pelas calçadas da praça, tudo isso despertou Marialva, interrompendo um sonho em que ela se negava a adorar um lindo menino agasalhado em singela manjedoura, iluminada pelo brilho tremeluzente de muitas estrelas. Ao sentar-se sentiu, mais uma vez, o mesmo incômodo que a assustara, ainda desnuda, com as águas do mar pela volumosa cintura. Surpreendeu-a a sensação de que poderia parir ainda naquela noite. O “onde?” atormentou-lhe o espírito. Logo se acalmou: sem ter pra onde ir, podia despejar aquele fardo – que só sofrimento e dor lhe causara nesses últimos longos meses – em qualquer lugar, inclusive ali… para, com certeza, o espanto de quantos passassem por ali no exato instante do despejamento. Experimentou, então, um misto de ódio pela inexpressividade da sua existência e pena pela criatura que, em suas entranhas, teimava em viver, sem saber que, ao nascer, não teria sequer um retalho de pano para servir-lhe de agasalho. Se sobrevivesse aos primeiros infortúnios, seria certamente mais um infeliz a perambular por este mundo tão cruel.

Levantou-se, pôs a sacola debaixo do braço e… resistiu bravamente à primeira pontada, uma estocada brutal no baixo ventre. E Marialva, que ainda nem percebera quão iluminada estava toda a cidade, viu acender-se a luz da advertência. Concluiu: É hoje! Respirou profundamente. Deu uma volta em torno da praça, tentando organizar minimamente as ideias. Pensou em pedir ajuda aos céus. Desconsiderou essa possibilidade por dois motivos: não sabia como fazer… nunca fizera; desconfiava que os céus não a ouviriam… nunca ouviram. Lembrou-se de que, um dia, ainda no começo da gestação, chegou a estar na entrada de um hospital… uma parceira de rua a acompanhava… as duas não tiveram coragem suficiente para meter-se na confusão de gente, cadeiras de roda, macas. E não ficava muito longe daquela praça. Então decidiu: Eu vou até lá! Se a minha sina é perder sempre, por que não arriscar?!

No trajeto, mais uma contração, uma pontada tão forte e intensa que a fez sentar-se na calçada, recostada na porta envidraçada e iluminada de uma agência bancária, como um boxeador em pré-nocaute. Recomposta, readquiriu forças para retomar a caminhada. Extenuada, após algumas horas de estirada, ei-la, novamente, diante da entrada do hospital e maternidade. Na área de atendimento, a pouca movimentação encorajou-a a entrar e tentar alguma ajuda. Em vão. Orientaram-na, entretanto, a procurar uma unidade de pronto atendimento, porquanto nada ali podiam fazer por ela, até porque já enfrentavam uma superlotação. Retornou à calçada. Extasiou-se diante de uma árvore de Natal gigante, com incontáveis e multicores luzinhas que mais pareciam um enorme contingente de pirilampos, erguida na esquina do quarteirão, no estacionamento da loja de material de construção, cuja frente fazia correspondência com a do hospital. Na outra esquina, a placa luminosa, em que predominava a cor vermelha, indicava tratar-se de um motel. Entre as duas edificações bem peculiares, o muro de um terreno baldio.

Marialva vislumbrou a presença de um segurança, sentado bem à frente da porta estreita que, certamente, dava acesso ao pavimento superior da loja. Atravessou a avenida, aproximou-se dele e, depois de desejar-lhe boa noite, perguntou se poderia arranjar-lhe uns pedaços de papelão. Ele ofereceu um copinho de café que ela sorveu prazerosamente. Ato contínuo, atendeu o pedido dela, sob a promessa de que não usaria, para tanto, a calçada sob seus cuidados. Agradecida, despediu-se dele e seguiu em direção à entrada do motel. Ao passar em frente ao terreno baldio, percebeu haver um buraco na base do muro, com embocadura que permitia a passagem de uma pessoa de estatura mediana. Enfiou a cabeça nele e, com a ajuda da prateada luz da lua cheia, verificou que se tratava de um ótimo lugar para a execução do seu plano, naquele exato momento pensado e arquitetado. Adentrou aquele ambiente aparentemente abandonado, nada hostil, portando a velha sacola e os pedaços de papelão. Divisou, à sua direita, uma moita. E foi ali, entre a moita e o muro, que Marialva preparou o lugar em que daria à luz o indesejável filho.

 

 

VII.

Na suíte do motel, Mariana pediu ao marido que ajustasse o ar condicionado, ao ponto de proporcionar-lhes o suportável clima ameno. Nunca se adaptara a frios muito intensos. Dirigiu-se ao banheiro e, após aliviar-se, banhou-se demoradamente com água morna. Em seguida e com a ajuda do seu prestimoso homem, deitou-se confortavelmente, puxando o cobertor até à altura dos intumescidos seios. Josenias acomodou-se ao seu lado e, acariciando os longos e negros cabelos, cantou baixinho, como se pretendesse fazer a amada dormir sob o encantamento das cantigas de ninar: Noite feliz, noite feliz / Ó senhor, Deus de amor / Pobrezinho nasceu em Belém / Eis na lapa, Jesus nosso bem / Dorme em paz, ó Jesus / Dorme em paz, ó Jesus. E a mulher até pareceu adormecida.

De repente, um gemido doloroso, aflitivo. Com a ajuda do marido, a mulher sentou-se no meio da cama, apoiada nos braços retesados em forma de alavanca, os punhos cerrados servindo de base, a cabeça erguida, o olhar fixo no teto, a inspiração pelas narinas com sofreguidão, a expiração lenta pela boca arredondada, em repetidas vezes, sob o zeloso acompanhamento do devotado parceiro. Tão logo a lancinante dor se foi, Mariana assinalou: E a brincadeira começou!

Josenias desviou o olhar para o visor do relógio. Mariana indagou-lhe: Que horas são? De pronto, ele respondeu: Faltam quinze para as nove. E ela rematou: A noite vai ser longa!

Com a segunda contração, mais doída e mais longa, a gestante, agora de pé e apoiada no frigobar, revelou-se temerosa quanto à sua capacidade de suportar tamanha dor que certamente voltaria bem mais excruciante. Rogou ao marido que mantivesse contato com a sua ginecologista e obstetra. E foi isso exatamente o que ele fez.

– Alô!

– Boa noite! É a doutora Ângela?

– É sim. Com quem tenho o prazer de falar?

– Doutora, eu sou o Josenias, o marido da Mariana, a parturiente da senhora.

– Sei, sei. E como ela está?

– Em trabalho de parto. Já sofreu duas contrações. A última muito forte. Ela acha que não vai suportar…

– E onde vocês estão? Ainda em casa ou já na maternidade?

– A senhora não vai acreditar. A maternidade, hoje à tarde, estava com superlotação. O médico que nos atendeu, achou melhor que nós retornássemos à nossa casa. Só que a gente mora do outro lado da cidade, são uns vinte e poucos quilômetros de viagem.

– Então, estão na casa de algum parente?

– Não, senhora. Nós estamos num quarto de motel…

– O quê?! Motel?! Eu ouvi bem?

– Pois é, doutora. É este que fica aqui, quase em frente ao hospital…

– Avaliando bem, um quarto de motel é bem mais confortável que uma maca no corredor de um hospital. É o seguinte: o meu plantão está se encerrando. Logo, logo, não vou gastar mais do que vinte minutos, a menos que o trânsito… Você entende… Noite de Natal… Eu chego já aí.

– Que bom, doutora! A senhora é uma santa…

– Não me veja assim! Ah, cuide bem da sua mulher. Nessas horas, valem muito um bom psicólogo e um exímio massagista. Tente ser um deles. Ou os dois.

– Vou tentar…

– Até já!

– Até!

Mariana, irrequieta, aborrecida, perambulava pelo quarto, ingeria uns poucos goles de água, ia ao banheiro, aliviava-se, voltava pra junto do marido, recebia os recorrentes afagos, trocavam juras de amor [– Nunca se esqueça: é até que a morte nos separe!Não falemos de morte numa hora dessas, amor!Mas eu falo é de vida, meu anjo!]. E o tempo, o inexorável e irredutível tempo, parecia não passar.

E veio mais uma contração. A mulher sentia que lhe rasgavam o baixo ventre, o púbis, a pélvis. Contorceu-se como pôde. Gemeu, chorou, assoprou milhares de velas que teimavam em não apagar. Arriou o corpo nos braços do parceiro que, com jeito e delicadeza, acomodou-a na cama, sussurrando ao ouvido algumas palavras de apaziguamento e outras de estimulação. Mariana semicerrou os olhos e acalmou-se. Josenias acariciou o ventre da mulher, massageou a região pubiana, enquanto beijava, repetidas vezes, a testa da amada.

 

 

VIII.

A poucos metros dali, entre uma moita e o muro de um terreno baldio, sob a frágil e romântica luz prateada da lua, outra gestante ultimava os preparativos para a sua miserável estreia como parturiente. Marialva, antes de deitar-se na sua cama improvisada – o chão duro recoberto com papelão –, ainda encontrou forças para ir até a entrada do motel, onde pediu [Pelo amor de Deus!, nessas horas por mais ingrato que Ele nos pareça ser, Deus sempre será lembrado!] que lhe dessem um lençol velho ou uma toalha… algo que pudesse protegê-la do frio da noite, no meio da rua. Ganhou, como presente natalino, um lençol cheirando a limpo.

Pronto. Tudo estava pronto.

Ela, completamente desnudada – corpo e espírito –, estava preparada para o desfecho daquele desditoso drama, em que, na condição de protagonista, desempenhava muito bem o papel que a Vida lhe reservara.

Deitada, viu, por entre as folhas dos arbustos que lhe serviam de teto, a lua soberana a vaguear lentamente por um céu límpido, desprovido de nuvens, ornado belamente com algumas cintilantes estrelas. E meditou: Qual delas será a de Belém? Suportou bravamente as dores, o rasgar das entranhas. Um gemido dolente, magoado e queixoso escapou por entre as frestas da maltratada arcada dentária. Uma lágrima incontida escorreu pela lateral do rosto, certamente sendo absorvida pelo papelão. Um líquido morno escorreu por entre as coxas. E o pensamento voou, levando com ele, para bem longe, o sentimento que um dia lhe nutrira a alma. [Josenildo, por onde você anda, desgraçado?! Olha o que você fez comigo!]. Quis sentir ódio. Não conseguiu. Agarrou-se à sua vã filosofia de vida: “O que tem de ser, será!”. E foi.

E a hora chegou. De cócoras, as pernas abertas no limite, Marialva portou-se como uma veterana. Suou. Gemeu. Usou de forças que jamais imaginara ter. O esfíncter vaginal atingiu a sua abertura máxima. Mais suor. Mais gemido. Mais força. E o alívio. E as entranhas de Marialva “expeliram” o que lhe preenchia e avolumava o ventre. Sentiu um prazer repentino. O prazer do descanso. Ouviu um choro frágil, volátil. Levantou-se. Evitou olhar para o “despejo”. Rasgou ao meio o lençol que lhe deram de presente. Uma das metades jogou sobre os arbustos; a outra, vestiu-a como se fosse uma fralda. Recompôs-se. Pegou a sua velha parceira de aventura – a surrada sacola – e, imune a dores e desconfortos do pós-parto, a choros pueris, largou tudo – o filho (Um homenzinho!), a placenta, o cordão umbilical –, os restos dela e de Josenildo, fruto de um amor fortuito, acidental e sem futuro, saiu à avenida e evaporou-se.

E já era madrugada de domingo. Já era Natal.

 

 

IX.

Um Corola branco perolizado adentra o estacionamento externo do hospital e maternidade; o sistema de controle registra: 24.12 / 23:17. Quem o conduz não encontra dificuldades para estacioná-lo; quase vazio, as vagas se oferecem. Dele desce uma jovem e bela mulher, destemida, decidida e proficiente. É a doutora Ângela, ginecologista e obstetra e professora universitária. Em passadas firmes e rápidas, ela se dirige ao setor de atendimento do hospital. Requisita formalmente o acompanhamento da enfermeira Madalena, a Madá, que há pouco iniciara o seu plantão, dado por ela antes confirmado através de contato pelo celular com a própria. E as duas, com as respectivas maletas de instrumentos, seguem a pé até o motel, em cuja entrada se identificam e justificam, para o espanto da jovem atendente, o motivo de tão inusitada visita.

– Suíte 205, é isso?

– Sim, doutora. A segunda rua, à direita. Eu vou já interfonar para lá, avisando que as senhoras estão chegando.

– Obrigada, filha!

E lá estavam, na suíte 205, a doutora Ângela (de Angelus, anjo, angelical), a enfermeira Madá, o nervoso pai e a sofrida mãe.

– E aí, como está a minha parturiente, hein, senhor Josenias?

– Sofrendo, doutora! E muito!

– Ser mãe é sofrer no paraíso, já dizia o poeta… ou seria o filósofo… esse detalhe não importa muito. Bom, agora, quem cuida dela sou eu, ou melhor, somos nós, não é isso, Madá?

– É sim, doutora.

– O jovem pai vai querer acompanhar a parceira nesta aventura? Tem tutano pra isso?

– Não, doutora. Eu prefiro sofrer ao longe…

– Sendo assim, conto, a partir de agora, com a sua ausência. Por favor.

E Josenias, após beijar levemente o rosto da mulher, retirou-se do quarto, ouvindo atento a observação da médica:

– Qualquer coisa, eu o chamo pelo celular, ok?

– Certo, doutora.

E a médica, com o auxílio da enfermeira, iniciou os procedimentos visando a dar à futura mamãe o máximo de conforto ou o menor sofrimento possível. Logo verificou que não se tratava de parto de risco, mas também não seria de total tranquilidade. A competência e a experiência que detinha seriam, mais uma vez, postas à prova. Gostava disso. Isso a estimulava.

Num momento de calmaria, ajustou o ar condicionado para baixar um pouco a temperatura ambiente, sentou-se ao lado da cama, onde Mariana recebia os cuidados profissionais de Madá, e ligou para o celular do marido que, ao atender, já lhe foi perguntando:

– Onde você está, filha? Ainda no plantão ou já foi pra casa?

– Ângelo (ele também se chamava Ângelo), amor, você não faz a menor ideia de onde estou agora. Exatamente, numa suíte de motel…

– O quê?! Onde?!

– Calma, garoto! Não pense bobagem. Estou aqui como profissional dedicada, assistindo uma parturiente que está a poucas horas de se tornar mãe pela primeira vez. E é exatamente por isso que estou ligando pra você. Como se trata de um caso sui generis, pra não dizer surreal, eu vou precisar de um pediatra, no caso você, e também de um futuroso empresário, no caso também você.

– Entendi. Eu estava indo pra casa, depois de um plantão daqueles, com o intuito de levá-la ao restaurante que você adora, para um vinhozinho et cetera e tal. Mas vou mudar a minha rota.

– Olhe, preste atenção! O motel é aquele quase em frente ao hospital…

– Sei. Vizinho a um terreno baldio? Logo depois da loja de material de construção?

– Sim. Esse mesmo. A suíte é a 205.

– Ok. Chego já aí.

Quando o doutor Ângelo, pediatra e empresário no ramo de produtos para infantes da primeira idade, adentrou o estacionamento do hospital, o sistema de controle registrou: 25.12 / 00:47. Ao reconhecer o carro da mulher, estacionou o seu Jeep Renegade cinza antique ao lado do dela.

Na calçada, encontrou alguns amigos, parceiros de jornada que, ao término do plantão, dispunham-se a participar, com os familiares, das suas respectivas confraternizações de Natal. Abraços fraternos. Cumprimentos natalinos. Compartilhamentos de desejos saudáveis. Convites. Sorrisos. Alegria. Felicidade.

Passado esse momento festivo, de congraçamento, ele atravessou a avenida deserta, cumprimentou o vigilante da loja que lhe perguntou: Doutor, o senhor quer um cafezinho? Ele agradeceu: Obrigado, amigo! Eu já estourei a minha cota diária de café. Tenha um feliz Natal, irmão! E o homem da segurança concluiu essa rápida conversa: Tenha também um feliz Natal, doutor! Seguiu em direção ao motel. Ao passar pelo muro do terreno baldio, ouviu um som que, de imediato, chamou-lhe a atenção. Choro de criança. Choro de recém-nascido. As vivências levaram-no a pressentir isso. Ali, estático, ouvidos atentos, esperou. E o som se fez mais familiar. Reagiu rapidamente. Vislumbrou o buraco no muro. Enfiou-se ali até quase a metade do corpo. Acendeu a luz da lanterna do celular. Sem muito esforço, atleta que era nas horas vagas, adentrou aquela área inservível. Ouviu novamente o choro. Dirigiu o foco da lanterna para a moita. E lá estava um bebê, esperneando, chorando, lutando inconscientemente pela vida, no mais completo abandono. Pôs em prática, então, os conhecimentos e as vivências de um pediatra competente. Vestiu as luvas. Cortou o cordão umbilical e, ao coto, deu-lhe o clássico nó. Rasgou ao meio a parte do lençol abandonada sobre os arbustos. Limpou aquela indefesa criatura com uma das metades. Com a outra, agasalhou-a como pôde. Recolheu à maleta os instrumentos que usou. Acomodou o recém-nascido num dos braços. Desligou a lanterna do celular. Pegou a maleta. Saiu fazendo o mesmo trajeto que o trouxera até ali. Encaminhou-se a passos largos, torcendo para que ninguém o visse, até o estacionamento do hospital. Colocou o bebê, que se mantinha calado, no assento do banco do carona. Assumiu o comando do carro, manobrou-o, com cautela, até a saída para a avenida e dirigiu-se à entrada do motel.

Ali, após cumprir os formalismos normais, perguntou à atendente, se a suíte 206 estava livre, ao que ela respondeu, com acréscimos:

– Está, sim! Só que, na 205, está acontecendo um fato inédito. Um parto, o senhor acredita?!

– Jovem, nos dias de hoje tudo é possível. Me libere, por favor, a 206.

– Pronto. Estão aqui as chaves. A segunda rua, à direita.

– Ok. Obrigado.

 

 

X.

Logo que assumiu a suíte 206, o doutor Ângelo largou a maleta na escrivaninha, levou o recém-nascido até o banheiro, livrou-o dos trapos com que o envolvera e, com a água da torneira da pia, dispensou-lhe o devido asseio. O choro soou-lhe aos ouvidos como sinal de que tudo estava bem, apesar dos pesares. Era um menino. Um pouco desnutrido, mas aparentemente saudável. Agasalhou-o com lençol limpo e acomodou-o no meio da larga cama. Fez-lhe alguns carinhos. E ele logo adormeceu.

O doutor voltou ao banheiro, tomou um bom banho e, com a toalha envolta na cintura, ligou para o celular da mulher.

– Ângela, como vão as coisas por aí?

– Aqui, tudo vai na mais perfeita ordem. A Mariana já está no descanso do pós-parto. A filha, uma menina robusta, saudável, já repousa entre os seios da mãe. Já estamos, eu e Madá, concluindo a nossa participação neste bem-sucedido evento.

– Que bom! Parabéns, amor!

– E você, por onde anda? Esqueceu completamente o meu pedido. Fez ouvido de mercador. Não apareceu. O que houve?

– Nada disso, meu anjo. Você não tem a menor ideia de onde estou agora.

– Onde?

– Num motel…

– Não acredito. Vai bem dizer que…

– Que estou aqui, bem ao seu lado, na vizinha suíte nº 206. Já tomei banho e, bem, estou aqui à sua espera, amor.

– Ângelo, que brincadeira é essa? Não tem a menor graça…

– Pois agora eu vou lhe falar seriamente. Eu tenho uma novidade: uma história incrível a contar, uma ideia venturosa a lapidar, uma proposta incrível a fazer. O pai da criança já está aí com vocês?

– Está, sim. O que ele tem a ver com essa sua novidade?

– Quando você puder, deixe a mãe e a filha sob os cuidados da enfermeira, da Madá, e venha até aqui com ele. Por telefone, eu não posso dizer mais nada. Venham. Estou esperando. Um beijo e até mais!

– Até!

Olhou obliquamente para o recém-nascido, que dormia tranquilamente, vestiu-se, calçou-se, foi até o frigobar, pegou uma garrafinha de água mineral, jogou todo o conteúdo num copo e, sentado na cadeira da escrivaninha, sorveu o líquido lentamente.

Não demorou muito, acolheu com um beijo na testa a parceira de todos os embates e, com um abraço, o Josenias, o marido da Mariana.

– Sejam bem-vindos!

Trouxe-os até a borda da cama e apresentou-lhes a sua novidade:

– Doutora Ângela, senhor Josenias, eu lhes apresento o menino que, tão logo nasceu, sobre papelões, foi pela mãe abandonado, com cordão umbilical e placenta, numa moita do terreno baldio aí ao lado.

– Meu Deus! – Assim reagiu Josenias.

– Numa noite de Natal! É inacreditável! – E assim reagiu a doutora Ângela.

E o pediatra narrou, com detalhes, toda a experiência por ele vivenciada. Em seguida, expôs a sua ideia:

– Dada a natureza da ocorrência, eu deveria ir a uma delegacia e fazer um boletim. Certamente, a criança seria encaminhada para alguma creche, sei lá! Alguma coisa me diz, porém, que essa criança merece um tratamento mais humano, até para evitar que ele tenha de carregar o fardo da origem para o resto da vida.

– Você e a sua sensibilidade. – Interrompeu a obstetra.

– O fato de eu ser pediatra potencializa isso, doutora. E aí vocês poderiam perguntar: e o que você propõe como solução para o caso? E eu responderia: proponho uma saída demasiadamente humana, o Nietzsche que me perdoe. Prestem bem atenção. Você, doutora, acaba de conduzir um bem-sucedido parto. Mãe e filha saudáveis. A menina nasceu praticamente à mesma hora que o menino.

– Aonde você pretende chegar, Ângelo?! – Novamente quem o interrompeu foi a mulher.

– Se o seu Josenias e a dona Mariana concordarem, nós – eles, eu, você e a Madá – poderemos transformar a história, modificar os fatos, e dois partos, um bem-sucedido, repito, e o outro nem tanto, passariam a ser um só, único, de sucesso.

– Doutor, – eis um Josenias perplexo, indignado, mas respeitoso – o senhor está querendo ou propondo que eu e Mariana assumamos o menino abandonado como se ele fosse gêmeo da nossa filha muito amada? É isso, doutor, ou eu não entendi direito.

– É isso mesmo, Josenias.

– De jeito nenhum, doutor. Eu não tenho coragem nem de falar isso para a minha mulher.

– Calma, amigo. Você não tem a obrigação de aceitar o que proponho. Agora, avalie bem uma coisa. Uma atitude generosa sua, da sua mulher, e esta criança ganhará um inestimável presente de Natal: uma família, sem a marca indelével da adoção e sem burocracia. Pense nisso.

Silêncio. Josenias, de cabeça baixa, não se permite revelar o que sente, o que pensa, o que quer. E a doutora Ângela, meditativa, parece estar apreciando detalhadamente a proposta do marido. Se o conhecia bem – e certamente conhecia –, ele já tinha em mente a jogada definitiva, a do xeque-mate. Era só uma questão de tempo.

– Amigo, eu sei que se trata de uma decisão difícil. E ela não será tomada agora. Há um tempo para pensar, para avaliar… curto, mas há. Eu preciso, agora, apenas de uma sinalização sua. A partir dela, ou eu levo a criança para a delegacia e entrego o destino dela à Justiça ou eu a encaminho para um processo de recuperação nutricional numa unidade semi-intensiva neonatal. O que vocês dizem?

– Ângelo, a Mariana e o Josenias teriam alguma recompensa material, alguma ajuda para a criação do bebê, já que estão preparados apenas para a da filha deles?

– Ângela, você me conhece muito bem. E sabe que sim. Seu Josenias, agora quem está aqui, à sua frente, falando com você, já não é mais o pediatra sensível, demasiadamente humano. Agora, quem faz a proposta é o empresário, um empresário que não visa tão-somente o lucro, mas se preocupa também com o bem-estar das pessoas a quem vende os seus produtos. A nossa empresa elegeu como clientela privativa as crianças na primeira idade: vestuário, alimentação, medicamentos, brinquedos, et cetera. Caso você e a sua mulher acolham a ideia dos gêmeos, acolham esta criança como filho, a nossa empresa fornecerá, até que eles atinjam a idade de três anos, com a possibilidade de extensão até os cinco, tudo o que se fizer necessário, na área em que atuamos, para o saudável crescimento deles. Em contrapartida, vocês nos cederão, com exclusividade, os direitos de uso da imagem e da história deles, no curso da vigência do contrato. Como vocês percebem, o negócio não é assim tão simples que pudesse ser concluído agora. O que o senhor pensa a respeito?

– Doutor, como eu já lhe disse, não se trata de uma coisa muito fácil. É muito difícil, isso sim. Há a verdade que será encoberta agora e não se sabe até quando. Há a questão do ultrassom que revelou a presença de um único feto, do sexo feminino. Há o parto em si. Eu sei que o fato de a minha filha ter nascido numa suíte de motel dá uma boa história, serve muito bem à boa publicidade. E que isso poderia render alguma coisa para nós. Eu compreendo assim. É basicamente isso, doutor.

– Josenias, não pense que eu não avaliei tudo isso. Só que, no meu caso, talvez influenciado por ter sido eu, um pediatra sensível e demasiadamente humano – perdoem-me pela repetição –, em meio às festas de Natal, o “escolhido” para ouvir os primeiros choros de um recém-nascido abandonado pela mãe – coitada dela! –, talvez a singeleza desse fato tenha me influenciado a sobrepor a vida dessa criança às muitas razões para não me meter neste caso. Eu cheguei a pensar em adotá-lo. Só que aí eu teria de revelar a verdade, o que, acreditem-me, não tenho a menor intenção de fazer. Não me parece ser um ato de mentir, apenas de enxergar o fato com outros olhos.

– Eu acho que o senhor está sugerindo que nós – eu, Mariana e a minha filha – também fomos “escolhidos”. Estou certo?

– Olhe, rapaz, eu não havia pensado assim. Embora as circunstâncias apontem nesse sentido. O pediatra que atende o menino abandonado e lhe salva a vida e a obstetra que atende a menina e a encaminha para a vida. E nós somos marido e mulher. Sua filha nasce numa suíte de motel e o menino abandonado nasce num terreno baldio vizinho a este motel. Os dois nascem praticamente no mesmo horário, em plena noite de Natal. Certamente, cumpre-nos considerar todas essas coincidências. Vocês não acham?

O silêncio da obstetra comunica ao pediatra a sua plena aceitação, a sua total concordância. E o jovem pai dá, então, demonstração de que também concorda.

– Doutor, quanto tempo nós temos para responder? Eu preciso conversar com a minha mulher, com a minha família.

– Uns dois ou três dias, não mais que isso. Mas eu advirto, a nossa história só pode ser integralmente conhecida por nós que ora nos encontramos neste motel. Vocês terão de ser convincentes quanto a tornar verdadeira a versão dos gêmeos que, no caso, não serão univitelinos. Mas não se preocupe, nós daremos todo o respaldo ao fato. O que me diz?

Josenias levantou-se, abeirou-se da cama, olhou demoradamente a criança, refletiu um pouco e decidiu:

– Tudo bem, doutor. A minha sinalização é positiva. Por mim, pode adotar as providências necessárias. Logo, logo, eu lhe darei a resposta final.

– E que nos seja favorável, Josenias, para o bem dessa pobre criança.

E ainda era madrugada. Domingo de Natal.

 

 

XI.

Naquele mesmo dia, à noite, o celular do doutor Ângelo tocou. Ele atendeu.

– Doutor Ângelo, é Josenias.

– Tudo bem, amigo?

– Tudo bem. O senhor pode me ouvir?

– Sim. Fique à vontade, rapaz.

– Doutor, nós já estamos em casa.

– Eu já sei, amigo. A doutora Ângela me informou.

– Estou ligando, doutor, pra dizer que aceitamos a sua proposta. Quando o contrato estiver pronto, é só nos avisar.

– Josenias, eu faço questão de ir à sua casa para tratarmos desse assunto em família.

– Será um prazer recebê-lo, doutor. E muito obrigado por ter assumido as despesas com o motel.

– Isso já fez parte do nosso acordo. Diga pra Mariana que, tão logo eu possa dar alta ao filho dela, nós, eu e a doutora Ângela, vamos deixá-lo na casa de vocês.

– A minha sogra, que está aqui em casa cuidando da filha e da neta, ficou preocupada com a desnutrição do neto. Ele corre algum risco… algum risco de…?

– Risco sempre há. Mas diga pra sua sogra que o neto dela é um herói. Vai superar esse problema e logo! Vocês já têm nomes para eles?

– Já, doutor! A menina vai se chamar Maria de Jesus. E o nome do menino vai ser José de Jesus. O Natal, o senhor entende, não é?

– Parabéns pelas escolhas! Nós voltaremos a conversar em breve, jovem.

– Certo, doutor. Dê, por favor, um abraço na doutora Ângela por todos nós.

– Pode considerar já dado. Ah, ela está aqui me pedindo para informar a vocês que já enviou ao seu plano de saúde a papelada referente aos honorários dela e da Madá. E manda um beijo pra Mariana e outro pra… pra Maria de Jesus.

– Vocês são uns anjos que apareceram nas nossas vidas…

– Menos, Josenias! Bem menos!

 

 

XII.

No batismo das crianças, Isabela – ou simplesmente Belinha – e Josevaldo, irmão mais velho de Josenias, apadrinharam a graciosa e simpática Maria de Jesus. E os doutores Ângelo, o pediatra, e Ângela, a ginecologista e obstetra, tornaram-se padrinhos do sisudo e muito querido José de Jesus.

E a família espargia felicidade, sob a proteção e bênçãos da Sagrada Família – Jesus, Maria e José –, o olhar sereno de Donana e Quinzinho, os avós maternos, e a parceria amiga de Ângelo e Ângela, os empresários e, agora, compadres.

 

“Somos imperfeitos, nosso corpo é frágil, a carne é mortal e corruptível. Mas, por isso mesmo, aspiramos a algo que não tenha essa desgraçada precariedade: a algum gênero de beleza que seja perfeita, a um conhecimento que valha para sempre e para todos, a princípios éticos que sejam absolutos.” (Fernando Sábato, em O escritor e seus fantasmas).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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