CONTO DE NATAL

(Cujo fio condutor do enredo, eu o recolhi oniricamente; no sonho, bem recente, eu era o personagem central, o protagonista, o jovem da pele cor de ébano; por isso me senti confortável em dar-lhe a textura que mais me aprouve, mais me agradou. E agora, no limiar de um novo ano, o meu especial Conto de Natal, plenamente construído ao sabor das minhas idiossincrasias, das minhas especificidades, dos meus lampejos de criatividade, eu o lanço ao mundo da leitura através dos pórticos que tão generosamente se me oferecem.

Caros leitora e leitor, juntos faremos uma longa caminhada. Espero que isso não lhes cause cansaço capaz de superar o prazer, o deleite, o arrebatamento.).

 

I.

AFRODESCENDENTE E MEMBRO DE FAMÍLIA DE classe média baixa – o pai, barbeiro, e a mãe, costureira –, moradores de bairro de periferia, em cidade metropolitana no centro-norte baiano, o jovem Jorge Wilkinson sofreu, desde a mais tenra idade, os mais diversos tipos de preconceito, com a cor da pele, como se defeito fosse ou mal incurável e altamente transmissível denunciasse, servindo de motivo absurdo, cruel e desumano para a aversão, o menosprezo e o desamor de pessoas que, sentindo-se privilegiadas, superiores em função da raça, julgam os outros pelas aparências, sem considerar que, sob aquele invólucro díspar, dissemelhante, epidérmico, resultante de herança poligênica com caráter quantitativo – em nada qualitativo, portanto – em função dos genes que o determinam, há sempre um ser humano, um Homo sapiens, uma complexa entidade evolutiva num todo indivisível, com corpo e alma, matéria e espírito, razão e inteligência, que, como qualquer um de nós, foi gerado em ventre materno, nasceu, vive, ama, pensa, sonha, sofre, sorri, chora, reza, erra, acerta, peca, arrepende-se, perdoa, cresce, adolesce, faz, fica adulto, labuta, procria, envelhece e, enfim, morre, fenômenos que, entre outros tão significativos quanto, tornam-no, fundamentalmente, capaz e merecedor de ser tratado como tal.

Já na pré-escola, Jota-Dábliu, dado o monograma tão zelosamente bordado pelas habilidosas mãos maternas, com linha azul no bolso da camisa branca e com linha branca na jaquetinha azul da farda, ou Jotinha, como o chamavam carinhosamente, compunha um grupinho de poucos amigos que, detentores de idênticos perfis raciais, eram submetidos a dissimulado isolacionismo, com raríssimas incursões pelos dos infantes bem apessoados, de pele clara e cabelos lisos, sempre sob a proteção leonina de seus pais racistas. Cresceu assim, marginalizado, num mundo perverso e supremacista. O bom desempenho escolar até minimizava os efeitos da discriminação – Ele é inteligente, competente, mas… Mas o que, criatura?! Infelizmente, é negro! –, embora não o livrasse da inconsequente intransigência dos hipócritas.

Adolescente, só era bem aceito em competições esportivas – o futebol, em especial – porque detinha habilidade que o destacava dos demais, e isso concorria decisivamente para que todos – brancos e negros – se tornassem vitoriosos. Chegava a ser festivamente abraçado quando dos gols que assinalava. Os jovens “sem cor” tratavam assim os “de cor”: no jogo, eram craques; na vida, eram trastes. [Direto ao banheiro! Vá tomar um bom banho… livrar-se dessa sujeira toda… e logo! Pensa que eu não vi você abraçado àquele neguinho metido a besta?]. Em síntese, discriminavam-no na escola, na igreja, na sociedade, no mundo. Até as paqueras e os namoros se cingiam às garotas de tez escura e possuidoras de outros traços próprios da afrodescendência. Pertencer a mesma raça era a senha de acesso. E arriscado sempre seria afrontar essa regra, alargar fronteiras.

Já em idade laboral, com um certificado de técnico em contabilidade em mãos, o que o qualificava com o ensino médio concluído, percorreu um longo, tortuoso e frustrante caminho. Distribuiu inúmeros currículos, participou de incontáveis entrevistas, sempre sentindo na pele o amargor de ser negro. Não desistiu dos seus sonhos, não sucumbiu às vicissitudes da vida, às adversidades, até que alguém o contratou. E o Jota-Dábliu passou a usar uniforme e crachá, ter direito a carteira assinada, salário, vale-refeição, plano de saúde, férias e décimo terceiro, na condição de trocador de ônibus, quando ouviu a voz de estímulo do seu pai: Filho, todo trabalho é honesto! Ganhe o pão com o suor do rosto. Um dia a vida ainda vai lhe sorrir.

Só que o pesado lenho que o obrigavam a carregar no curso da sua via-crúcis se amalgamava na pele cor de ébano, no cabelo crespo, nos lábios grossos, no nariz levemente achatado, no olhar que mesclava resistência e melancolia, determinação e apatia, e isso suscitava um todo irremovível. O modo de vestir-se e o jeito de andar também incomodavam os descoloridos puristas. E, como tudo isso não bastava, não saciava a sede de intransigência, de intolerância de alguns mais biliosos, irritadiços, impingiam-lhe, sem dó e sem piedade, a coroa de espinhos da moralidade discriminatória e o desmereciam com cusparadas de escárnio, de desapreço, de zombaria nas já sofridas faces. Cala a boca, negro! Procura o teu bando, macaco! Quem tu pensas que és, neguinho?!

A justa causa do rompimento de contrato teria decorrido dos avanços tecnológicos que, a rigor, favorecem mais o capital que os indivíduos. Demissão. Desemprego. Sobrou uma réstea de dúvida quanto a ter o racismo contribuído para esse desalentador desfecho.

Negro! Neguinho! Negão! Macaco! Eis algumas das expressões pejorativas com que comumente o tratavam e o fizeram abandonar, com mágoas e ressentimentos, a construção civil, ramo de atividade em que, por algum tempo, trabalhou como servente de pedreiro, sepultando, ali, naquele canteiro de obras, o sonho antes alimentado de contínuo aperfeiçoamento com vistas a ocupar cargos mais elevados, com maior projeção profissional e com rendimentos que lhe garantissem uma vida mais justa, mais venturosa. E, assim, ante mais uma das muitas quedas, teve de reagir, levantar-se, reaver a coragem, e seguir adiante.

Desempregado, mais uma vez, voltou a bater às portas das pessoas e das empresas, julgando-se qualificado para algumas das vagas que o mercado de trabalho circunstancialmente oferecia. Debalde. Afinal, nascera negro. E isso o desqualificava ante os olhos de quem recrutava mão de obra. Aconselhado pelo pai, até tentou seguir os seus passos, mas logo percebeu não ter aptidão para o mister. De tesoura e pente nas mãos, seria certamente um desastre; então, melhor desistir logo.

Cansado e desiludido, tendia a desistir quando recebeu proposta de trabalho que, pela sua natureza e peculiaridade, merecia avaliação mais criteriosa, incluindo a efetiva participação dos pais em tão difícil decisão. Ofereciam-lhe bons atrativos: salário razoável, boa alimentação, acomodações, folgas dominicais e, como se tratava de posto de trabalho em empresa estabelecida em outro estado, em município do interior cearense, assumiam as despesas com a viagem por terra. Embora houvesse alguma resistência da família que também considerou, para tanto, a dependência física da irmã mais nova, com sequelas insanáveis da meningite contraída ainda garota, cujos cuidados especiais o colocavam como parceiro da mãe, venceram os contra-argumentos então por ele oferecidos, e, com pouca bagagem, por orientação dos contratantes e para desconfiança dos pais, e algum dinheiro, resto do último salário-desemprego recebido, algumas poucas cédulas dobradas e acomodadas nas algibeiras da calça que vestia, o destemido Jotinha partiu para o que todos supuseram tratar-se de aventura de risco.

Já na chegada à sede da empresa, ou melhor, ao cruzar o portão de entrada da fazenda, trancado a grossa corrente e enorme cadeado, sob rigorosa vigilância de um sentinela vigoroso, hercúleo e mal encarado, armado de cassetete, revólver e escopeta de calibre 12, abateu-o um mau pressentimento a que se seguiu uma certeza cruel, dolorosa, aterrorizante: caíra numa armadilha, cujo barulho do fechamento da boca do alçapão ecoou longamente em seus ouvidos. Temeu pelo seu futuro, pela sua vida, logo nos primeiros contatos com quem gerenciava a empresa, na verdade, uma carvoaria clandestina, incrustada em clareira aberta no meio da mata fechada, com acesso por estrada vicinal, carroçável e mal conservada. Em meio às instruções de praxe, todas carregadas de rígidas regras comportamentais e duras ameaças, caso não as observasse rigorosamente, obrigaram-no a assinar, como se assumisse um contrato formal, em espaço para isso reservado no cabeçalho mal preenchido, com alguns dados pessoais do ora recluso, de uma das folhas pautadas de um grande e velho livro, logo por ele reconhecido como algo parecido com um conta corrente, em cujas linhas certamente seriam lançados valores a favor e contra o titular ora firmado; acomodaram em saco plástico transparente os seus poucos pertences, incluindo carteira porta documentos, contendo apenas cédula de identidade e título de eleitor, além de relógio de pulso e tênis, encerrando-o numa gaveta vazia das muitas de móvel recostado à parede por trás da mesa do gerente; entregaram as peças do vestuário que a partir de então deveria usar sempre; encaminharam-no, sob a custódia de um “capitão do mato” devidamente aparelhado, para o espaço que lhe fora reservado no velho galpão-dormitório, com uma cama de solteiro e colchão de palha bastante gasto pelo uso; e, enfiaram-no num banheiro sujo, escuro, apertado, com apenas uma latrina a exalar forte odor de desinfetante, para a troca de roupa (nesse momento, Jota-Dábliu retirou nervosamente das algibeiras as cédulas dobradas e as escondeu entre as telhas e caibros da cobertura do recinto, com o propósito de reavê-las tão logo isso se tornasse possível), com as peças então substituídas sendo depositadas na mesma gaveta onde já estavam seus outros pertences. O feitor o recebeu de cara amarrada e, de imediato, colocou-o num posto de serviço. E assim se iniciava, sem previsão de término, um processo desumano categorizado como “trabalho escravo” ou, em outros termos, o uso do homem pelo homem sob tutela demoníaca.

Rapidamente fez a leitura da crucial situação em que se metera, concluindo que iriam cobrar-lhe tudo e mais alguma coisa, de forma a manter sempre uma dívida a honrar e, por consequência, o vínculo ilegítimo e escravizante; que não adiantava adotar comportamento contestatório, sob o risco de merecer tratamento mais rigoroso; que não lhe restava opção, senão a de adaptar-se, o mais rapidamente possível, à nova condição com vistas a minimizar os seus efeitos danosos, bem como construir, lenta e gradualmente, com resiliência e lucidez, com discernimento e fé, um factível projeto de fuga. É óbvio que jamais deixaria de sonhar com a liberdade, embora devesse pôr acima de tudo paciência e inteligência, sempre sob o manto da aparente resignação. Ao tempo caberia mostrar-lhe a solução mais adequada, na exata medida e no devido tempo. A estratégia também teria de envolver conquista de confiança e conhecimento profundo de todas as circunstâncias, os meandros, os enredos, e, em especial, os aspectos geográficos envolvidos. Nada de afobação, muito menos de heroísmos. Luz não iria faltar. Adviria de fonte inesgotável. Beijou, então, de olhos fechados em silenciosa prece, a medalhinha de Nossa Senhora das Graças encastoada em fina corrente de prata, ganha ainda na primeira comunhão, presente de sua generosa e adorável mãe que então lhe fizera a seguinte dedicatória verbal: Filho, ela vai proteger você sempre! Nunca deixe de usá-la!

 

II.

Logo nos primeiros dias de dezembro, eles, irmãos gêmeos bivitelinos, dizigóticos, já quarentões, filhos de dona Margarida, católica fervorosa, devotíssima de Padre Cícero, professora aposentada, mulher de respeitáveis predicados e louváveis procederes e mãe extremada, iniciaram o planejamento da viagem a Juazeiro do Norte, lá onde enterraram os respectivos cordões umbilicais e vivenciariam os festejos natalinos em família, após alguns anos de longo e desgastante – pela saudade que causa – distanciamento, sempre a justificativa disso recaindo na agenda repleta de compromissos. João Cícero, pedagogo, doutor em Educação Religiosa, consultor em assuntos de educação e aprendizagem, com vínculos contratuais de prestação de serviços de alto nível a escolas de grande porte e, nas horas vagas, palestrante, além de temente a Deus, como recorrentemente enfatizava, pediu a Maria Santíssima, a quem confiava a sua proteção, que lhe proporcionasse um Natal perfeito, pleno, repleto de humanismo e significação. Pedro Cícero, médico oncologista e professor universitário, com consultório bem concorrido, plantões hospitalares e muitas horas de firme e precisa atuação em centros cirúrgicos, também solteiro por moto próprio, suspendeu todos os compromissos agendados para a semana, pois, só assim, poderia usufruir das férias adiadas tantas vezes e dos jamais esquecidos benefícios que sempre emanam do saudável convívio materno.

Na véspera do Natal, logo cedinho, antes do raiar do sol – ou no dizer de Pedro, a alma sertaneja sempre revivida, Ao cagar dos pintos, como bem diria nosso pai, se vivo fosse! –, eles deixaram Fortaleza rumo ao Cariri, em Corola branco pilotado por Pedro, com João no banco do carona, previstos revezamentos ao longo do percurso. Por constar do plano de viagem a breve passagem por Limoeiro do Norte, onde abraçariam a tia Magnólia, irmã mais velha da mãe, cuja filha primogênita, Violeta, houvera sido, ainda menina, escolhida pelas famílias para desposar João, o que não chegou sequer a namorico, talvez apenas alguns insossos flertes, e uma esticada até Brejo Santo, onde fariam uma rápida visita à tia Gardênia, irmã mais nova da mãe e parceira na criação de ambos, ora convalescendo de grave mal que a colocara às portas da morte, elegeram a BR-116 como o trajeto ideal. Pretendiam estar no lar materno antes do fim da tarde, ou, segundo o falar sertanejo por Pedro usado apenas em colóquios bem familiares, preservado o status acadêmico e profissional, chegariam ao destino Antes de o sol perder a cor de zinco e as galinhas se empoleirarem.

Pedro preferia o teatro e João, o cinema. Ambos não demonstravam o menor interesse pelo futebol; nos esportes, se afeiçoavam tão somente ao tênis e ao vôlei. Católicos praticantes, não apenas assistiam às missas dominicais, mas participavam, no limite do possível, das ações comunitárias de suas respectivas paróquias. Pedro era simpatizante do jazz e disso João apenas gostava. Ambos nutriam o hábito de ler, adquirido na pré-adolescência, por influência paterna. Pedro apreciava os contos e as crônicas e já se deleitara com obras de Fernando Sabino, Rubem Braga, Rubem Fonseca, João Ubaldo, Dalton Trevisan, Allan Poe, Julio Cortázar, Ernest Hemingway, Guy de Maupassant, mas dizia sentir um prazer especial com as crônicas de Airton Monte, Ana Miranda, Demitri Túlio e Tarcísio Matos, lidas em cadernos de artes de jornais locais. João optava por romances, sempre revelando-se incomodado com a crítica recorrente em Umberto Eco, para quem “O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê”, porquanto defendia o entendimento de que o destino de todo e qualquer livro é necessariamente a leitura, sem o que perde o viço, o frescor. Já fizera viagens fantásticas pelas páginas de clássicos universais – Alighieri, Boccacio, Shakespeare, Cervantes, Melville, Tolstói, Dostoiévski, Kafka, Proust, Camus, Saramago, Garcia Márquez, só pra citar alguns – e nacionais – Guimarães Rosa, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Érico Verissimo, José de Alencar, Rachel de Queiroz, além de outros de igual jaez. Como é possível perceber, os irmãos Cíceros, que no passado selaram um acordo de jamais discutir assuntos profissionais em seus encontros, guardavam um variado e complexo estoque de temas interessantes para conversar no curso da viagem, sob a prazerosa “trilha sonora”, reproduzida em equipamento de excelente qualidade, uma excepcional coletânea de magistrais exibições musicais de Billie Holiday, Chet Baker, Edward Ellington, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, alguns dos celebrados ases do jazz.

Houve um momento de silêncio absoluto – um deles circunspecto, o olhar fixo nas nuanças da longa estrada a cobrar-lhe, aqui e acolá, o efetivo domínio da máquina sob seu comando, sem se permitir ser absorvido pela música que tanto embevecimento lhe causava; o outro meditativo, o olhar panorâmico a contemplar a natureza tão velozmente fugidia a escapar-lhe do campo de visão e tão prazerosamente instigante a fazê-lo penetrar no segredo das coisas –, quietude logo rompida por João que, com mudança brusca de comportamento, revelou-se bastante agitado no apelo ao irmão:

– Para, João! Por favor, para logo este carro!

A freada brusca, o giro quase automático para a direita, a parada no acostamento e o oportuno questionamento:

– O que houve, rapaz?! Pelo amor de Padim Ciço… Andou sonhando com as almas, foi? Recebeu a pomba do divino Espírito Santo? Ou…?

– Ó Pedro, não me questione por três vezes. Não brinque com coisa séria. Dê uma olhada à sua esquerda, para o acostamento do outro lado. O que vê?!

– Nada demais, João. Apenas um homem caminhando… Lá atrás…

– Isso mesmo. Chapéu de palha de largas abas, um pequeno saco plástico às costas, um cajado. Caminha solitário e aparentemente decidido.

– E por isso… somente por isso… você me fez parar bruscamente o carro e…

– Só por isso, não! Eu tive uma visão sobrenatural. Algo extraordinário. Você pode até caçoar de mim, mano velho. Mas… eu vi… saindo daquela nuvem…

– Que nuvem, homem de Deus?! O céu até que está embaçado… o sol numa anemia que dá dó… agora, nuvem… nuvem mesmo… eu não consigo ver nenhuma. Seja honesto comigo: era só sonho ou chegou a pesadelo?

– Sem galhofas, tá! O que eu acabei de ver… se isso não lhe causa o menor interesse…

– ‘Stá certo. Minhas desculpas. Esqueça o que eu disse. Você viu mesmo o quê?

João, agora taciturno e severo, abre a porta do carro, desce, contorna-o pela parte de trás, aproxima-se de Pedro e, calma e tranquilamente, diz-lhe:

– Eu vi um facho de luz saindo de uma nuvem, indo alumiar, resplandecer, à plena luz do dia, exatamente aquele homem. – Aponta na direção do caminhante. – E, agora, eu vou até ele. Vou saber quem ele é, o que tem de tão especial…

– Espere um momento, eu também vou com você. – Enquanto saía do carro, batia a porta com elegância e acionava o comando de travamento, complementou com ares de parceiro. – Lembre-se de que nós dois estamos juntos nesta jornada.

– Pois então vamos.

E foram. Atravessaram com cautela a movimentada rodovia, incluindo o largo canteiro central, e com prudência se aproximaram do andadeiro que, ao perceber que se dirigiam até ele, apavorado, ameaçou-os com o cajado em posição de ataque. João, logo percebendo tratar-se de um jovem com graves sinais de sofrimento e cansaço, embora com razoável capacidade de reação, revelando haver ali resiliência e esperança, procurou acalmá-lo:

– Calma, amigo. Nós somos de paz. Estamos dispostos a ajudá-lo. Não sabemos bem como… mas…

– E o que vocês querem de mim? – O jovem baixou a guarda, adotando uma atitude nada agressiva… afinal eram dois contra um.

– Qual é seu nome?

– Jorge Wilkinson, Jota-Dábliu ou Jotinha, ao dispor dos senhores.

– Jorge, eu sou João Cícero; este aqui é Pedro Cícero, meu irmão. Nós estamos indo de Fortaleza, onde trabalhamos, até Juazeiro, onde mora a nossa mãe. Vamos dar uma entrada rápida em Limoeiro, para abraçar uma tia. Você mora por aqui, nesta região, e poderia…?

– Nada disso, doutor. Eu moro na Bahia… quer dizer… morava com meus pais. Sou feirense.

– E o que está fazendo por aqui, meu rapaz? – Agora é Pedro quem pergunta. – É alguma promessa?

– Não, doutor. Até que poderia, mas não é. Eu sou… sou fugitivo… – Ao declarar isso, baixou o olhar para o chão e silenciou. Ao retomar o diálogo, levantar os olhos, algumas cálidas lágrimas escorreram pelo rosto. – Estou fugindo da escravidão, ou melhor, de mais de três anos de trabalho escravo. A cor da pele, sabe?!

– Jorge, me esclarece uma coisa, por favor! – João retomou a condução da conversa. – Você está pretendendo ir até Feira de Santana a pé?! É isso mesmo ou estou enganado?

– Que outra opção eu teria, doutor? Preto, sujo, sem dinheiro, certamente perseguido… a minha única referência é a minha casa, a minha família. Assim, enquanto eu tiver forças, coragem não vai me faltar para chegar lá. Não sei quando. E isso, por incrível que possa parecer, é o que me estimula. Eu vou conseguir.

– Incrível. Você me parece ter boa instrução, boa leitura de mundo…

– Mas sou negro, né doutor. Pra muitos, eu sou imprestável, peça com defeito… não funciono bem… pra eles, claro!

– Jotinha, amigo, nós vamos… você me autoriza, né Pedro?… nós vamos lhe fazer uma proposta, esperando que aceite. Preste bem atenção. Nós queremos que você venha conosco. Em Limoeiro, nós lhe daremos um trato na aparência: barba, cabelo, roupa, calçado, apetrechos. Alimento saudável. Depois procuraremos uma forma de colocar você em transporte que o leve até a sua terra natal. Confia em nós?

Após retirar da cabeça o chapéu de palha de largas abas, limpar a testa com o dorso da mão direita, olhar para o chão, para o céu, respirar fundo, desfazer-se do cajado, volver longamente o olhar para trás, como se pretendesse dissolver todo e qualquer vínculo, por mais frágil que fosse, do seu doloroso passado recente, Jota-Dábliu beijou, ardorosa e agradecidamente, a sua medalhinha de Nossa Senhora das Graças, encarou profundamente os dois irmãos e respondeu severamente:

– Sim, eu confio em vocês. Sinto que alguém muito especial os colocou no meu caminho. A minha salvação está nas mãos de vocês dois. João e Pedro, não é isso?

– Isso. Cícero, os dois. – É Pedro quem então se pronunciou favoravelmente a tudo o que ali acontecera. – Nós vamos lhe dar, rapaz, o presente de Natal que você faz por merecer.

Já no carro, o jovem afrodescendente bem acomodado no banco de trás, agora com João ao volante e Pedro no banco de carona, a conversa prosseguiu. Disso quem logo cuidou foi João:

– Jovem Jorge Wilkinson, essa medalhinha que você beijou com tanto devotamento…

– … presente de minha mãe, ainda na minha primeira comunhão, é de Nossa Senhora das Graças, a minha protetora…

– … interessante, a minha proteção vem, sabe de quem?

– … do Padre Cícero Romão Batista, né?

– Não. De Maria Santíssima. Coincidência, amigo.

Pedro interrompeu o diálogo com voz firme:

– Rapaz, pelo que nos disse há pouco, você viveu uma aventura. Três anos de escravidão, retirado do seio familiar, isolado do mundo, abusado profissionalmente por quem não tem escrúpulos, tudo isso, na sua concepção, em razão da cor da pele. Já percebi que, por enquanto, não pensa sequer em denunciar, em ir a uma delegacia de polícia e fazer um boletim de ocorrência. Há, com certeza, receio de que o descubram e isso lhe cause estragos bem mais graves. Concordo com você.

– Mas Pedro, ele carrega na sacola uma boa prova, a meu ver…

– Sim, João. O fardamento pode até ser usado como prova, conquanto haja a denúncia formal.

– Amigos, eu pretendo fazer isso, em defesa, inclusive, dos que lá permaneceram, tratados como bichos brutos. Eu soube que aquilo lá pertence a gente poderosa, com muitas influências na região…

– E certamente com outros “campos de concentração” espalhados por aí. – A voz de João revela mais desalento que rancor.

– Já disse que concordo com você, Jota-Dábliu. – Pedro mantém-se criterioso. – Acho até que, por se tratar de fuga, algum risco ainda paira no ar. Essa gente não perdoa. Por algum tempo, você vai ter de mudar de hábitos, ser mais cuidadoso. Nada que o impeça de viver, obviamente. Lute sempre por isso. Agora, mudando o curso dessa conversa que está séria de mais pro meu gosto, me responda uma coisa, meu rapaz, como é que você conseguiu saltar fora do cárcere privado? Mate-nos esta curiosidade, não é João?

– É isso mesmo, Pedro. Mas, Jorge, só faça isso se se sentir bem em fazê-lo.

– Tudo bem. Não há problema nenhum.

E Jota-Dábliu contou como executara o plano concebido logo nos primeiros meses de encarceramento e construído, paciente, zelosa e minudentemente, no curso dos anos que se seguiram, desde o momento em que removeu com um prego caibral, na calada da noite, enquanto todos dormiam, um tijolo do piso do dormitório, bem abaixo da sua cama, transformando-o no rústico cofre para os seus parcos recursos – o dinheiro guardado nas algibeiras da calça e escondido no telhado do banheiro logo nos primeiros passos da longa e dolorosa caminhada –, os quais serviram para, com ajuda de um motorista amigo, obter a cópia da chave do escritório e permitir que, numa noite de chuva intensa, recuperasse os seus poucos pertences logo acomodados, ainda em meio ao toró, como complemento de um especial saco de carvão do lote empilhado no galpão de estocagem que, no final da tarde, sob sua arrumação, viraria carga a ser transportada a destino certo, tão logo o breu da noite favorecesse a atividade ilegal. Relembrou, na sequência, o esquadrinhamento da área de contorno da carvoaria, estágio que mais tempo e ajustes consumiu, revelando, ao final de muita observação, ser o rio, local dos banhos dominicais sob escolta, o elemento-chave no favorecimento da fuga, dadas as suas especificidades: a ponte de madeira na parte mais declivada da estrada carroçável por onde se dava o fluxo da produção; o ponto de velocidade mais baixa para caminhões com carga, considerando a ribanceira que se lhe seguia; o curso das águas, após acentuada curva a poucos metros da ponte, em sentido contrário ao da estrada, dificultando uma provável caça ao fugitivo; o bom nível do fluxo de água em período de chuvas, o que certamente concorria para a anulação de rastros e odores a favorecer a atuação de cães farejadores; a mata ribeirinha, marginando-o até pontilhão construído, a poucos quilômetros abaixo, sobre o qual fluía o intenso trafego da BR-116, rodovia então eleita como o pórtico da liberdade. Por fim, pontificou o crucial agir no dia da libertação, a frieza na colocação do saco especial de carvão na parte superior do último empilhamento, na parte detrás, mais ao fundo da carroçaria; a firmeza no uso de pontos falsos na amarração da carga, de tal sorte a permitir a liberação desse saco apenas, sem o desmonte dos demais; a curta abertura camuflada na lona que encobria toda a carga, por onde ele se esguiaria para estreito esconderijo; a coragem, a agilidade e a devida força na hora de pular para o tabuleiro da ponte levando consigo o especial saco de carvão e, em seguida, saltando com ele para o leito do rio, com eventuais vestígios sendo eliminados pela chuva agora bem mais intensa. Uma aventura, sob a ação coadjuvante da natureza – a escuridão da noite e a chuva intermitente – e dos parceiros de confinamento, mantido o silêncio sobre o seu desaparecimento até a manhã do dia seguinte, conforme o combinado e sob a desculpa ensaiada de o cansaço e o clima frio os terem feito dormir rápida e profundamente. E aqui agora estou, senhores! – Finalizou.

Fez-se mais um momento de silêncio absoluto. A narrativa prendeu tanto a atenção de todos que, só o agora os fez perceber que já trafegavam pela rodovia CE-265, que dá acesso ao centro da Princesa do Vale, terra dos três irmãos Maias – Luciano, Napoleão e Virgílio, todos acadêmicos cearenses –, e onde residia, mais precisamente em rua tranquila do bairro Socorro, a tia Magnólia, em cuja aconchegante moradia, lateralmente alpendrada e ornada de bem cuidado jardim, foram festivamente recebidos.

Ao saber da história de vida do Jorge Wilkinson, acolheu-o como se pertencesse à família. Com generosidade, deu-lhe o alimento para saciar a fome de muitos dias: um quebra-jejum à base de frutas, leite, queijo, pão e ovos mexidos, com o adjutório de nacos de carne de sol levemente torrados em manteiga da terra. E os sobrinhos – João e Pedro – aproveitaram o banquete posto à mesa com arranjos natalinos e também se refestelaram, em meio a um prazenteiro proseado com os de casa. Depois a anfitriã mandou chamar o velho Chico de Minervina, barbeiro aposentado que ainda atendia a domicílio, para o corte de cabelo e remoção da barba do jovem Jota-Dábliu. Enquanto, isso os seus protetores cuidaram de, em loja próxima, adquirir vestuário novo – camisa de gola polo, bermuda com bolsos laterais e tênis – para o rapaz que, após banho reconfortante, bem vestido, surpreendeu a todos com a sua jovialidade. É um menino. Não tem vinte anos ainda! – Aquiesceu com saudável espanto a velha senhora. Vai completar só em junho, tia. – Observou João. Foi levado com menos de dezessete ao cativeiro. – Enfatizou Pedro. Ela aproveitou o ensejo e orientou os sobrinhos: Se vocês ainda pretendem ir à rodoviária batalhar pelo que me parece improvável, principalmente nesta época do ano, eu os aconselho a desistir. Como o destino dele é Feira de Santana, Bahia, me parece mais prático que o conduzam até Milagres. Lá tem um posto de combustível… E Pedro a interrompeu: Desculpe-me, tia, mas a senhora matou a charada. Lá é mais fácil encontrar um caminhoneiro com trajeto passando por Feira. E João encerrou a questão: É isso mesmo. Em Milagres, o perfeito encaminhamento do milagre. Então, garotos, pé na estrada… desculpe-me, Jorge! Todos riram. Abraços de despedidas. De agradecimentos. De desejos de boas festas. De boa viagem. Então, partiram.

 

III.

Ao reassumir o comando do carro, Pedro mudou o cardápio musical, substituindo o jazz pela música popular brasileira, um mix de clássicos nacionais produzidos pela genialidade de compositores da estirpe de um Jobim, de um Vinícius, de um Chico ou Caetano, e interpretados por cantores consagrados. E a viagem transcorreu na mais perfeita normalidade, com a conversa envolvendo amenidades. Após algum tempo, o jovem feirense fechou-se em silêncio meditativo, quedou-se ao cansaço e, embalado pelo prazer que o momento lhe causava, adormeceu. Os irmãos Cíceros cuidaram de deixá-lo à vontade. Silentes, apenas trocaram algumas concisas e pontuais perguntas para monossilábicas respostas.

Em Icó, logo após o trevo, decidiram parar em posto de combustível para reabastecimento, além de curta caminhada, com inegável efeito positivo para as pernas, até o restaurante do cajueiro, do outro lado da rodovia, que, conforme já sabiam de experiências anteriores, oferecia apetitosos pratos da sempre generosa e aromática cozinha sertaneja. João advogou em causa própria:

– Amigos, eu proponho que almocemos uma suculenta carneirada, com arroz branco e angu de pão de milho, a velha polenta. Uma delícia. Não é, Pedro?

– Sim, João. Eu acolho a proposta do relator. E aí Jota-Dábliu, qual a sua preferência?

– Estou com vocês. Vamos de carneiro…

Reservaram uma das mesas da área alpendrada, com vista panorâmica para um sertão já exuberante de quase-inverno, a terra grávida de agradável e auspicioso verdor. Fizeram o pedido e, antes do atendimento, usaram o banheiro onde se aliviaram, lavaram mãos, braços e rosto.

Enquanto se deliciavam com o que Pedro chamava de “manjar dos deuses”, João expôs com detalhes o que houvera pensado na calmaria do trajeto recente:

– Jorge, estou muito esperançoso de que em Milagres nós vamos conseguir colocá-lo num transporte que o leve até a sua família. Esse é o nosso propósito maior. Não gostaria, porém, que isso pusesse um fim em nosso tão curto e intenso convívio. A minha vontade, e obviamente vai depender da sua aceitação, a minha vontade, repito, é de assumir o papel de padrinho. Isso mesmo. Tê-lo como afilhado, pra mim, seria uma grande honra. Um padrinho diferente, modernoso. Nada de me pedir a bênção, nada de me chamar de padrinho. Deixemos de lado esses formalismos. O nosso contrato de apadrinhamento lhe concederia, de imediato, o direito de, a qualquer momento, onde quer que estejamos, eu poder colocar à sua disposição as influências de que disponho para solucionar eventuais problemas que circunstancialmente o aflijam. Caso aceite, meu caro jovem, eu lhe darei, agora, o meu cartão de visita que, além de selar este nosso acordo, com o aval de meu querido irmão Pedro, servirá de meio de acesso a mim, com a recomendação de que o use como documento particular seu. O que você acha disso?

Pedro manteve-se em silêncio, embora demonstrasse, com suaves meneios de cabeça, total assentimento à decisão do irmão.

– João, Pedro, eu já lhes disse sentir que alguém muito especial, uma divindade, achou por bem que os nossos caminhos se cruzassem e, vejam bem, amigos, numa situação totalmente desfavorável a mim, de quase desespero em que me encontrava. De repente, como num sopro divino, a minha vida mudou radicalmente. Vocês têm ideia, por exemplo, de quando eu pude ter um almoço como este, aqui e agora? Há mais de três anos, na casa dos meus pais, acrescentando ser a minha mãe, além de excelente costureira, uma prendada cozinheira. Vocês fizeram renascer em mim a esperança que se esvaía a cada passada que eu dava pelo acostamento da BR. Logo eu penso: onde agora estaria se não fossem vocês. É óbvio que aceito a sua proposta, João. Prometo, desde já, respeitar o acordo que tão generosamente você me oferece. Sou seu afilhado, sim. E com muito prazer.

Em algum momento, Pedro sugeriu, com balbucios, com o olhar, que João pusesse à mesa a visão que tivera, do facho de luz saído de uma nuvem. João rechaçou com cara de carranca, com franzimento de cenho.

– Então, Jorge, guarde bem estes dois cartões. Um deles simboliza a celebração de nosso acordo, que garantirá, doravante, o relacionamento familiar. O outro, de cujo verso constam uns dados muito importantes, você vai, tão logo possa, entregar ao professor João Bosco, diretor dessa escola (apontou para o nome que anotara no verso do cartão), apresentando-se a ele como meu afilhado. Com certeza, ele vai me ligar. E, então, eu vou recomendar você para um emprego digno, compatível com o seu perfil. E lhe digo mais: esse professor pertence a uma família de empresários na área de educação, com uma rede de colégios e faculdades em Salvador e em outras cidades baianas de grande porte. Um dos irmãos dele é secretário municipal em Feira. Ele vai ajudar você. A vida ainda vai lhe sorrir.

Pedro percebeu um brilho intenso no olhar de Jorge. É que ele se lembrara de ter ouvido essa mesma frase de estímulo dita pelo pai. E bateu uma saudade muito forte.

Pediram a conta. O garçom antes os serviu com um saborosíssimo café, feito em fogão a lenha, coado em saco de pano e adoçado com raspas de rapadura, o que o deixa mais denso. Pedro fez questão de assumir o prejuízo, no dizer pândego dele. Já se preparavam para sair, quando um senhor a eles dirige a palavra:

– Senhores, segundo o frentista, vocês estiveram à procura de algum caminhoneiro cujo destino passe por Feira de Santana. Isso é verdade?

– Sim, é verdade. – Respondeu o João. – E, por acaso, o senhor sabe de algum?

– Sei, sim. Eu. Estou com frete para Goiânia, mas, como moro em Feira, pretendo passar o dia de Natal com a minha família, juntando o útil ao agradável. E estou quase de saída. Qual é a pretensão dos senhores.

– É que este jovem também mora em Feira. – Informou Pedro.

– É mesmo?! Onde, garoto? Em que bairro?

– No Nova Esperança, na altura do Bremen Veículos, na BR-116.

– Pois eu moro no Pedra do Descanso, um pouco adiante. Como é que é? Vai comigo?

Jorge nada disse. Apenas olhou para o João, à espera de que ele se manifestasse a respeito. E o João se pronunciou:

– Bem, amigo. Eu sou o padrinho do Jorge Wilkinson. – Pôs a mão direita no ombro do jovem feirense. E prosseguiu. – Ele precisa estar com os pais neste Natal. Seria muito bom que ele pudesse ir com o senhor. Por mim, ele vai. O que você nos diz, meu caro jovem?

– Eu vou, né?!

– Agora, sejamos práticos. – Pedro interveio. – Quanto vai custar?

– Nada. Absolutamente nada. Só a companhia já paga tudo. Vocês não imaginam quanto custa dirigir sem ter com quem conversar. Faz de conta que é o meu presente de Natal para o seu afilhado.

Tudo acertado. Despedidas. Agradecimentos. Jorge, antes de acomodar-se na cabine do caminhão, fez aos irmãos a revelação de um segredo até então guardado a sete chaves.

– Eu ainda não lhes havia dito por simples falta de coragem. Ocorre que não devo manter isto sob sigilo absoluto. E agora me sinto confortável em compartilhar com você, João, que agora me apadrinha, e com você, Pedro, que tão bem também me acolhe, este fato novo. É que trago comigo a mais reveladora e resistente das provas de que vivi… vivi não… sofri uma situação deplorável de trabalho escravo. – Retirou de um dos bolsos internos da sacola de viagem que dona Magnólia, a tia de João e Pedro lá de Limoeiro, lhe dera para a guarda dos seus pertences, um pequeno saco plástico em que escondera alguns papéis dobrados; removeu-os dali com bastante cuidado, desdobrou-os e repassou-os ao João, sob o olhar curioso de Pedro. E complementou com razoável serenidade. – Embora submetendo-me a sérios riscos, os quais vou correr por algum tempo ainda, eu subtraí do velho livro conta corrente que eles só manuseavam por ocasião dos lançamentos de final de mês ou, excepcionalmente, quando do ingresso de algum escravo novo, as folhas que a mim se referiam. Como recuperei os meus documentos pessoais, cédula de identidade e título de eleitor, acredito que os meus algozes já não mais dispõem de qualquer dado meu.

– Além dessa, digamos, limpeza de arquivo, isto aqui – Pedro apontou para as folhas nas mãos de João – sugere a você alguma outra atitude?

– No momento, amigos, eu só penso em chegar à minha casa, abraçar as pessoas que amo, marcar com eles a retomada, o recomeço da vida interrompida por esta aventura que, com o fundamental apoio de vocês, vai chegando ao fim. Depois, passado algum tempo, vou avaliar criteriosamente que tipo de encaminhamento devo dar a isso tudo.

– Sempre com a gente pelo meio… – João advertiu, ainda examinando o que se continha naqueles papéis.

– Sim! Vocês agora são os meus parceiros.

Nesta hora, após devolver os papéis ao Jorge, que continuou conversando com Pedro, João percebeu ter cometido uma grave falha. Corrigiu-a, então, dirigindo-se ao caminhoneiro:

– Amigo, perdoe-nos um ato falho. Nós não perguntamos o seu nome…

– Tudo bem. Eu me chamo Jorge. Sou xará dele. – Destinou um discreto olhar para Jota-Dábliu. – Com uma diferença. Meu nome é Jorge de Jesus, o abençoado. – Sorriu. Pedro e o rapaz deles se aproximaram, recompondo o grupo. E o homem do asfalto prosseguiu. – E creiam-me, pois não se trata de história de beira de estrada. Meu pai, marceneiro, se chamava José, ou melhor, José Jorge… e que Deus o tenha! A minha mãe, Maria, ou melhor, Maria de Jesus. Eu tinha de me casar com Madalena… Vejam como são as coisas, amigos. Para o padre que nos casou, são os desígnios de Deus, contra os quais jamais nós devemos nos rebelar. Fiquem tranquilos, o protegido de vocês, a partir de agora, também será o meu protegido.

Duas fortes pedaladas no acelerador, o automático movimento de alavanca de marchas, o tranquilo deslizar até à margem do asfalto, o olhar de prudência para trás e para o lado esquerdo, de onde parecia originar-se o manto asfáltico, o acesso seguro ao leito negro da rodovia e, enfim, a viagem com destino ao aconchego do lar.

 

IV.

João e Pedro alteraram o plano de viagem original. As fortes emoções até, então vivenciadas, num único dia, concorreram para esta decisão: deixaram a visita à tia Gardênia, em Brejo Santo, para o dia seguinte. E, assim, poderiam fazer-se acompanhar de dona Margarida, caso ela quisesse.

– E vai querer, Pedro. Lógico que ela vai querer…

Na casa da mãe, o prazer inestimável de ser bom filho. O acolhimento de dois homens já realizados, mas que sofriam, não raras vezes, da carência emotiva de crianças. E o colo materno consistia no bálsamo curativo, reparador.

Por um instante, João recolheu-se ao santuário da mãe e, persignado, contrito e fervoroso, agradeceu a Maria Santíssima o pleno atendimento ao seu pedido: um Natal perfeito, pleno, repleto de humanismo e significação. Na sala da modesta e aconchegante casa, a lapinha e a árvore de Natal, luminosas e em pisca-pisca, bem diziam da religiosidade daquela família, cujo amor fraterno dava sustentação à inabalável fé em um Ser Superior que tudo comanda.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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