CONTO DE NATAL – Flor do Espinheiro

“Houve um tempo em que havia pássaros / vieram tiros, gaiolas e queimadas / levaram os pássaros / mas não levaram seus cantos / que guardei comigo” (Batista de Lima, em Pássaros/Tiborna. Imprece Editorial, 2014; pág. 45).

Leoginaldo – ou simplesmente Naldo – era menino de rua; ou melhor, tornara-se um após mais uma das recorrentes sessões de violência que lhe infligia, pelos mais banais dos motivos, o agora iroso padrasto.
– Ô Naldo, seu imprestável, cadê você, peste?! Onde você se escondeu, praga?! – Vindo do quintal, onde já ia bem adiantada a farra do fim de semana, andava pelos cômodos da casa à procura do seu alvo preferido em situações de desagrado, quando precisava descarregar a sua fúria.
– Você vai me bater… – Uma voz frouxa, repleta de temor, fez-se ouvir, saída de sob a cama do casal, onde o menino procurara refugiar-se.
– Claro que não, chorão! Desde que me obedeça…
– E o seu nariz não cresça… – Brincou o enteado, lembrando Pinóquio, ainda no já descoberto esconderijo.
– Saia já daí, seu covarde! Venha cá! Já! Vá lá no Xixico! Diga a ele pra me mandar um litro da Colonial branca e anotar na minha conta… Você me ouviu? Ou quer que eu repita, seu filho dos seiscentos diabos?! – Vociferou o já quase embriagado homem.
– Lá na bodega da esquina, é? Vou não! Não quero ir… – Já de pé, de costas para o armário no canto mais interno do quarto, Naldo ensaiou uma coragem que jamais tivera.
– E por que não há de querer ir, inferno?!
Um brado ameaçador fê-lo recuar um pouco, mantendo-se sempre na defensiva. Mesmo assim, permaneceu aparentemente irredutível.
– Porque os pinguços lá falam mal da minha mãe… Dizem que eu sou filho de quenga. Vou de jeito nenhum! – Pretendeu fugir da zona de desconforto, mas foi impedido a tempo. Tratava-se de luta desigual; logo, arrebentaria o lado mais fraco do cabo de guerra.
–​ Ah, vai! Vai, sim! Vou lhe mostrar que trato dou a quem me desobedece. – O homem disse isso já puxando o cinto do cós da bermuda.
–​ Você não pode bater em mim… Você não é o meu pai… – Num ato de bravura ou de loucura, provocou a fera que, com os olhos soltando faíscas de ódio, levou-o a perceber que pagaria caro por isso.
–​ Posso, sim. Sou seu padrasto. Eu ajudo a sua mãe a criar você, seu desaforado! – Disse isso, sob o olhar de complacência da mulher que, recostada numa das laterais da porta de acesso ao cômodo, de braços cruzados, não esboçava qualquer tipo de defesa do filho; talvez por medo que sobrasse pra ela. Acovardou-se na primeira sessão de tortura; agora, cada vez mais difícil ficava intervir em favor dele. O cinturão em dobra estalou no ar e, sem dar ao menino tempo de reação, alcançou-o nas costas nuas. Já ajoelhado pela ação do castigo, a segunda vergastada causou-lhe mais estrago nos couros e a dor tornou-se mais lancinante. E isso levou Naldo a outro tipo de reação. Inesperada, em face do histórico recente.

(…)

Ficara órfão ainda na primeira infância, quando assistiu, sem compreender o que via, à cena do pai ser alvejado, por engano, com tiros desferidos à queima-roupa por dois marginais em moto barulhenta, amedrontadora, na porta de casa, em rua de bairro periférico, estreita e carente de infraestrutura, ele que mal chegara do canteiro de obras onde trabalhava como auxiliar de eletricista. O ainda jovem Reginaldo tombou ali mesmo, já sem vida. E o filho, única testemunha ocular do covarde ato, tinha apenas seis anos de idade… incompletos.
Após cerca de um ano e meio de viuvez, a mãe – Leoglícia – enamorou-se de um moço, colega de trabalho do ex-marido, um rapaz de nome Fernando – mais conhecido como Nando –, que, por alguns anos, usufruindo das benesses do mesmo teto, manteve com eles – mãe e filho; mulher e enteado – um exemplar relacionamento. Só mais recentemente, quando as bebedeiras de fim de semana se iniciavam na bodega do Xixico e continuavam em casa, já com a discreta parceria da submissa companheira e sem perspectiva de se encerrar antes da boquinha da noite de domingo, é que passou a mostrar quão violento podia ser. E era. Mantinha a mulher sob constante ameaça e o enteado sob injustos corretivos. Nesse tempo, ainda não havia a Lei Maria da Penha, muito menos a proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente que apenas ganhava espaços no âmbito do Executivo, nos vários níveis onde sempre imperou a burocracia, e, assim, ainda não alcançara o ideal grau de capilaridade.

(…)

Ainda de joelhos e com lágrimas nos olhos, mas antes que o carrasco o atingisse com a indolente correia novamente, Naldo, no polo mais frágil da desigual contenda, prostrou-se ante a fúria do padrasto; e do suplício fez-se a súplica:
– Por favor, não me bata mais. Eu já não aguento mais. Me perdoe. Me perdoe. Eu faço o que você manda. – Entremeava cada frase com soluços que certamente emergiam da alma; de mãos postas, parecia rogar a algum santo de sua devoção a devida intervenção.
– Tudo bem. Só que, a partir de agora, não quero mais que você me trate de você. Tem de ser de senhor. Entendeu?!
– Sim, senhor!
– Pois levante-se. Pare de chorar e vá cuidar de fazer o que mandei. – Ainda enérgico, Nando mostrou-se um pouco compassivo. Muito tempo havia que de tal modo não agia. Indagar ora não faz mal: seria a proximidade do Natal?!
Naldo levantou-se e já se dirigia ao cômodo ao lado, por ele usado como o seu quarto.
– Pra onde você pensa que vai?! – O padrasto logo questionou tal ato, interceptando com um dos braços o provável trajeto da vítima. A mãe, que até então se mantinha inerte, ponderou com cautela:
– O menino vai vestir uma roupa… uma camisa… até pra não sair por aí mostrando as ronchas nas costas. – Recolheu-se, então, à sua covarde insignificância, à sua medrosa mediocridade, na parte mais inexpressiva da casa: a despensa.
– Tudo bem. Já não está mais aqui quem falou. Eu só quero a minha cachaça… e que ele não demore muito. – E, calmamente, como se não houvesse acontecido qualquer fato que o tenha abalado, enervado, retornou à sombra da mangueira, no meio do quintal. E onde sombra há, o estímulo é pra vagabundear.
No seu aposento, o menino vestiu a roupa de sair, calçou as sandálias novas, ganhas de presente da mãe no dia em que completara onze anos, saiu apressadamente de casa, sem que fosse visto, andou decididamente pelas calçadas irregulares, passou em frente à bodega do Xixico sem sequer olhar para tal ambiente, dobrou a esquina, desceu a rua de calçamento de pedra tosca quase correndo até a larga avenida aberta à sua frente e, sem olhar para trás, seguiu o fluxo dos carros e simplesmente sumiu, sem deixar rastro, tomando rumo incerto e não sabido. A partir daquele momento o mundo abriu-lhe as portas, muitas e várias, assumindo agora ser a sua casa. Liberdade e incertezas. Pelo menos, não mais apanharia do padrasto.
Continuou andando ao seu tempo: sem lembrar o antes, sem se preocupar com o depois, tudo no agora. Algumas quadras adiante, sentindo-se atraído por ímã invisível, optou pela rua à sua direita. Só residências de aspecto agradável – muros de altura mediana, encimados por grades de ferro de proteção; jardins bem cuidados; frentes com áreas que convidavam ao nada fazer, em especial as ornadas com brancas redes de varandas; algumas, muitas, com carro em garagem aberta. Atingiu-o o contraponto da preguiça, a qual cuidou logo de afastá-la por não combinar com o momento ora vivenciado, pois a jornada ainda tinha muito a ser cumprido. Numa esquina qualquer, aproveitou o semáforo fechado para os poucos carros, atravessou a rua, mudando o sentido da sua solitária caminhada. Percebeu que o sol já se ia encaminhando para o trivial pouso noturno, em plena fase de aterrissagem, rumo ao sempre acolhedor horizonte. A escuridão da noite logo se instalaria, e ele teria de buscar um abrigo onde pudesse agasalhar o seu sono; não se deixaria ser ameaçado pelo medo, mas precisava de uma zona de conforto, de tal sorte que pudesse recompor as energias. E Deus estava com ele; sempre esteve; até nos cruciais momentos de tortura moral e física. E ele já era um rapazinho. Muito aprendera com a dor e o sofrimento. E nada poderia ser pior do que já fora antes.
À sua frente, a imponência de uma igreja, a beleza portentosa de um templo católico, com amplo e alto patamar, três largas portas de acesso frontal, uma enorme torre central e duas menores, uma de cada lado, todas com sinos e cúpulas agudas como dedos indicador e mindinhos apontando para o céu, ornadas nos extremos com cruzes de médio porte em grossos canos de ferro niquelado; no topo da mais alta, as hastes metálicas do para-raios, encimadas por luzinha vermelha de advertência aos usuários do espaço aéreo como via de locomoção. Compenetrou-se diante da casa do Senhor, lugar onde já havia algum tempo não mais entrara, nem que fosse para uma simples oração, um agradecimento, um pedido de perdão; para ele, já em processo de formação, em plena pré-adolescência, aquilo adquiria contornos de absurdo, porquanto até acólito fora. Mudara muito nesses últimos anos. Até à escola deixara de frequentar, por imposição patriarcal: mera economia de palitos, pois era aluno da rede pública de ensino.
Subiu os degraus do patamar e, ao perceber que as portas estavam cerradas, sentou-se no último deles. Enquanto descansava, invadiu-lhe o espírito uma sensação inesperada, carregada de saudades da mãe que, a rigor, sempre fora tão presente em sua vida. Compreendia a razão por que não o defendia da violência do padrasto. Não nutria qualquer tipo de raiva por isso. E algumas questões foram preenchendo os vazios do pensamento. Como ela teria reagido ao seu sumiço? Que dor deve ter sentido ante a sua falta? Agiria sozinha na busca pelo filho desaparecido? Se submeteria à vontade do companheiro, certamente de alheamento ao fato e de entendimento de que o tempo seria capaz de dar a melhor solução ao caso? Quis chorar. Conteve-se. Afinal, o rosto ainda carregava resquícios do mais recente choro. Doloridos como tantos outros. Fraquejar agora não seria a atitude mais adequada a tomar.
Envolto nesses pensamentos – mais parecendo ser gente grande – não ouviu o ruído das portas da igreja sendo abertas. O som do sino maior fê-lo acordar para a realidade: ali, dentro de alguns minutos, talvez uma hora, muitos fiéis atenderiam o convite para a missa do sábado à noite que, inclusive, valia pela obrigação dominical. Decidiu que dela participaria; precisava apenas de um pouco de água para lavar o rosto e, assim, dar um pouco mais de normalidade ao visual, já que, em termos de vestuário, ora usava a sua melhor roupa.
Levantou-se. Com olhar curioso, caminhou pelas calçadas laterais do templo. Havia jardins públicos margeando as ruas do entorno. Num deles, uma torneira chamou-lhe a maior atenção. Só que para alcançá-la teria de avançar sobre a verde e bem cuidada grama. Correndo o risco de ser apanhado em grave erro, foi até lá. Lavou o rosto; e a água lhe trouxe um certo prazer, um pouco de conforto. Com as mãos em concha, saciou a sede que certamente logo se manifestaria de forma mais intensa, mais exigente. Voltou ao ponto de mais segurança. Aguardou que o sopro do vento se mostrasse suficiente a enxugar o que se molhara. Em seguida, adentrou a igreja por uma das portas laterais. E o que viu o inebriou. Provocou-lhe o embevecimento próprio do que se apresenta esplendoroso. Extasiou-se.
A ornamentação natalina, belamente combinada com o sistema de iluminação de todo o ambiente – átrio (área de acesso), nave (lugar dos fiéis) e presbitério (lugar do altar) – causavam uma agradável sensação de paz, de arrebatamento. Naldo acomodou-se na ponta externa de um dos bancos ainda vazios, na metade da nave. E os olhos se enchiam de brilho à medida que recolhiam detalhes de tudo o que viam. Em nicho central, guarnecido de especiais atavios que resplandeciam sob efeito de luzes ocultas, distribuídas em reentrâncias, a imagem em tamanho natural da Senhora do Perpétuo Socorro. Demorou-se em admiração ao menino de cujos braços maternos recebia o zeloso amparo. Emocionou-se ante a percepção de que ele lhe sorria; retribuiu, agradecido, o místico sorriso. Pediu à criança, então, toda a sua proteção, em momento tão difícil que ora tanto exigia de si, numa nova fase da sua vida que ora se instalava. Achou que havia reciprocidade no inusitado e repentino relacionamento. Era uma criança sorridente que ouvia o que outra criança em silêncio pedia.
Logo a igreja se encheu de gente bem-vestida. Ao seu lado sentou-se um casal de idosos. O velho, de óculos de correção, olhou-o com algum desdém (achou-o rabugento); já a idosa saudou-o com olhar amigável e sorriso levemente contido (refletia uma beleza preservada no âmago do ser; lembrou-se da avó paterna, cuja imagem povoava o lado bom do passado). Iniciou-se a celebração e todos seguiam o rito quase mecanicamente. Na homilia, o oficiante ressaltou o sentido da fraternidade no período das festas maiores da Igreja, em especial a do nascimento de Jesus, o filósofo do Amor. Propôs que considerassem, nas atitudes, o pensamento de santo Antônio quanto a haver mais ação e menos palavras, mais disposição e menos promessas. Na comunhão, ante o movimento dos comungantes, verificou que, quase ao seu lado, havia um confessionário de madeira, portinholas que lembravam a entrada de “saloons” em filmes de faroeste e cortina de tecido amarronzado e bordas com rubros arremates de crochê. Brotou-lhe uma ideia: não encontraria lugar mais aconchegante para a noite de estreia de um pré-adolescente em fuga. Ninguém mexeria com ele. Poderia, então, aproveitar da tranquilidade e segurança da casa do Senhor. Seria seu hóspede naquela noite.
Finda a missa, pôs-se de pé a poucos passos da sua meta; aguardou o momento ótimo para enfurnar-se onde, em passado recente, tantos pecados ali mereceram o perdão divino sob a condição de penitências que, no entender de ministro do Pai bondoso, eram cabíveis a cada caso. As portas se fecharam e as luzes se apagaram. Apenas no altar, à frente do sacrário, uma luzinha vermelha permanecia acesa, imitando uma vela. Era a simbologia cristãmente convencionada a indicar a presença de Cristo ali materializada em hóstia consagrada. Naldo acomodou-se no pouco confortável assento do confessionário. Não demorou muito e sucumbiu ao cansaço, rendeu-se ao sono e pesadamente adormeceu.
Quando acordou, já era manhã. Lembrou-se de ter ouvido o padre avisar os fiéis sobre o horário da missa matinal do domingo – oito horas. Teria de agir rápido para não ser pego no contrapé. Precisava aliviar-se; e logo. O que fazer? Caminhou até o altar. Persignou-se ante a presença divina na hóstia consagrada. Vislumbrou à sua direita o acesso livre à parte mais ao fundo da igreja. Era a sacristia, com dois grandes móveis de madeira maciça, recentemente envernizados, cada um com seis largas gavetas onde certamente se guardavam os paramentos e o conjunto de peças em linho usadas nas celebrações. Ao lado, um estreito guarda-louças trancado à chave e, em lugar discreto, uma pia simples, com torneira de parede, um armário pequeno e porta toalha, devidamente provido de exemplar da cor de vinho tinto, do tipo destinado à limpeza de rosto ou de mãos. No piso, já na confluência com a parede, o ralo de banheiro em caixa sifonada para vazão de água da pia ou de eventual lavagem do piso. Agachou-se, direcionou o jato da urina para o ralo e aliviou-se; não lhe sobrava opção. Espreguiçou-se. Recolheu um pouco de pasta dentifrícia no dedo indicador da mão direita, então transformado em escova em uso no asseio dos dentes, língua e boca; lavou o rosto em água abundante, molhou os cabelos, enxugou-se na toalha à sua disposição, penteou os cabelos. Olhou-se no espelho do armário e deu-se por satisfeito. Antes de abandonar o ambiente, dispôs a toalha ao redor do pescoço, convicto de que a levaria como lembrança de tão especial noite.
Ao cruzar a área frontal do altar, persignou-se novamente, olhou agradecidamente para o menino no conforto do colo maternal, pediu desculpas por estar levando a toalha que não lhe pertencia. Percebeu, estupefato, perplexo, que ele também sorriu, meneou afirmativamente a cabeça e – jura ter ouvido – disse-lhe:
– Ela agora é toda sua. O meu presente de Natal. Será a certeza da minha proteção em seu cotidiano. Nunca dela se desfaça. Se, por acaso, vier a perdê-la, procure-me novamente. – Ele, então, retomou a inerte postura de imagem. E Naldo, após reverenciar mãe e filho, postou-se estrategicamente próximo à porta que, à noite, fora fechada por fora. E, tão logo abriram-na, tomou o rumo da rua, sem destino específico.

“Quando abriu a manhã / duas rolinhas fazendo poesia / nos galhos da goiabeira: / o dia se carregava de boas promessas” (Batista de Lima, em Prenúncio/Tiborna; idem, ibidem; pág. 32).

No prolongamento das vias laterais da igreja, umas três ou quatro quadras adiante, o poder público municipal mantinha um polo de lazer com equipamentos de musculação e exercícios físicos ao ar livre e campo de areia para a modalidade fut6, com traves de futsal, onde, nas manhãs de domingo, ocorriam disputas de torneios promovidos por associações comunitárias, devidamente consideradas as faixas etárias dos atletas, cujo propósito era oferecer à clientela – no caso, pré e adolescentes com treze anos ou menos – alternativas saudáveis de valorização dos esportes e, por extensão, da própria vida. As comunidades do entorno se faziam representar, reunindo familiares e amigos dos contendores que, na condição de torcedores, protagonizavam participações barulhentas e festivas.
Quando Naldo ali desembarcou da sua nave pessoal, dirigida sem plano de voo, ou seja, sem rumo e sem destino, viu-se em meio a inesperada balbúrdia, espécie de caos organizado. Com jeito, passeou entre os grupos de inflamados torcedores – gente simples e alegre de todas as idades – e aproximou-se o mais que pôde da borda do campo; gostava de futebol, uma das atividades cerceadas pela ignorância do padrasto. De pronto, escolheu para torcer e até dar algumas instruções os meninos de camisas verdes que, só depois soube o motivo, atuava com um jogador a menos e sem peça de reposição, e isso os levava a sofrer violenta pressão do time adversário, meninos vestidos de azul, com banco de reservas e o apoio maciço da torcida ali presente. Assim que o árbitro deu por encerrado o primeiro tempo, todo o grupo de verde – cinco garotos ofegantes – veio para o lado em que Naldo se encontrava. O líder deles, um magricela de cabelos crespos e mais crescido que os outros, firme na marcação, nos desarmes e no comando da equipe, entre sôfregos goles d’água sugados de garrafinha plástica fornecida pelos promotores do evento, chegou junto ao único torcedor do time, indo logo direto ao assunto do seu interesse:
– Tu sabe jogar bola?
– Sei, sim.
– Em que posição?
– Prefiro a armação, mas também posso fazer o papel de pivô.
– Quer jogar no meu time? Somos os Meninos de Rua. Como você viu, nem torcida temos.
– Quero, sim. Eu também sou menino de rua.
– Pois venha cá.
Rapidamente fez as apresentações, enquanto todos se levantavam do chão, onde, sentados, descansavam.
– Aqui ninguém tem nome. Só apelido. Por exemplo, eu sou o Espigão e esses são o Ventania, o Salgadinho, o Esponja e o Dentuço; falta apenas o Chocolate, machucado no tornozelo, tá com dificuldade até pra andar. Turma, este aqui é o Grafite – e, assim, já batizava o Naldo, no ritual simples do grupo, o que também significava a aceitação do seu ingresso, caso quisesse –; ele é o nosso reforço, contratado de última hora. Tome o seu material – calção e camisa.
Eles fizeram uma roda, no centro da qual Naldo – agora Grafite – se trocou. Guardou as sandálias, a roupa – short, camisa e toalha –, cuidadosamente dobrada, junto a dos seus novos companheiros de luta. Soube que o time já perdia por 3×0 e podia levar sonora goleada se não reagisse.
E veio o segundo tempo da refrega. No seu primeiro lance, mostrou o cartão de visitas. Dominou a bola com estilo, fintou de corpo o marcador e enfiou-a no meio da zaga para o Ventania, na velocidade, aparecer na diagonal e estufar o barbante: 3×1. Parte da torcida manifestou-se com acalorada vibração; e os Meninos de Rua ganharam alguns aliados. Minutos depois, agora em jogo parelho, bem disputado, o Dentuço sofreu falta já no campo adversário. Grafite assumiu a responsabilidade da cobrança e, num chute de muito efeito, venceu a barreira e fez a bola aninhar-se na rede, lá onde o goleiro não sai sequer na fotografia. Um golaço. Mais vibração à margem do campo. Os garotos da Comunidade da Nova Esperança, em jogada bem articulada, aumentaram para 4 o placar em seu favor. Os Meninos de Rua logo reagiram e, com gol do Esponja, diminuíram a diferença. Já nos acréscimos, numa outra jogada espetacular do Grafite, o Espigão surgiu no meio da defesa para, de cabeça, empatar o jogo – 4×4. Na disputa por pênaltis, o goleiro Salgadinho fez mais uma defesa miraculosa, levando o time à vitória (3×2) e à classificação para a final do torneio. E que viessem os vencedores do jogo seguinte.
Naldo virou o herói do jogo, o protagonista da reação. Tornou-se alvo até de alguns espectadores amantes do futebol-arte. Ele usou uma porção de água de beber para lavar o rosto, refrescá-lo, enxugando-o na toalha de cor rubra, presente de Natal do Menino Jesus. Beijou-a com enlevo, dobrou-a com carinho e guardou-a com zelo, junto com as sandálias e roupa. Saboreou com prazer o momento então vivenciado.
A final do torneio foi da mais pura emoção. Contra o bom time da Comunidade da Barra – a quatro quadras dali, a praia e o estuário de rio que cortava a cidade formavam a barra de rara beleza –, o placar manteve-se inalterado por quase todo o tempo regulamentar. Quando a peleja já se encaminhava para a disputa por pênaltis, eis que a estrela do craque, do fora da curva – o Grafite, é óbvio – brilhou excepcionalmente. Após agasalhar a bola no peito, deitá-la com classe no piso de areia, com dribles desconcertantes deixou dois marcadores para trás, fintou o goleiro e só não entrou no gol com bola e tudo porque teve humildade; apenas empurrou-a suavemente para o fundo da rede. E correu para o abraço dos seus parceiros. Garantiu, assim, o título de campeão do torneio para os garotos vestidos de verde – o Meninos de Rua – que, na comemoração, gritavam que o Grafite havia descido do céu para fazer a festa. Sem dúvida, Naldo – ou Grafite – fora o melhor do torneio, a grata surpresa do evento. Além das medalhas, o troféu que marcaria tão especial conquista eram vales com direito à refeição no restaurante da esquina.
Antes do usufruto pleno do prêmio, a dirigente da Comunidade da Senhora do Perpétuo Socorro, em face de os garotos serem moradores de rua, convidou os campeões para o banho na sede da associação, casa a um quarteirão do polo de lazer, com direito a chuveiro, sabonete e toalha felpuda. Era isso o de que mais precisava o protegido do filho da Santíssima Mãe. Como o material usado por eles fora cedido por tão generosa senhora, facilitada tornou-se a devolução. Agradecidos, saíram dali, em bloco, direto para o local do almoço. Em mesa armada na larga calçada, à frente do restaurante ainda com baixo movimento, eles tiraram a barriga da miséria. Para Naldo, assim se dava a sua estreia festiva no seu novo grupo familiar. Seria o início triunfante de uma nova etapa da vida? E o Menino Jesus estaria com eles?

“Nesta idade em que sou quase eu mesmo / certas coisas de mim se afastam / com medo / preciso procurar nos escombros / minha imagem e semelhança” (Batista de Lima, em Maturidade/Tiborna; idem, ibidem; pág. 49).

Já que na vida nem tudo são flores, há também os espinhos, a semana de Naldo começou com o processo de adaptação ao novo padrão de vida. E Espigão, o líder, foi muito claro na fala de boas-vindas ao novo membro do grupo, assim que todos retomaram a crucial realidade em que viviam.
– Nós somos pobres, nada temos além da vontade de viver. Necessitamos da ajuda dos outros. Só sabemos pedir. Nós podemos ser marginalizados, mas não somos marginais. Isso jamais! O grupo não admite o cometimento de atos que nos envergonhem, que nos exponham aos castigos da sociedade. E é assim que a gente se mantém vivos. Unidos sempre.
O novo integrante do grupo então se submeteu a alguns aprendizados para a sua própria subsistência, tais como: dormir sobre papelões e sob a marquise da agência bancária da esquina; agasalhar-se sem queixas com o que então dispusesse para tanto; enfrentar fila na porta da popularmente conhecida como a Casa do Pobre, equipamento social do governo que distribuía marmitas entre os desvalidos; satisfazer as necessidades biológicas em banhos de rio ou de mar, neste caso, sempre com muito cuidado para evitar que uma onda incomodada leve com ela o calção ou a cueca, o que lhe causaria uma situação extremamente vexatória; enxugar-se ao vento; lavar a própria roupa em pequenas cacimbas abertas no estuário do rio; respeitar sempre o outro; e ser parceiro acima de tudo. Além disso, estar sempre disposto a jogar partidas de futebol onde quer que isso fosse possível. Aos sábados à noite, Grafite voltava a ser Naldo. Assistia à missa na igreja da sua especial preferência; dormia no velho confessionário de madeira, portinhola de abrir em bandas e cortina de tecido com arremates de crochê; aliviava-se no ralo de banheiro de caixa sifonada ao pé da pia de torneira de parede, onde asseava-se; enxugava mãos e rosto na toalha que lá mesmo deixava; persignava-se à frente do altar, ante o sacrário onde o ostensório expunha a hóstia consagrada; trocava olhares com o menino agasalhado no protetor colo materno; e saía pra rua pela mesma porta de sempre. Abençoado e com energias renovadas para mais uma semana de luta pela vida. E ali no polo de lazer, em plena manhã de domingo, travestia-se de Grafite – para jogar e dar show ou para apenas torcer.
E o tempo passou, no seu rígido compasso. Espigão e a sua turma já não mais dormiam ao relento, nem sobre papelões. Convidados, através do Grafite, pelo casal de idosos que, na igreja, aos sábados à noite, sempre se sentava ao lado de Naldo, criando-se entre eles uma grata intimidade, já se agasalhavam em redes armadas no alpendre lateral da casa deles, no último quarteirão antes da praia, isolada e recuada em relação à via de acesso, com jardim frontal e área de lazer coberta, churrasqueira, banheiros e chuveiro, ora praticamente sem uso. Preenchiam, segundo os anfitriões, os espaços já não mais ocupados pelos filhos e netos, construtores de outras realidades em lugares distantes dali.
E a ampulheta do tempo virou muitas vezes, sem que ninguém percebesse – nem eles, os protagonistas desta narrativa; nem nós, o narrador e os seus eventuais leitores. E os parceiros de Grafite já usavam, nos fins de semana, as camisas da Comunidade Senhora do Perpétuo Socorro, com a imagem dela estampada no peito, o Menino Jesus alegre e sorridente. Tudo isso refletia o compartilhamento – o Naldo como intermediário – então estabelecido entre a generosa senhora dirigente da associação e o casal de idosos que os acolhia à noite e, em contrapartida, deles recebiam o devido cuidado de jardineiros, zeladores e prestadores de serviços gerais.
E o ano se ia. Já chegava novamente o período natalino. Toda a cidade se engalanara para as festas de fim de ano. As pessoas se mostravam mais acolhedoras, usufruindo da saudável sensação de um novo tempo – de luz, de paz, de saúde, de amor fraterno. E Naldo, naquele sábado, véspera da data festiva, do regozijo pelo nascimento do amorável menino na manjedoura do coração de cada um dos cristãos, veio para a missa com a toalha de cor rubra ao redor do pescoço. Aos curiosos que procuravam saber o que aquilo significava para ele, o adolescente – agora com doze anos completos e alguma experiência recolhida nas vivências da rua – explicou que simbolizava a amizade conquistada de um menino simples e de rara importância, que sempre se fazia presente em sua vida, dele recebendo proteção; agia assim para manifestar a sua eterna gratidão. Nessa noite não se fez hóspede da igreja; dormiu com os parceiros, crente de que nas conversas que antecipariam o sono driblaria a incômoda ansiedade pelo que estava previsto para acontecer no dia seguinte.
Veio o domingo. Embora fosse um dia de festa, tudo ia transcorrendo na mais perfeita normalidade. No polo de lazer, os meninos de rua assistiam aos jogos do torneio de veteranos. Até que, por volta de meio dia, foram convidados para o almoço no restaurante da esquina, sob o patrocínio de um jovem senhor, esportivamente vestido, o discurso simples, mas convincente. Na hora da verdade, a surpresa. Quem os presenteava com a farta mesa era agenciador de novos talentos no futebol, vinculado a um grande clube da capital, disposto a investir na carreira de jovens com potencial e interesse em ser preparado com vistas a um futuro promissor. E ali estava por conta do Grafite que então se despedia do grupo.
– Isso mesmo, amigos. – Falou a estrela de maior brilho da pequena constelação, diante de uma plateia de parceiros. – Eu aceitei as condições propostas pelo clube, incluindo a hospedagem no Centro de Formação de Atletas e o integral acompanhamento de profissionais de reconhecida qualificação, além do retorno aos estudos em colégio particular e do plano de saúde, tudo assegurado por parceiros do projeto. Nada podia dizer a vocês até este momento. Regras do jogo. Assumo o compromisso de jamais esquecer o tempo de nossa tão agradável convivência. Com vocês aprendi a agir como ser humano. Com você Espigão, aprendi a respeitar as regras e, principalmente, os outros; você é um líder nato. Vocês sabem dar valor às amizades. E isso é o que importa. Um abraço a todos.
Os meninos se levantaram. Cada um abraçou o amigo que partia para conquistar o seu espaço no mundo. Em seguida, sob a batuta do maestro Chocolate, cantaram: “Hoje é um novo dia / De um novo tempo que começou / Nesses novos dias, as alegrias / Serão de todos, é só querer / Todos os nossos sonhos serão verdade / O futuro já começou / Hoje a festa é sua / Hoje a festa é nossa / É de quem quiser / Quem vier…”
Dali já saiu no Range Rover branco do agenciador, com destino ao futuro, numa nova fase da vida. Na sacola em que pusera os seus poucos pertences, acomodara a toalha de cor rubra que, com certeza, concorrera para a abertura de muitas portas, num universo de diversas possibilidades. E esta era mais uma. E o Menino Jesus estava com ele. Sempre esteve.

“É muito duro saber / que tudo que muito dura / mais próximo está / de deixar de durar” (Batista de Lima, em Amor/Tiborna; idem, ibidem; pág. 61).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.