CONTO DAS FLORADAS – Flores da cerejeira

[O trabalho] “Vem às vezes em nebulosa sem que eu possa concretizá-lo de algum modo. (…) E, quando chega, já vem em forma de inspiração. Eu só trabalho em forma de inspiração.” (Clarice Lispector, em Chico Buarque ou Xico Buark/De Corpo Inteiro. Rocco, 1999; págs. 64-69).

PREÂMBULO

Ultimamente, alguns distúrbios gastrointestinais decorrentes do rigoroso e contínuo tratamento farmacoterápico pós-hospitalar por pneumonia com cavitação, cujos desdobramentos afetaram as funções hepática e renal, bem como a ardência dos pés, como se estivessem agasalhados em meias esbraseantes, resultante da má circulação sanguínea em áreas periféricas dos membros inferiores, disfunção causada pelo diabetes mellitus (hiperglicemia), têm-me submetido a transtornos cotidianos que mais me incomodam quando interrompem o sagrado sossego com que me favorece a deidade grega do sono – Hypnos, pai de Morfeu, ser alado e metamorfo, o deus dos sonhos, e irmão gêmeo de Tânatos, o deus da Morte.
Era madrugada. A dolorida sensação de que algum instrumento pontiagudo perfurava lenta e profundamente a região plantar do pé direito, o mesmo cujo hálux (o dedão) quase o perdera recentemente, fez-me acordar abruptamente. Sentei-me, meio sonolento e meio contrariado, na borda da cama. Passada a contrariedade dessa indesejada interferência no que sempre me foi tão cômodo e reconfortante, veio o estranhamento: quem houvera praticado o ato, o cutucão que ainda latejamentos provocava nos músculos plantares centrais do pé, sorria um riso amarelecido e próprio de quem comete traquinices, de quem intervém em atos que, a rigor, não lhe dizem respeito, a translúcida e graciosa figura da minha musa inspiradora que nem sequer se constrangeu com a impropriedade do ato, nem tampouco se humanizou pela generosidade do pedido de desculpas. Por ser naturalmente inumana e essencialmente dominante e influenciadora, sua soberania não reconhece o que sejam tempo e espaço. Então, de vez em quando, age ao seu bel-prazer.
Logo advertiu-me, sem arrefecer o insuportável ar de superioridade que, às vezes, a mim me parece aproximar-se perigosamente da arrogância:
– Exijo ação, rapaz! Eu, após vasculhar o passado como quem procura agulha em palheiro, doo-lhe prazerosamente o fio da meada que, identicamente ao de Ariadne, lhe mostrará o sempre labiríntico caminho para uma nova narrativa e você simplesmente dorme. Reaja. Escreva. Produza. Por onde anda o seu prazer de escrever? Não o perca! Não corra esse risco! Alimente-o sempre! Senão, iminente será a minha perda. Entendeu?!
Invadiu-me, então, a sensação de ser um Alighieri modernoso reverenciando o seu mestre e guia Virgílio, para ele o maior dos Poetas, que o conduzia pelas profundezas circulares do inferno, onde a percepção dantesca ia revelando haver mais que apenas choro e ranger de dentes: “Sempre me agrada o que a ti parece bem. És quem comanda e não me aparto do teu querer, bem o sabes, pois conheces os meus desejos.” (1). E ela, num gesto de acolhimento, deixou transparecer um abrandamento de rigores e propósitos.
Cuidei de logo atendê-la, cumprir com os seus desígnios; não como escravo submisso às suas ordens, prisioneiro das suas intenções, mas como parceiro fiel de quem só me favorece com a inspiração, de quem reclama sempre para que eu me envolva completamente, de corpo e alma, na transpiração, até que se conclua o extenuante processo de criação. Na verdade, anima-me ser um de seus muitos pupilos e servi-la de meio para dar materialidade às suas poéticas vontades, aos seus deíficos desejos. Ave, Calíope! Musa minha serás por todo o sempre! Acho que antes de evolar-se, ela assim me instigou, ao seu modo, a evoluir-me:
– Fosse você dotado de dons artísticos mais apurados e nós, eu e você, alcançaríamos a tão desejada perfeição no que nos arriscamos a produzir e, assim, nos aproximaríamos do Criador. Seria, então, a glória plena e absoluta.
Eram quatro horas e poucos minutos da madrugada. Levantei-me. Asseei-me. No silêncio absoluto da noite que, aos poucos, ia se esvaindo e sob a luz frouxa de uma única lâmpada acesa, em respeito ao sono dos outros, ancorei o meu barco, com a habilidade de sempre, no porto da minha ilha de criação, logo acionando os instrumentos de trabalho. Arregacei as mangas da blusa do pijama – que não uso; a referência, perscrutantes leitoras e leitores, não passa de figura de linguagem, de tentativa simplória de dotar o meu texto de algum atavio poético –, pus-me a laborar, com vistas a dar forma ao conto saído da inspiração da minha musa e, assim, desincumbir-me da tarefa que por ela me foi confiada. E Calíope sabe que, sem ela a inspirar-me, de que valerão os meus desventurosos dotes artísticos?!
À narrativa, portanto!

PARTE I.

“Devia ter dezesseis para dezessete anos. Alta, loura, olhos claros, bela, terrivelmente bela. (…) As formas, estas eram coisa de Deus. E como não é mais possível existir hoje em dia uma criatura tão definitivamente bela sem que os meios modernos de publicidade espalhem pelos quatro cantos do mundo a sua imagem, era de supor-se que, menina-e-moça quando se deitara na noite anterior, havia desabrochado mulher, e não se apercebera de que inaugurava um mundo novo…” (Paulo Mendes Campos, em Aparição/Alhos & Bugalhos: crônicas humorísticas. Civilização Brasileira, 2001; págs. 161-163).

A chegada da família no bairro, para residir em casa defronte à pracinha, centro de convergência das manifestações e reações da gente simples que dava vida àquela comunidade periférica, causou movimento natural de branda excitação, principalmente tendo como atores muitos dos que formavam a sua saudável juventude. Vinda de cidade bem mais interiorana, compunham-na o pai, servidor ferroviário aposentado por invalidez, a mãe, das prendas domésticas, de cuja cozinha saíam guloseimas apetitosas e adocicadas – suspiro, colchão de noiva, quebra queixo, pé de moleque, tijolinhos de coco, pirulitos, além de doces de leite e de mamão verde –, e uma prole de oito filhos em escadinha, como era costume nominar à época uma enfieira de rebentos, dos quais seis belos exemplos de como a Natureza sempre foi benevolente com as mulheres, no caso com um pouco mais de apuro, e apenas dois rapazotes em plena adolescência.
Eram simplesmente belas as meninas. Todas elas. Reunidas, mais pareciam um buquê de lindas e aromáticas flores da cerejeira (2), em tamanhos diversos, a maior espargindo o frescor da jovialidade dos vinte anos incompletos e a menor disseminando inocentes gracejos, próprios de quem estava prestes a deixar a primeira infância. Aos olhos do mais insensível crítico, tinha-se ali um arranjo floral de incomum deslumbramento, capaz de causar arrebatamentos vários, a depender do humor ou disposição de espírito de quem lhes dispensasse a atenção. Recobriam-nas suaves mantos epidérmicos ligeiramente amorenados; distinguiam-nas olhos profundamente esverdeados, duas pedras de jade divinamente lapidadas e artisticamente encastoadas em rostos de linhas perfeitamente delineadas e encimados por cabelos castanho-claros, lisos e escorridos até às costas; aformoseavam-nas o natural e leve olor dos campos verdejantes, o olhar querençoso e o sorrir generoso e tão suave que só lentamente ia atingindo as comissuras da boca, de lábios ligeiramente carnudos; e embelezavam-nas corpos de formas que revelavam perfeição prodigiosa, mirífica, transcendental, e que despertavam em seus admiradores sentimentos que variavam do discreto e sensato êxtase, revestido de pureza d’alma, até aos censuráveis desejos carnais, pecaminosos, frutos de mentes permeáveis aos arroubos inconsequentes e inoportunos do sexo. Eram simplesmente apaixonantes as meninas. Todas elas.

“De vez em quando a natureza faz um ser de beleza perfeita e harmoniosa.” (Clarice Lispector, em Tônia Carrero/De Corpo Inteiro. Rocco, 1999; págs. 104-108).

Por outro lado, os sinais exteriores de simplicidade, no vestir-se principalmente, assim como a modéstia no comportamento, sem expressões de apurada formação sociocultural ou até mesmo de arrogância, evidenciavam um padrão de vida de quem enfrentava dificuldades cotidianas, de quem passava por necessidades básicas, em face da perceptível dependência financeira do grupo familiar, com uma única fonte regular de renda – os proventos de aposentadoria do responsável pelo sustento de todos –, do que resultava a grave incompatibilidade dos recursos com as exigências primárias de manutenção de tão complexa prole. Nenhum dos seus oito integrantes desempenhava alguma atividade rentável, nem frequentava escolas, seja da rede estadual de ensino, cujos investimentos se restringiam ao fardamento e material escolar, seja da rede particular, cujos desembolsos envolviam também as mensalidades. E isso, por si só, já refletia o padrão antes descrito. Criticável, ao exclusivo sentir do narrador, era a acomodação que reinava no grupo familiar, aceitando a situação que todos vivenciavam. Exceto a cozinha, de nenhum outro ambiente da casa vicejava a mais simplória reação à realidade do cotidiano. O comportamento dominante era de inexplicável naturalidade.
À época, animados eram os encontros dos jovens do bairro, todos ainda imberbes, impúberes, no mais das vezes acomodados no espaço central de um dos três módulos da pracinha – o de menor fluxo de pessoas – arborizada por altas e vistosas copas de algarobeiras e iluminada por lâmpadas incandescentes instaladas sob arandelas fixadas em postes de jardim, quando se dava o mais expressivo processo de socialização juvenil, através de longas conversas sobre assuntos vários, desde meras amenidades a controversas ocorrências fáticas que os incomodavam, de alegre e mágica contação de anedotas e piadas, de jogos lúdicos e de capelas de músicas do auge do vanguardeiro iê-iê-iê, da universalizante beatlemania, sucessos interpretados pelos ícones da Jovem Guarda, tais como Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa e Martinha, Antônio Marcos e Eduardo Araújo, Jerry Adriani e Wanderley Cardoso, Ronnie Von e Raul Seixas, além de bandas como The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, The Brazilian Bitles e Golden Boys. E a felicidade se enfronhava, sem pedir licença, nas nossas joviais existências.
Desses encontros, em que ocorriam, também, furtivas trocas de olhares, infrutíferas paqueras e até namoricos despretensiosos – experimentos de quem ainda não sentira o pleno despertar para o romântico “amor a dois” –, Gláucia, a mais velha das belas meninas-moças, não participava porque o seu círculo de amizades se construía em outro patamar etário. Flávia, na flor da adolescência plenamente desabrochada, uns três anos mais nova que a irmã, logo amoldou-se às especificidades do grupo, tornando-se frequentadora assídua de tais eventos de saudável entrosamento. Era a piadista sempre requerida nos momentos de mais intensa ludicidade, por reunir imaginação e fantasia, expressões quiméricas pelas quais denotava raríssima inclinação. Causava-nos risos e até sonoras gargalhadas.

PARTE II.

“E ela tão triste, tão bela, / Dos seus anos na flor, / Por que havia de sagrar pelos meus sonhos / Um suspiro de amor?” (Álvares de Azevedo, em Fui um doudo em sonhar tantos amores/Lira dos Vinte Anos).

Lá no outro polo do bairro, ficava o portal de entrada e saída da metropolitana cidade pela perspectiva do sertão, onde ocorria o início do prolongamento, agora sob a identificação de rua, da rodovia estadual recentemente asfaltada, via que a ligava a outras localidades circunvizinhas e até à capital, à qual margeavam extensos conjuntos de casas conjugadas e espremidas contra as aclivadas encostas de morro e colina, características de área com relevo acidentado em pé de serra. De um lado, bem próximas ao leito asfáltico – por onde fluía o trânsito veicular, trafegavam, além de bicicletas e carroças de tração animal, tratores movidos a óleo diesel com reboque de carroçarias de madeira, jipes de duas ou quatro portas, as recém-lançadas peruas de duas portas denominadas Rural Willys (que iriam compor uma peculiar história), as caminhonetes, os caminhões de carga ou de transporte de pessoas (os populares paus-de-arara, de uso mais frequente em dias de feira e em noites de festas religiosas) e os ônibus (que cobriam a rota diária intermunicipal e pertenciam à Empresa Redenção e competiam com o trem) –, verificava-se a mesclagem de imóveis com destinações diversas, umas residenciais e outras comerciais, quando as duas funções não se conjuminavam (comércio no cômodo primeiro; residência nos demais), com mais frequente movimento de pessoas. Do outro, em recuo de dez ou doze metros, área com piso em calçamento de pedra tosca, erguia-se uma vila de pouco mais de vinte casas, todas edificadas em alvenaria, cobertas com telhas de cerâmica já em adiantado processo de enegrecimento pela ação das chuvas e do sol e denunciador do tempo das suas construções, telhado em duas águas ou duas faces de escoamento com cumeeira longitudinal, platibandas altas, porta e janela frontais de madeira com proteção de tinta a óleo, paredes pintadas a cal e água em cores diversas que acabavam distinguindo uma das outras, calçadas irregulares e de cimento caraquento e pouco escorregadio e limitadas por pedras de guia de rua. Como aparato de proteção dos vespertinos raios solares, uma fila de árvores de médio porte plantadas ao correr do meio-fio, composta de ipês amarelos, algarobeiras, castanholas e benjamins, arborizava aquele espaço, que se alongava desde um dos íngremes acessos ao Alto da Capela, em cujo cocuruto erguia-se a igrejinha de Cristo Redentor, até verdejante várzea, por onde escorriam as claras e tranquilas águas de riacho quase perene, nascido lá pras bandas do Mucunã, em cujas margens o proprietário cultivava capim-elefante que, no tempo certo, fornecia a pequenos e poucos criadores de gado leiteiro, com estábulos nas proximidades e produção diária servida, logo nas primeiras horas do dia, mal os galos paravam de cantar, na porta das casas da freguesia em latões acomodados em caixotes de madeira e presos às cangalhas encilhadas ao lombo de burro, ao centro, bem sentado o sempre solícito leiteiro, figura que, àquela época, dividia com o padeiro e o verdureiro a construção de ricas histórias essencialmente humanas. Bons tempos!
Numa daquelas casas, já bem próxima ao portão de acesso à várzea, residia um senhor – chamemo-lo de Antenor – aparentemente quase cinquentão; servidor público com vasta folha de serviços prestados ao Fisco, então restrito a “cancelas” em pontos críticos da rede viária interestadual, onde mais intenso era o fluxo irregular de produtos e mercadorias comercializáveis para além das fronteiras do Estado; detentor de patrimônio que o incluía no rol dos ricos, na conceituação da época, de que constavam imóveis residenciais e pontos comerciais locados sob contratos firmados diretamente entre locador e locatários, sem a intermediação de corretores, ofício que ainda não havia, em especial no interior; de comportamento reservado, não participava de qualquer tipo de evento social. Ele tinha como companhia apenas uma irmã, ambos celibatários ou avessos à união conjugal, e um sobrinho adolescente, rapazote nascido de uma episódica aventura, de um caso de amor juvenil que a ela não rendeu o que mais dele esperava. O jovem, num tempo em que não havia sinalização de trânsito, nem vertical, nem horizontal, sonora ou luminosa, muito menos a fiscalização de rua, assumiu, sem a devida habilitação formal, a função de motorista particular do tio, dono de um bem cuidado jipe de quatro portas.
Em dias de folga, era comum o seu Antenor percorrer os logradouros dos domicílios dos seus locatários e receber a justa renda mensal de locador, além de dar o devido encaminhamento a eventuais problemas cuja solução lhe eram cabíveis. Isso consistia no único fator motivador de suas raras andanças pelo centro da cidade. E foi no retorno de uma dessas andanças, bem acomodado no banco de carona do jipe guiado pelo sobrinho que, ao passar em frente à casa das belas flores da cerejeira, viu, pela primeira vez, a figura cativante da mais madura delas, a Gláucia, de pé no meio-fio, o vestido simples colado ao corpo de curvas bem definidas, o cabelo esvoaçando ao sabor dos ventos, a beleza divinal humanizada. O coração do velho senhor bateu descompassadamente; o olhar fixo no que ora o encantava; o gesto de quem fora flechado por Cupido. Ordenou, então, ao sobrinho que parasse o carro, no que foi atendido tão logo tornou-se possível estacioná-lo em local que não atrapalhasse o trânsito.
A moça, ao se perceber alvo da atenção dele, sentiu, de imediato, arder-lhes os seios da face, invadir-lhes as entranhas um misto de vergonha e raiva, e, sob tais efeitos, deu no sensual corpo um rápido giro de cento e oitenta graus e recolheu-se, num abrir e fechar de olhos, no protetor aconchego do lar. Demorou a compreender a natureza do ato, para ela fora de qualquer propósito. Resmungou indócil: “Valha-me, meu Deus!”. Ao lembrar-se de quem se tratava, rezingou irônica: “Cabra velho! Devia olhar-se no espelho!”.
Para o Antenor, a arrebatadora visão impôs-lhe um sentimento contra o qual sempre se posicionara, sempre resistira. Rendeu-se: como se jovem fosse, apaixonara-se à primeira vista. Decidiu-se: por esse amor imprevisível e extemporâneo, lutaria para conquistá-lo, não importando de que armas faria uso, pois o fim justificaria os meios, principalmente no seu caso, pois já não mais dependia de tempo para usufruí-lo nos moldes tradicionais.
Estabeleceu-se, então, um interessante embate de cunho socioeconômico, além das fronteiras de qualquer romantismo piegas: de um lado o capital farto e pródigo – como ora se propunha o seu dono – e do outro as necessidades básicas de quem parecia não se preocupar tanto com isso; como ponto de atração, de aproximação, o amor declarado por quem detinha o capital; como fator de dissensão, de conflito, a rejeição incontida de quem pretendia viver dias mais floridos, sem ter que se submeter às impositivas condições da riqueza material. No entorno, as pessoas que, de uma forma ou de outra, exerciam influência no comportamento de ambos; no da menina-moça com mais intensidade, haja vista os condicionantes da sua peculiar situação, isso potencializado por sua jovialidade de quase nenhuma vivência que a norteasse em tão complexa decisão. Acresça-se que sempre povoaram os seus amorosos sonhos príncipes jovens e belos que a conduziam, ao mavioso som de flautas e violinos tocados por entes angelicais, através de escadarias de guarda-corpos banhados a ouro e ornados de flores olorosas, ela com longos cabelos cingidos por grinalda de alvas florezinhas e branco véu esparramado pelo chão marmóreo e o corpo envolvido em vestido-símbolo da pureza e candidez e da beleza divinal, até palácios portentosos, cujos acessos sempre a faziam acordar, na alma o insosso sabor da frustração. O que, convenhamos, não era bem o caso do seu inesperado proponente, apesar das posses de que literalmente não desfrutava.
De repente, quem surge à minha frente, ó persistentes leitoras e leitores? Exatamente! A sempre translúcida musa inspiradora que, mantendo a irreprimível autoridade, interpelou-me:
– Não adianta esconder-se por trás de cortinas de tecido mal cosido! Para quem assume o papel de narrador onipresente, é imperdoável omitir-se quanto a detalhes fundamentais à perfeita condução da narrativa. Portanto, o que você ora faz não o qualifica perante as exigências do percurso que ainda vão trilhar os seus personagens. Cuidado!
Ainda perplexo diante de tão inusitada aparição e em quase desalento ante tão incompreensível e incabível advertência, advoguei, corajosamente, em meu favor:
– Datíssima vênia, a mim, não me parece tratar-se de omissão, ó mítica senhora! Apenas ainda não encontrei o momento oportuno para debruçar-me sobre tais detalhes que ora me cobras, ó irrepreensível protetora das artes! Peço-te um pouco de paciência. Asseguro-te que logo os teus reclamos serão atendidos na exata medida.
E ela, gravíssima e graciosa na sua natural diafaneidade, do jeito que do nada emergiu, evolou-se. Prossigamos, então.
Tolerantes leitoras e leitores, conforme já assinalei em narrativas outras, translúcidas deidades costumam dispender forças imperceptíveis visando a estimular pessoas a enfrentar situações inesperadas, às vezes até com alto grau de complexidade, cuja concretude só se confirmaria pela sua intervenção, por fazê-las assumir o devido protagonismo em realidades por elas jamais imaginadas. Pois é nessa linha de entendimento que as/os convido a apreciar o que, a partir de agora, proponho-me a expor.
Já era setembro. Equivalia a dizer que deixávamos para trás o mês do cachorro louco (muitas cadelas no cio ao mesmo tempo) e inaugurávamos uma quadra que, segundo os mais velhos, quando éramos os mais novos, comumente acelera o passar do tempo ou, no linguajar deles, “Chegados os bê-erre-o-brós, o som dos fortes ventos já não mais ressoa; então, o calor vai ser de dar dó e o resto do ano voa”. Obviamente, essa celeridade só ocorre – se é que ocorre mesmo – no plano psicológico, haja vista que, no cronológico, os ponteiros dos relógios manterão imutáveis os seus tique-taques. E Maria agora que entrou no sexto mês de gestação; o menino Jesus ainda é um projeto de vida.
Era o primeiro sábado do mês. A manhã já acordou com um longo sorriso de encorajamento. A fina e subitânea neblina fora de época não se mostrou capaz de arrefecer o ânimo do dia nascente, tradicionalmente disposto a exigir das pessoas um despertar de coragem e determinação para a luta, diverso do que se dá nos outros dias. O sol logo se encarregou de espargir luz e calor por todos os recantos daquele específico universo. Era dia de feira. No centro comercial da cidade, no entorno do mercado público, um quarteirão de negócios até nas entranhas, o povo – de casa e de fora – se envolvia em múltiplas formas de comprar e vender, com o dinheiro vivo circulando à luz do dia, a céu aberto, sem intermediação de qualquer natureza, saindo das mãos de uns e indo diretamente para os bolsos de outros, a mercadoria desejada servindo de meio de interligação. Vendia-se de tudo. Comprava-se de tudo. Formava-se um envolvente burburinho. Ouviam-se, ao mesmo tempo, múltiplas vozes em variados tons. Apesar desse aspecto babélico, os atores desse drama essencialmente humano se entendiam e os encaixes de turnos de voz se realizavam em imensurável frequência, mas com inexplicável harmonia. Parecia um formigueiro, em toda a sua movimentação e funcionamento. Ao trânsito de veículos, que acontecia com razoável fluidez, juntavam-se as carroças de tração animal, as bicicletas, os cavalos, burros e jumentos, alguns para transportes de carga, outros para montarias. Caminhões e caminhonetes, oriundos de lugares vários, disputavam espaços em estacionamento improvisado. No começo da tarde, o espetáculo começava a perder força, a perder brilho; tudo se ia lentamente se desfazendo. A partir do meio da tarde, lembrando os términos dos desfiles carnavalescos das escolas de samba cariocas, só restavam lixo e entulho para o pessoal da limpeza remover antes que a noite chegasse.
E a noite chegou; com ela, o fulgor de uma lua artisticamente arredondada, de coloração tão intensa que a fazia brilhar mais que toda a miríade de estrelas que, então, se contentavam em contribuir com o embelezamento da abóbada celestial que a ela, esplendorosamente radiante, servia de palco, onde desfilava com leveza, elegância e distinção. Nesse quadro do mais puro romantismo, digno até de um afresco do genial Michelângelo, eis o que nos reservou o poeta divinal. O assunto dominante nas conversas dos mais diversos grupos era a fuga de Flávia na boleia da caminhonete de jovem comerciante, bem-sucedido lá na cidade mais interiorana em que por muitos anos a família morara e onde alguns de seus irmãos nasceram. Ainda surpresas com o fato, as pessoas iam revelando detalhes assim como as beatas rezam terços – conta a conta. E os comentários revelavam: que já teria havido um caso amoroso entre Flávia e o rapaz, ele casado mas sem filhos; que isso levara o grupo familiar a mudar-se de lá para cá, ante o iminente risco de trágica consequência em eventual entrevero envolvendo as atrizes protagonistas do drama real; que, apesar da mudança, não teria havido rompimento do enlace, com a menina-moça sempre encontrando razões para ausentar-se de casa nas manhãs dos sábados e, em meio a efervescência da feira, ser parceira do jovem comerciante no encaminhamento dos negócios que ele realizava; essa a forma de manter o namoro marginal; que, não suportando a traição e a frieza com que o marido a tratava, a esposa teria optado por sair do casamento, inclusive retornando à casa dos pais, no interior paulista; que, na manhã deste sábado, Flávia teria arrumado algumas roupas em uma sacola, dito para a mãe que iria levá-las a uma costureira que se prontificara a fazer uns ajustes, necessários em face do seu natural crescimento; que a família só tomara conhecimento da insólita ocorrência quando a mãe, desconfiada e preocupada com a demora da filha, por volta do meio da tarde – talvez no instante em que a caminhonete do jovem comerciante, com a “prenda” em fuga, passava pela via à frente da casa, certas inexplicáveis coisas da vida –, teria descoberto um bilhete de despedida e pedido de perdão em meio a roupas reviradas na gaveta a ela reservada na cômoda do quarto que dividia com três irmãs mais novas; que, certamente, Flávia, ao optar por arrebentar os laços que a uniam ao encantador buquê de flores da cerejeira, iria dormir menina-moça e acordaria mulher. Da casa da família ninguém saíra; nada vazava em relação à insólita ocorrência; não se sabia como e através de quem a notícia ganhara a rua e se espalhara como rastilho de pólvora por todo o bairro. E o povo já sabia muito a respeito.
Surpresa causou nas pessoas que ainda conversavam sobre o assunto o fato de o seu Antenor, após o sobrinho estacionar o jipe junto à guia da calçada da casa dos pais da menina-moça fugida, visitar a família, certamente sem ter sido convidado, mas com algum interesse não declarado. “Afinal, – alguém alfinetou – o homem não dá ponto sem nó”.
Recebido com distinção, comprometeu-se a, logo na manhã do domingo, tratar pessoalmente do caso, indo cobrar do rapaz a assunção das responsabilidades pelo ato cometido, até para proteger a família ante o sentimento de apreensão em relação ao futuro da moça. Admitiu não acreditar que Flávia, naquele estágio de envolvimento, retroagisse, renunciasse ao amor a que se havia apegado. Recomendável, portanto, era trabalhar no sentido de dar ao casal a oportunidade da feliz convivência a dois. O pai pôs-se, então, a queixar-se da situação de impotência ante a enfermidade que o prostrara, não lhe sendo possível agir, como pretendia, em defesa da filha, agradecendo, em nome da família, a disponibilidade do amigo em ajudá-los em momento tão crucial e ressaltando até a eventualidade de ele vir a tornar-se seu genro, ao que reagiu a moça Gláucia com um furioso olhar de esguelha, o enrubescimento dos seios da face e a abrupta saída da sala de estar em direção ao seu quarto, sob os olhares de irreprimível aprovação de todos ali presentes.
E tudo aconteceu conforme o prometido. A visita do domingo, no final da tarde, agora sem o olhar crítico de qualquer tipo de público, tanto trouxe conforto e tranquilidade para a família de Flávia, como consagrou o seu Antenor como o anjo da guarda capaz de trazer a solução ideal para o problema mais complexo. Segundo ele, o rapaz assumira o compromisso de dar o devido encaminhamento à fuga, ato praticado a dois, ou seja, ele reconhecia o envolvimento e o consentimento de ambos, numa atitude de gente grande, que sabe o que quer; tão logo se resolvesse, legitimamente, a sua condição de ainda vinculado, pela lei de Deus e dos homens, à mulher do casamento ora em processo de dissolução, a relação deles ganharia as bênçãos do Pai e dos pais – os dele e os dela. Era apenas uma questão de tempo. A todos cabia afastar em definitivo as preocupações e aceitar a nova realidade. E agora eles teriam alguém disposto a colaborar na condução dessa outra conformação do grupo familiar. Bastava que nele confiassem. Pronto. O velho e apaixonado Antenor ganhara o apoio da última fronteira em que se entrincheirava a recatada e pudica Cláudia. De lá saiu com um sorriso largo, daqueles que ultrapassam os limites dos lábios e avançam pelos olhos, queixo e orelhas, além de acelerar os batimentos do coração, num rejuvenescedor gozo do prazer da conquista. Como se adolescente fosse, surpreendido com a ação das deidades que cuidam das paixões, custou a dormir, projetando uma nova vida com a amada, o vazio da alma, só agora descoberto, sendo preenchido cotidianamente, até nos gestos mais simples, pelo pleno atendimento das condições impostas pelo Amor. Seriam felizes!
Tão logo saiu da casa de Gláucia, a mãe dela se aproximou com um discurso diverso do que até usava em favor da rejeição da filha à proposta de unir-se ao idoso senhor:
– Gláucia, minha filha, o seu Antenor demonstrou ser uma boa pessoa. Acho até que foi Deus quem o colocou em nossas vidas. Não podemos contrariar a vontade do Altíssimo, os seus desígnios. Desconsidere, por favor, essa ideia de sacrifício. Aceite-o em nome do Amor e o tempo se encarregará de levá-los pelos caminhos da verdadeira união. Pense nisso, filha minha. E confie em nós… em mim… no seu pai…
A moça nada disse. Não admitiu nem contestou. Mas teve uma noite difícil, por não compreender o porquê de a terem metido em tão grave situação. “Coisas do Destino?! Não acredito!” – Pensou, olhando para o telhado da casa. Quando o sono venceu a última resistência, já era madrugada. E ela já se entregara, vencida pelos argumentos das amigas e dos familiares, à proposta de receber o Antenor como noivo e futuro esposo. Nas mãos de santo Antônio, o casamenteiro, depositava a confiança derradeira de não cometer equívoco ao afastar a resistência da hesitação, até então a sua muralha de defesa.
Neste ponto, compreensíveis leitoras e leitores, tomo a liberdade de dar uma rápida parada na narrativa, numa imprescindível recuperação de fôlego em meio a longa e extenuante travessia, embora resgatando, por Ernesto Sábato – romancista, autor de Sobre Heróis e Tumbas, “sem dúvida um dos mais importantes romances argentinos do século XX” e defensor de que o escritor “precisa alimentar o fanatismo da escrita” (3) –, um curto trecho da correspondência do francês Gustave Flaubert, ao tempo que escrevia Madame Bovary, para quem “É delicioso quando se escreve não sermos nós mesmos, mas poder circular por toda a criação à qual se alude”. Embora soframos a ansiedade de sempre seguir o caminho certo em direção ao desejado desfecho, gozamos, em gotas de estímulo, o prazer de ter o que escrever. E isso nos eleva, enquanto agimos, ao patamar dos deuses.

EPÍLOGO

Curtíssima foi a fase do noivado. Perceptível era o incômodo que muito entristecia a noiva nas recepções noturnas ao noivo e nos colóquios forçados, na sala de estar do seu reduto que não resistira às investidas do obstinado pretendente. Malgrado essas sessões de desalento, através delas, às vezes com rápidas e singelas participações dos sogros, dava-se o alinhavo dos projetos visando à eficaz condução dos atos preparatórios do evento principal – a união conjugal na originalíssima versão de “a bela e a fera”. Isso mesmo. Havia um contraponto que claramente sobressaía com o casal formando um par de profunda desigualdade visual. Ela, em estatura mediana; ele, um claudicante espigão. Ela “terrivelmente bela”; ele irremediavelmente feio. Com efeito, a fealdade do seu Antenor resultava de uma adversa combinação de fatores que iam do corpanzil desconjuntado e desprovido de musculatura condizente com a estrutura comprida, espichada para cima, o ventre com exageros de protuberância em contraste com o torso franzino, todo esse desarranjo assentado em magras coxas e pernas, impondo-lhe andar desengonçado, e se completavam com rosto alongado, queixo protruso, boca larga, nariz levemente aduncado, olhos negros de pouco brilho, orelhas de abano e calvície bem avançada.
Restringiu-se o casamento ao rito civil, comumente qualificado como “união pela lei dos homens”, uma das condições impostas pelo seu Antenor que, declarando-se ateu convicto e pertinaz incrédulo em vida após a morte, além de seguidor da ideia de que se há inferno, é aqui que ocorrem tanto o choro de desespero quanto o ranger de dentes, pois cria mesmo na dualidade do Bem (o seu deus verdadeiro) e do Mal (o satanás crudelíssimo), resistia sempre ao ingresso em qualquer igreja ou templo ou terreiro, em síntese, em qualquer espaço de profissão de fé, de qualquer tipo de fé. E, se isso causou estranheza e desapontamento na mãe da noiva que sempre sonhou com a triunfal entrada da filha em igreja repleta de gente belamente vestida, nada, mas nada mesmo, moveu a doentia impassibilidade do pai, embora tenha suscitado alguma satisfação na moça porque, assim, atenuava-se a vergonha que certamente sentiria por protagonizar um enredo que lhe parecia desastroso, para não dizer de pesarosa comicidade. O evento revestiu-se de simplicidade e sobriedade, num final de tarde, já quase o cartório cerrando as portas, sem vestido branco, sem arranjo de flores e sem registros fotográficos, ante a presença de poucas pessoas, além dos servidores do ofício: a mãe da noiva, a irmã e sobrinho do noivo, e as testemunhas – um casal de amigos de cada lado –, tudo isso por exigência da desencantada Gláucia. E, certamente, os nubentes não seriam felizes para sempre; era o que revelava o semblante de desilusão da moça, que mais parecia estar galgando o Gólgota, sob outro tipo de madeiro, de lenho, no triste momento da crucifixão. Só o agora cônjuge varão não percebia o desconforto da amada, talvez porque a felicidade, no seu mais alto ponto de manifestação, embote os sentimentos propulsores da crítica, pondo o ser sob letargia, como se atingido por algum procedimento anestésico.

“A intimidade do homem nada tem a ver com a razão, nem com a lógica, nem com a ciência, nem com a prestigiosa técnica.” (Ernesto Sábato, em O Escritor e seus Fantasmas, citando Fiódor Dostoiévski, em Notas do Subterrâneo. Companhia das Letras, 2003; pág. 36).

Ah! Uma outra sensação ora me invade, a de ter ouvido, ao longe, a voz do húngaro Sándor Márai que, por ter estado em Canudos e por influência de Euclides da Cunha, o autor de Os Sertões, escreveu Veredicto em Canudos, na sua complexa língua. E o que ouvi? Ele dizer em português europeizado que “Sentia certa emoção (…) ao escrever – como o amador que na grande cena do tenor ousa cantar.” E, após curta pausa, asseverar: “Parece que a escrita é um ofício difícil. Ainda mais se apesar da idade temos a intenção de contar as lembranças todas, recorrendo a um excesso de palavras.” (4). E é exatamente isso – acreditem-me! – que aflige o incontinente narrador, nesta estação da via-crúcis com que mais parece esta alongada narrativa.
Os preparativos dos nubentes para a noite de núpcias, em que, por regra universal e milenar, se consubstancia a união de corpos – já que a de espíritos dá-se paulatinamente no curso da convivência cotidiana –, transcorreram em ânimos distintos, à medida que tal proceder desencadeou-se em ambiência psicológica díspar, ou seja, o sonho profusamente acalentado pelo ator protagonista da trama, apesar da idade nada jovial que pudesse inflamar mais e mais o desejo do macho, em confronto com o inafastável pesadelo da atriz antagonista, embora ainda mantidas íntegras as biológicas condições da sua virgindade ora prestes a romper sem qualquer manifesto prazer, o que a tornava severamente arredia e exageradamente protocolar, em face da reconhecida sensibilidade da fêmea.
Demorou-se o tempo que pôde em adentrar a indesejada alcova ou o que o código matrimonial rotula de ninho do Amor, onde a mítica Afrodite impera e conduz os apaixonados ao voluptuoso altar dos prazeres carnais. E isso ela fazia questão de ignorar. Até que se esgotaram as desculpas que lhe iam servindo de atalhos para prolongar a caminhada até à subida ao cadafalso, onde, convicta estava, a aguardava ansioso o seu algoz, pronto para desferir o golpe fatal. E uma das questões que mais a perturbavam nos últimos dias povoou, de repente, os seus pensamentos. Que filhos nasceriam de tão imperfeita combinação? Amedrontava-a a possibilidade de virem ao mundo “puxando” o pai. Para ela, isso seria a desgraça se estendendo pela vida que jamais pedira a Deus.
Do quarto de casal, previamente preparado para o clímax da aventura conjugal, ouviu uma voz ao mesmo tempo suplicante e soturna, grave:
– Meu anjo, você não vem dormir? Por que me deixa neste suplício de espera? – E romântico. – Vem, amor! Vem sentir o calor que ora arde em meu corpo, que é todo seu…
Criou coragem e disse para si mesma: Se já não me resta opção, o jeito é enfrentar a fera. Vamos acabar logo com esta brincadeira que a nada leva. Decidida, em rápidas passadas cobriu o curto espaço entre a sala de jantar e o cômodo contíguo à sala de estar, através de corredor estreito. Ainda não apropriadamente vestida para o ato, não adentrou de vez o quarto, apenas abriu um pouco a porta, o suficiente para uma ligeira primeira impressão e, sob iluminação frouxa de lâmpada que pendia do teto, o quadro imediatamente recolhido pelo olhar de felídea acuada causou-lhe pavor, pânico e súbito estado de terror. Já na cama, recostado em vários travesseiros, em posição entre sentado e deitado, usando apenas o excessivamente transparente calção do pijama, o marido a esperava em avançado estágio de preparação para o ato, à vista as intimidades em volume bem superior à média, na verdade, em gigantismo raro, incomum, mais parecendo o que o poviléu chama de “defeito de fábrica”.
Mesmo apavorada com o estrupício, percebeu que surgira uma oportunidade para a fuga daquela amaldiçoada arapuca, com razoável justificativa para o ato, bastando, para tanto, agir com calma, sem provocar qualquer desconfiança no velho. Ainda com a porta do quarto entreaberta, sussurrou:
– Estou apertada, amor. Vou ao banheiro. Volto já. – Naquele tempo ainda não havia, pelo menos em casas antigas do interior, o conforto das suítes. E isso favoreceu a execução do plano de Gláucia.
Puxou a porta com delicadeza, afastou-se sorrateiramente, dirigiu-se à porta de entrada da casa e, antes que o marido pudesse esboçar alguma reação, numa situação que lhe era por demais adversa, girou calmamente a chave na fechadura da porta, abriu-a, saiu tranquilamente e, já de pé na calçada frontal, sob a proteção da copa de um frondoso ipê amarelo, trancou-a por fora, pôs a chave entre os castos seios, e caminhou calmamente com destino à casa dos pais, a noite ainda em movimentação normal e, mesmo assim, ninguém a incomodou, sequer lhe desejou uma boa noite. Já na sua verdadeira casa, a noiva em fuga em plena noite de núpcias, teve de enfrentar a estranheza dos pais e dos irmãos. Justificou-se:
– Me fizeram cometer um desatino. Não há quem me faça dar o meu corpo àquele animal. Jamais me deitarei junto daquele monstro. – Assim, com palavras e gestual, fez esvair-se a estranheza que, até então, dominava os presentes.
Num demorado abraço na mãe, cochichou-lhe ao ouvido, dando-lhe ciência da verdadeira razão de ter fugido do marido em situação deveras insólita, inimaginável. E logo mereceu a devida aprovação de quem a havia aconselhado a cometer tamanho contrassenso.
Quanto ao seu Antenor, tão logo percebeu a gravidade do caso, por expô-lo ao ridículo, decidiu: mandar o sobrinho levar de volta os poucos pertences da desafeiçoada; não retornar, em hipótese alguma, à casa da família dela para cobrar qualquer tipo de reparação pelos danos morais que a moça lhe causara; contratar advogado para ingressar com processo de anulação do casamento, em face da não consumação do ato; reassumir a postura de celibatário, avesso a qualquer tipo de envolvimento amoroso com quem quer que fosse; afinal, aprendera muito bem a lição da vida em relação ao assunto. “Plus jamais, plus jamais / Capri, c’est fini.” (5).
Quanto à bela moça Gláucia, enclausurou-se no quarto, sem a menor disposição de acompanhar romanticamente o nascer e o pôr do sol, como gostava de fazer em passado recente. A visão do “estrupício” ferira de morte o seu amor pela Natureza – flora e fauna. Passados alguns dias, os pais concluíram que nada mais os unia ao bairro, à cidade. E a família das flores da cerejeira se mudou de volta para a cidadezinha mais interiorana; lá, pelo menos, em breve teriam boas novidades. Pra começar, a senhora Flávia estava grávida.

“Tive as paixões que a solidão formava / Crescendo-me no peito. / Tive, em lugar das rosas que esperava, / Espinhos no meu leito. // (…) // Iludimo-nos todos! – Concebemos / Um paraíso eterno. / E quando nele sôfregos tocamos, / Achamos um inferno.” (Junqueira Freire, em A profissão de frei João das Mercês Ramos, apud Manuel Bandeira, em Seleta de Prosa. Nova Fronteira, 1997; pág. 346).

Notas do autor:
(1) Dante Alighieri, em A Divina Comédia / Inferno: Canto XIX. Trad.: Hernâni Donato. Círculo do Livro, pág. 79.
(2) A flor da cerejeira significa a beleza feminina e simboliza o amor, a felicidade, a renovação e a esperança. A cerejeira representa também a fragilidade da vida, pois que passa pouco tempo florida. O fruto (a cereja), consideram-no o mais perfeito símbolo da sensualidade, do erotismo e da sexualidade, pela cor vermelha intensa.
(3) Ernesto Sábato, em O Escritor e seus Fantasmas. Companhia das Letras, 2003; págs. 105-106.
(4) Sándor Márai, em Veredicto em Canudos. Trad.: Paulo Schiller. Companhia das Letras, 2002; págs. 11-12.
(5) Versos da música Capri, c’est fini, de Verné Vilard, sucesso da época. (Tradução: Nunca mais, nunca mais / Capri, se acabou). Capri: ilha italiana, situada na baía de Nápoles, no mar Tirreno.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.