Conservadores, reformistas e emancipacionistas

Há uma profunda diferença entre as concepções políticas que têm como base de sustentação a forma valor e aquela que prega a superação radical da dita cuja.
Podemos considerar que se trata de formas e conteúdos dicotômicos que, por representarem oposição de forma e conteúdo, são inconciliáveis no que diz respeito ao convívio político num mesmo campo de atuação.  

São dois campos distintos, sendo um com vários matizes ideológicos, e o outro unificado numa concepção de relação social sem a mediação social pela forma valor.
No campo da relação social mediada pela forma valor estão os seguintes projetos políticos, com variações pontuais que não alteram a substância de seus conteúdos nos resultados finais. São eles:  

01.. O fascismo, que cresceu e se plasmou como poder por meio da política estatal de afirmação e regulação capitalista pela via do incenso ao trabalho abstrato e visão nacional socialista (uma contradição semântica do próprio objeto e enunciado).  
Não é por menos que a ascensão de Adolf Hitler ao poder político foi o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães que se firmou pelo voto depois de ver fracassado o putsch de 1923, com alguns mortos e outros presos, incluindo-se o próprio líder nazista, que saiu da prisão com aura de salvador da pátria.  
Benito Mussolini, fundador do fascismo italiano, inicialmente se filiou ao “Partido Socialista Italiano” (1901 a 1914) para, durante a primeira guerra, se apresentar como “Fascio d’azone Revoluzionaria” (1914 a 1919), e depois
“Faces de Combate Italianas” (1919 a 1943) e Partido Republicano Fascista (1943 a 1945).  

Como se vê, a simbologia do trabalho abstrato produtor de valor; do socialismo e republicanismo estão presentes nos dísticos partidários das doutrinas que levaram o mundo à segunda guerra mundial e seus cerca de 50 milhões de mortos, além de danos materiais incalculáveis.  

02. O marxismo-leninismo, ao endeusar o trabalho abstrato ao invés de condená-lo, como queria Marx, e com ele a extração de mais-valia estatal dos trabalhadores russos, igualzinho ao que fez Mao Tse Tung na China, e sua cartilha stalinista, pode se inserir no campo do capitalismo de estado, inicialmente estatizante, até se render à economia de mercado mundial.

03. A socialdemocracia, que se afirma como a antítese do nazifascismo conservador, também se insere entre as formas políticas que atuam sobre uma base de relações mediadas pela forma valor e a partir de um processo eleitoral de alternância cíclica no poder político que proporciona um eterno pêndulo  entre posturas mais avessas aos ganhos civilizatórios dos conservadores e as que querem humanizar o capitalismo com condescendências de preocupações sociais mais civilizadas, e que assim, voltam sempre para o mesmo ponto de partida.  

04. O anarquismo que jamais se consolidou como relação social vigente, até porque a sua contestação ao Estado e às religiões, sem atacar a mediação social pela forma valor, caiu num vazio de aglutinação de forças e apenas figura como um viés interessante da história da luta contra a opressão sistêmica.  
 
A identidade de todas estas formas políticas é o sistema produtor de mercadorias e tudo que a ele se incorpora, e que por seu conteúdo intrínseco termina sempre por as igualar de modo pragmático, vez que a política não tem soberania de vontade sobre a economia capitalista que é de onde retira os seus sustentos.    
O capitalismo é o suserano de todas as formas políticas que se desenvolveram sob os seus fundamentos, e nenhum vassalo pode dar ordens a este senhor ditatorial, abstrato e impessoal, a forma valor, que é de onde tiram o seu sustento pela via da taxação fiscal.

A política e os políticos beijam a mão do Estado e seus impostos que são cobrados a uma população já exaurida pela extração de mais-valia, sob o argumento falacioso da imprescindibilidade da sua institucionalidade para o atendimento das demandas sociais de sua incumbência constitucional, jamais cumprida.
Ressalte-se que com a falência do Estado em face da depressão capitalista, causada pela contradição dos seus próprios fundamentos, implica num atendimento das demandas sociais cada vez mais precário, quando não inexistente.

Até a própria extração de mais-valia que sustenta o capital agora escasseia irremediavelmente, e nem mais isto os escravos do trabalho abstrato conseguem obter por conta do desemprego estrutural que nega o trabalho que os escraviza, fenômeno que se alastra mundo afora prenunciando a morte do capitalismo após seu ciclo de nascimento e milenar desenvolvimento.  

As formas políticas sob o capital exploram o trabalho abstrato e o vendedor da mercadoria força de trabalho (única mercadoria que o trabalhador possui para venda), e ainda lhe cobra impostos, ou seja, o trabalhador explorado financia a sua própria opressão, e é por isto que este conjunto de fatores tem que ser superado, e não reformado por medidas protetivas legais impossíveis de serem consistentes.

Destarte, a única doutrina que prega a libertação da camisa de força da política serviçal do capital e da sua ditatorial servidão social é aquela que se situa fora do campo de mediação social pela forma valor e suas categorias complementares (trabalho abstrato, trabalhador, dinheiro, mercadoria, mercado, política, socialismo, democracia burguesa, Estado, direito burguês, etc.).

A negação da política e da forma valor são concepções tão simultaneamente imbricadas que não podem ser dissociadas, razão pela qual não se pode conceber que a esquerda anticapitalista possa entender que ao mesmo tempo em que se imiscui nas esferas políticas do Estado, e assim se torna dependente de cargos e dotações orçamentárias em dinheiro, possa negar a forma valor que a sustenta.  
   
Algo assim tão contraditório como alguém que, sem capital e querendo ficar rico, prescinda da exploração do trabalho abstrato extrator de mais-valia que promove a acumulação do capital. Uma coisa não vive sem a outra, do mesmo modo que a política não vive sem o capital que segrega a maior parte da população e, portanto, não pode haver político e política institucional emancipacionista.  
Capitalismo e política institucional são faces de uma mesma moeda.

O emancipacionista é visceralmente avesso ao capital e à política que lhe dá sustentação, daí se situar num campo de atividade social que foge dos parâmetros tradicionais e fazer uma abordagem diferenciada dos conceitos tradicionais, tais como:  
– ao invés de mendigar empregos e salários, como faz Lula, seu partido e sua administração pública, e os sindicalistas, os emancipacionistas negam esta necessidade e pregam a quebra das correntes dizendo que não se trabalhe jamais (favor não confundir a categoria trabalho, dado histórico, com atividade produtiva social de sustento das necessidades humanas, dado ontológico);  
– ao invés de concorrer às vagas ao parlamento burguês e ser sempre minoria a legitimar aquela instituição burguesa, pregam: NÃO VOTE E NÃO SE CANDIDATE AOS CARGOS ELETIVOS DO ESTADO;
– ao invés de querer a adoção de um novo padrão monetário fiduciário de concorrência ao dólar, pregam a superação de todos as moedas, seja do dinheiro como representação do valor ou moeda falsa oficial por não ter correspondência com lastro na produção de mercadorias que lhe empreste um mínimo de credibilidade;  
– ao invés de tentar um arcabouço fiscal que permita o atendimento de demandas sociais de modo mais abrangente, como querem todos os governos que buscam agradar os explorados do capital, pregam o banimento dos impostos;
– ao invés de defender a criação de um banco como o do BRIC’s, pregam o fim da agiotagem, seja aquela escorchante, que tira a o escalpo de devedor, ou seja aquela que mantém o devedor apenas vivo para continuar na servidão;  
– ao invés de pugnar pela retomada do desenvolvimento capitalista ora depressivo, pregam o fim do dito cujo e a adoção de um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades coletivas e que dita produção seja capaz de promover o bem-estar mundial a partir do uso das tecnologias avançadas;
– ao invés de pugnar pela volta ao trabalho vivo a partir dos nervos e músculos humanos na produção de valor em substituição ao trabalho morto, das máquinas, que está levando ao colapso capitalista e se constituindo como a maior das suas contradições existenciais, defendem o uso de toda tecnologia a serviço do ser humano e sem produção de valor, com os evidentes benefícios daí advindos, e a possibilidade de gozo de um ócio produtivo nos vários campos da atividade artística, educacional, esportiva, afetiva, etc.;  
 – ao invés da estrutura de poder do Estado e todas as suas instituições, inclusive com os enormes gastos militares com pessoal e equipamentos de guerra, pugnam pela extinção das forças militares e de todos os artefatos de guerra, inclusive atômicos;
– ao invés de defender as adaptações atuariais dos gastos com a previdência social que remetem as aposentadorias dos contribuintes para uma idade proibitiva, pugnam pela assistência aos idosos, inválidos e crianças a partir de uma produção social coletiva a ser levada a cabo pelos que estão aptos à produção social compartilhada;
– ao invés de levantar muros nas fronteiras e elaborar leis contra a imigração, defendem que sejam abolidas as fronteiras nacionais e o próprio nacionalismo, e o fazem em nome da fraternidade humana entre os povos de várias etnias;  
– ao invés do estabelecimento de pactos internacionais para a diminuição da emissão do gás carbônico pelas grandes potências econômicas, e que nunca são cumpridos, defendem a superação da produção e das exportações e importações de mercadorias por estes países, como forma de superação de tais emissões suicidas;  
– ao invés de aceitar a positivação das categorias capitalistas na grade curricular de ensino básico, defendem a crítica categorial a ser lecionada pelos professores de modo a que seja construída no consciente coletivo a negação do que é socialmente negativo, como por exemplo a exploração salarial que promove a desigualdade econômica, e a lógica autotélica do capital que causa o caos ecológico nos rios, mares, solo, subsolo e atmosfera causadora do aquecimento global ecocida;
– ao invés das negociações políticas que implicam sempre em engolir sapos para que o exercício do poder político institucional do Estado se viabilize por quem o exerça, e que existe para dar sustentação à relação social capitalista e seus tenebrosos negócios, preferem dizer NÃO e rejeitar a inevitável indigestão;
– etc., etc. etc.  
Certamente que os defensores da pretensa boa política dirão que as pretensões emancipacionistas são utópicas e distantes da realidade concreta e possível; mas a realidade e a necessidade, mãe de todas as providências pragmáticas, aliada à teoria revolucionária está a conspirar contra a incredulidade e a impossibilidade.  

Mas a estes incrédulos afirmamos que Jesus Cristo também parecia um lunático aos olhos do poderoso império romano, e por conta dos seus ensinamentos, então revolucionários, é que estamos hoje, 2023 anos após sua morte por crucificação, ainda falando em seu nome como fundador de uma das maiores doutrinas religiosas existentes no mundo, enquanto o império romano simplesmente desapareceu desde há muito.

Estamos em campos mais férteis do que os que estão naqueles que são arados pela força destrutiva e autodestrutiva do capital.  

Sem a menor pretensão de sermos salvadores de um reino de outro mundo, e muito menos das pátrias como pátrias, modestamente afirmamos que os emancipacionistas se encontram num campo de atuação diferente do que vem se plasmando há milênios, desde que surgiram as primeiras trocas quantificadas de mercadorias e que deram expressão à forma valor substituindo a partilha.  

Não somos melhores que ninguém, mas nos reservamos o direito de sermos diferentes do que está posto na contenda ideológica de uma conjuntura caótica mundial, seja do ponto de vista político, social ou ecológico.

“Pensar o impensável; fazer o impossível”, é o lema da crítica categorial à forma valor e à dissociação de gênero.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;