As consequências do atentado contra Bolsonaro, por Cleyton Monte

Estamos a menos de trinta dias do primeiro turno. O cenário continua nebuloso, mas algumas linhas começam a ficar nítidas. Jair Bolsonaro não é um personagem efêmero da vida política brasileira. Com a impugnação do registro de Lula, o candidato do PSL lidera as pesquisas de intenção de voto. Juntamente com Fernando Haddad, seus eleitores são os mais convictos. Acreditava-se que a exposição aos debates e entrevistas transformaria o “mito” em pó. Outros apostavam no impacto negativo da propaganda eleitoral. Nada disso vem funcionando e o deputado surpreende a cada pesquisa. Para mexer ainda mais com as peças do quebra-cabeça político, um atentado a faca, ocorrido em um ato de campanha em Minas Gerais, deve alterar todo o circuito da campanha presidencial.

Atentados, acidentes e assassinatos não são novidades na política brasileira. Suas consequências jogam por terra as análises mais coerentes. Na eleição de 1930, o assassinato de João Pessoa, vice na coligação de Getúlio Vargas, acirrou os ânimos e fortaleceu os líderes da oposição que mais tarde derrubaram o governo de Washington Luis. Em 1954, o atentado da Rua Toneleiros, que baleou Carlos Lacerda e matou um oficial da Aeronáutica, agravou a crise do governo Vargas. Mais recentemente, durante a eleição de 2014, a queda do avião que levava o presidenciável Eduardo Campos causou comoção nacional e deixou sua vice, Marina Silva, na liderança por dez dias. São atores e contextos distintos. O que liga esses acontecimentos é o fato de jogarem com o inesperado e obrigarem as lideranças em disputa a retomarem seus cálculos. É isso que está acontecendo após o atentado contra Bolsonaro.

O candidato hospitalizado terá uma cobertura intensiva por parte da imprensa, dificultando o debate dos principais temas da corrida presidencial –terrível para a formação da opinião. Ainda não se sabe como a coordenação de sua campanha abordará o crime. O mais traumático é a construção de uma narrativa de vitima da violência política, ataque aos partidos de esquerda e utilização do caso para alimentar o armamentismo. Com isso, a polarização e o ódio seguirão presentes na eleição. Do ponto de vista estratégico, o maior prejudicado com esse fato é, sem dúvida, o ex-governador Geraldo Alckmin, que já preparava um arsenal contra o militar. O PSDB terá que rever completamente seu discurso. Antes da facada, Bolsonaro já avançava a passos largos sobre o eleitorado de direita (em regiões tradicionais do tucanato). FHC e seus correligionários terão um grande trabalho e pouquíssimo tempo para reverter esse quadro.

Contudo, temos que ter prudência. Punhaladas não ganharão a eleição presidencial. Isso pode levá-lo ao segundo turno e fortalecer seus apoiadores. Para sair vitorioso, Bolsonaro terá que vencer uma rejeição monumental, concentrada principalmente nas mulheres, região nordeste e pessoas de baixa renda. Sem esquecer que seus adversários não estarão parados. Haddad, Marina e Ciro disputam cada palmo da imensidão lulista – a gramática política mais poderosa. Além disso, não posso deixar de mencionar que as comoções são como furacões: chegam com força, atingem o ápice e suavizam logo em seguida. A grande questão nesse drama é saber o tempo de repercussão do atentado. As próximas pesquisas podem dimensionar o impacto da facada sobre o jogo eleitoral. De qualquer forma, a violência elimina o debate civilizado, amplia a crise política e atenta contra os pilares da democracia!

Cleyton Monte

Cleyton Monte

Doutor em Sociologia, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (LEPEM), membro do Conselho de Leitores do O POVO e professor universitário.

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